18 de maio de 2007

ENTREVISTA: JOÃO AMÍLCAR SALGADO

Cedê Silva

Professor João Amílcar fala sobre JK, doença de Chagas e tráfico de órgãos

A lendária turma de Juscelino Kubitschek, museus de Medicina, tráfico de órgãos, Carlos Chagas, Pedro Nava. Um historiador da Medicina pode falar de todos esses tópicos e mais.

João Amílcar Salgado, professor aposentado da FM, vai apresentar este mês cinco trabalhos no 4º Congresso Mineiro de História da Medicina, em Itajubá. Um dos temas livres enviados despertou tanto a atenção dos organizadores que ele foi convidado a apresentá-lo sob forma de conferência.

Nesta entrevista, adiantamos alguns dos pontos que serão mostrados em Itajubá.

Informe Medicina:O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais vai completar 30 anos. Porque ele é tão importante?

João Amílcar: Porque a História da Medicina até a criação do Centro de Memória estava relegada a segundo plano, ou ao último plano da medicina brasileira. Havia apenas dois museus – um em Salvador e outro em São Paulo - e estavam bastante estagnados. E aí com a criação do Centro de Memória (em 1977), e do curso de História da Medicina nesta faculdade (em 1978), surgiu um interesse novo pela matéria. Havia essa lacuna, e então uma série de historiadores bastante “tímidos” se entusiasmaram, o que acabou resultando em outros centros sendo criados, inclusive fora da Medicina e por todo o Brasil. E foi criada a Sociedade Brasileira de História da Medicina, que passou a fazer um congresso anual nacional. E ao mesmo tempo, o sucesso foi tão grande que passaram a haver congressos estaduais, e estamos na nossa quarta edição este ano.

Informe Medicina:Porque Juscelino Kubitschek não queria Pedro Nava, e sim Odilon Behrens, para orador da lendária turma de 1927?

João Amílcar: Esse é um assunto fascinante na biografia dos dois grandes amigos – eles eram amigos e continuaram amigos, mas é inegável que o Pedro Nava ficou muito frustrado ao saber que o Juscelino apoiou para orador o Odilon Behrens, que venceu. E no tema livre eu relato que o Juscelino, percebendo que o Pedro Nava ficara magoado e sendo um político hábil, teve a idéia de levar a turma para o Palácio da Liberdade para agradecer ao então governador Antônio Carlos por ter criado a Universidade de Minas Gerais em setembro de 27, sendo que eles formariam em dezembro do mesmo ano. Então eles são chamados, por iniciativa do Pedro Nava, de primogênitos da UFMG.

IM:Mas existe alguma razão específica pela qual o JK não queria o Pedro Nava?

 JA: A minha idéia é a seguinte. Havia a turma de 27 e dentro dela havia o “grupo dos literatos”. E esse grupo era dirigente de uma revista que hoje é uma raridade, a revista do Diretório Acadêmico, que na época chamava Centro Acadêmico. E parece que o Juscelino não pertencia a esse grupo, ele não era um dos “literatos”. Eles escreviam, desenhavam ou faziam poemas. Então uma das hipóteses é que Juscelino apoiou Odilon Behrens por não ser parte dessa elite intelectual da turma. Além disso, Juscelino também não fazia parte de nenhuma família ilustre – isso ainda acontece hoje aqui em Minas, então imagine em 1927, os alunos querem saber se o colega tem algum parente importante, se pertence a alguma família tradicional. E o Juscelino não pertencia, e nessa turma tinha Pedro Nava, Pedro Salles, etc., todos de famílias importantes. Então acho que essa é uma razão. É interessante que Kubitschek e Behrens são nomes de gringos.

IM:Conte a história da garota Berenice e sua importância na doença de Chagas.

 JA: Carlos Chagas descobriu a doença em 1909, numa criança de dois anos de idade – se viva, portanto, ela completaria 100 anos este ano. Curiosamente, 2007 é também o centenário do professor Amílcar Vianna Martins, que foi professor aqui de Parasitologia, estudioso da doença de Chagas e ele próprio vítima da doença. Então a Berenice foi a menina que examinada pelo Carlos Chagas com sintomas de malária, levou-o a descobrir uma doença inteiramente nova quando ele analisou seu sangue. E todos pensavam que essa menina havia falecido aos dois anos, com esse quadro muito grave da doença. Mas na verdade ela sobreviveu, e em 1961 o Vianna Martins, que era parasitologista e não clínico, encaminhou a Berenice para mim, para que eu como clínico a examinasse. Por isso estou escrevendo um livro sobre ela, O Caso Berenice, que vai ser publicado daqui a dois anos, no centenário da descoberta da doença.

IM:De 20 anos pra cá, o Brasil melhorou ou piorou sua capacidade de combater o tráfico de órgãos?

JA: Bom, esse é um tema que os organizadores do Congresso em Itajubá acharam tão relevante que em vez de apresentá-lo como tema livre, eu vou apresentar em forma de conferência. Isso é muito interessante porque 20 anos atrás se você dissesse que havia tráfico de órgãos ou de crianças - para adoção ou para tirar órgãos – isso era tão escandaloso, tão inacreditável, que quem falasse isso é que era desacreditado. Eu mesmo fui repreendido por um professor desta Faculdade quando eu disse numa reunião o que estava acontecendo. A primeira denúncia foi feita numa entrevista que concedi ao Informativo do Conselho Regional de Medicina ao final de 1986, que se tornou histórica porque foi a primeira vez que o problema foi apresentado ao ambiente universitário.

Concedi a entrevista logo depois de chegar dos Estados Unidos, trouxe dados desse país e logo depois houve o Congresso de Ensino Médico em Florianópolis, no qual distribuí cópias do texto. E uma pessoa que se interessou muito pela entrevista foi um professor da Faculdade de Medicina de Taubaté, Roosevelt Kalume. Ele leu lá que as cidades a beira de estradas com grande incidência de desastres seriam transformadas em centros captadores de órgãos para transplante. E isso interessava aos transplantadores de órgãos de tal maneira que os defeitos nas estradas não seriam corrigidos. E o Roosevelt, morando numa cidade à beira da estrada Rio-São Paulo, verificou que aquilo que eu previa já estava acontecendo em Taubaté. Ele foi apurar a denúncia, e em conseqüência foi demitido. Então o homenageio nesse texto. E eu nunca estive com ele pessoalmente. E o mais interessante é o seguinte: vinte anos atrás, nossas estradas estavam relativamente boas. Então você imagine, aplicando o mesmo raciocínio, à demora com que as estradas estão sendo corrigidas.

Ainda ressalto o seguinte: em vez de consertar as estradas, estão construindo serviços de resgate. Em Belo Horizonte mesmo existem dois desses serviços que concorrem entre si. O interesse em captar órgãos é maior do que aquele para reparar ou fazer novas estradas.

Congresso Mineiro de História da Medicina tem trabalhos da UFMG

Redação: Cedê Silva – Estudante de Jornalismo
Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG
(31) 3248 9651 - divulga@medicina.ufmg.br

MedCine de junho debate vícios

RH oferece bolsas para funcionários no Laboratório do Movimento

Servidores da UFMG aderem à greve nacional

Site terá nova página de notícias

Edital - Eleição para representante junto ao NUPAD

Edital - Eleição para representante junto à Congregação da Faculdade de Medicina

Cenex-med inaugura novo espaço

Especialista discute clonagem nos 80 anos da UFMG

Congresso de Medicina da Família encerra inscrições

Moysés Szklo no lançamento do Elsa em Minas Gerais

Prevenção à Violência e Saúde em pauta

Matrícula só com senha Minha UFMG

Eleições na ASSUFEMG

Cadastro no Sinaes pode ser feito na sala Aurélio Pires

Curso ensina atendimento inicial a crianças em estado grave

Curso Prático ensina técnicas de cirurgia na coluna

MST discute saúde do trabalhador rural

Congresso Mineiro de História da Medicina tem trabalho da UFMG

Entrevista: Prof. João Amílcar Salgado

Revista Médica é reestruturada

Seminário articula redes de Saúde e Paz

 

>> Notícias anteriores

    Av. Prof. Alfredo Balena, 190 Belo Horizonte - MG - Brasil Cep 30130-100 tel: +55 0 31 3409-9300                                 Sugestões, críticas ou dúvidas