23 de março de 2007
ENTREVISTA
DAVID VLAHOV
SAÚDE A POSTOS: NOVA IORQUE ESTÁ DE OLHO EM BH
Por Frederico Cedê Silva*
Pesquisador americano destaca a importância de políticas públicas voltadas para as grandes cidades, como forma de aprimorar a qualidade de vida. Para ele, um serviço de saúde universal é, “moral e eticamente, a coisa certa a se fazer”.
“O modelo de atenção à saúde oferecido aqui em Belo Horizonte (multicêntrico) é uma maneira maravilhosa de lidar com saúde urbana: estendê-la para todos os bairros”
Informe Medicina: No seu artigo “ Perspectivas sobre condições urbanas e saúde da população ”, e em sua conferência, realizada no dia 14 de março, aqui na Faculdade de Medicina, o senhor afirma que “fatores além do indivíduo são os determinantes primários da saúde de populações urbanas”. É mais saudável trabalhar por um ambiente melhor e melhores condições urbanas do que fazer exercícios e ter uma boa dieta?
David Vlahov: Ambos são importantes. A razão pela qual argumentamos em favor de saúde ambiental, ambiente social e ambiente físico é que, atualmente, em saúde urbana, isso é ignorado. Dizemos a uma pessoa para fazer mais exercícios. Indivíduos são responsáveis por se exercitar. Mas, se no ambiente onde se vive não existe lugar seguro para caminhar, então as pessoas não vão caminhar. Você não pode culpar essa pessoa por não caminhar, por exemplo. É por isso que é preciso considerar o ambiente. Não podemos culpar as pessoas por algo que está fora do controle do indivíduo. Em vez de culpar pessoas, precisamos ser capazes de considerar o ambiente mais amplo. E é isso que fazemos em saúde pública.
Informe Medicina: No mesmo artigo o senhor também menciona “vários fatores além da pobreza que explicam a saúde de populações urbanas”. Que fatores são estes?
David Vlahov: Bem, pobreza é uma descrição de desvantagem concentrada. E isso é representado por três grupos de aspectos. Primeiro, os aspectos físicos do ambiente, como moradia, estradas, transporte. Todos esses podem afetar a saúde, em termos de acidentes com automóveis, moradias não-seguras... O segundo, é o ambiente social. Mesmo em comunidades pobres, se as pessoas se unem e se organizam por melhores condições, isso tem impacto muito importante em termos de aprimorar a saúde urbana. O terceiro é o nível dos serviços de saúde. Se os serviços de saúde estão a uma grande distância das comunidades, se as pessoas não podem chegar até lá, não é bom. O modelo aqui em Belo Horizonte, com clínicas ‘familiares’ por toda a cidade, é uma maneira maravilhosa de lidar com saúde urbana. E de estendê-la para todos os bairros da cidade.
IM: O senhor também fala de impactos que as pessoas podem fazer em cidades que são mais eficientes (“cost-effective”). Então, por exemplo, saneamento básico traz resultados mais positivos para a saúde pública, por cada dólar investido, do que campanhas, contra o abuso de drogas?
DV: Bem, antes é preciso pensar em quais são as necessidades básicas de uma população. Certamente ter água limpa, esgoto, controle de doenças infecciosas. Isso pode evitar a contaminação da população por várias doenças. E algumas das soluções para essas questões podem ser relativamente fáceis. E baratas! Basta vontade política para que os cidadãos as realizem. Por outro lado, existem outros programas que lidam com problemas diferentes, como o uso de drogas, que você citou. O uso de drogas tem muitas conseqüências, como infecção de doenças, e outras tais como a violência e o medo. Então, é também muito importante. Ser capaz de lidar com as drogas deve ter alta prioridade, mas requer muito mais esforço: muitas pessoas trabalhando juntas, comunidades se unindo. Enquanto para instalar a água, basta que você coloque o encanamento e a fonte de água limpa esteja presente, para o controle do uso de drogas é preciso que os vizinhos se unam e digam “nós não queremos isso no nosso bairro”. Isso requer muito mais tempo e energia. Não se deve basear o julgamento de prioridades no que é mais eficiente em termos de custos. Este cálculo é mais complexo.
IM: O senhor tem acompanhado as atividades do Observatório de Saúde Urbana. O que o Observatório pode ensinar a Nova Iorque?
DV: Ótima pergunta. O que estou aprendendo enquanto estou aqui! É muita coisa! Um dos principais são os centros de saúde familiares de que lhe falei. Achei muito interessante o fato de eles existirem em cada bairro. E como eles organizam com os médicos, os enfermeiros, o sistema de enfermagem, e como vão até a comunidade.
IM: Não é assim em Nova Iorque?
DV: Não, não. Em Nova Iorque existem centros de saúde maiores, onde as pessoas precisam ir, o que não é conveniente. Lá eles não são tão bem distribuídos. Não existe o mesmo alcance com as pessoas da comunidade, criando um relacionamento, tão importante. Em Nova Iorque, se, por exemplo, houver necessidade de mobilização por causa de uma doença, como HIV ou dengue, o Departamento de Saúde (da prefeitura) vai à TV e fala às pessoas, e também colocam pôsteres nos ônibus. Mas, eles não têm o nível de alcance que vocês têm aqui, com os centros de saúde, nos quais se cultiva relacionamentos com as pessoas, e elas podem conversar umas com a outras - sobre algo que você entende, eu entendo. Isso é algo que eu estou estudando aqui com muito cuidado. Também gosto da idéia de ginástica, esse é um novo conceito pra mim. E ter outros serviços próximos aos centros de saúde, oferecendo um pacote completo para a comunidade, é muito positivo. Em Nova Iorque, há uma estrutura física muito diferente para saúde. O serviço de saúde não é universal. Isso é algo que tenho esperança de podermos trazer para os Estados Unidos. Porque moralmente e eticamente, isso é a coisa certa a se fazer.
IM: Por falar nisso, na Califórnia, o governador Schwarzenegger iniciou debate sobre o futuro dos seguros de saúde. Como o senhor avalia este debate?
DV: Bem, existem vários estados diferentes neste momento dizendo que é... um crime, um escândalo, que ainda existam pessoas que não têm seguro de saúde e nem acesso a serviços de saúde. Nos últimos 50 anos, diferentes movimentos tentam reverter esse quadro. E a resistência contra isso parece vir de forças conservadoras. Penso que se aproxima a hora que os americanos perceberão que o serviço universal de saúde é possível. Estamos acompanhando o que acontece na Califórnia e em Massachusetts, os diferentes experimentos que estão acontecendo.
IM: E o que sua experiência nos EUA pode trazer em saúde urbana para BH?
DV: Acho que uma das coisas que posso trazer comigo para compartilhar aqui são métodos epidemiológicos avançados, usados para estudar populações. Como sabemos que uma determinada política pública ou intervenção é eficaz? Pode ser uma boa idéia, mas pode ter conseqüências não-antecipadas, então às vezes a política é implementada e as pessoas não têm a informação dos resultados. É muito difícil avaliar esses tipos de programas, por isso estamos trabalhando muito em Nova Iorque para saber como fazer esse tipo de avaliação, descobrir quais são os desafios metodológicos. Isso é algo que eu espero compartilhar enquanto estou aqui.
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** A visita de Vlahov - PhD em Epidemiologia e membro da Academia de Medicina de Nova Iorque - se deu a convite do Observatório de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, por meio da Cátedra Criminalidade, Violência e Políticas Públicas do IEAT (Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG), patrocinada pela Fundação Ford.
Frederico Cedê Silva é estudante de jornalismo e estagiário da
Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG.
(31) 3248 9651. divulga@medicina.ufmg.br
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