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Bloco Cirúrgico
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Prof. Luiz Gonzaga Pimenta
Prof. Adjunto, Mestre e Doutor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG

Recebemos com otimismo um manual intitulado "Relação Médico-Paciente - profilaxia da denúncia contra o profissional" (1997), elaborado por membros selecionados do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais (CREMEMG). Ao tomar conhecimento do conteúdo, muito útil, acreditamos que uma pedra fundamental foi lançada, início de uma nova era, uma retomada de posição e começo de uma reação, todas no sentido de resgatar a injuriada imagem do "médico brasileiro", por tudo e por todos. Chega de injustiça, agressão e exploração sobre uma categoria de profissionais que, por múltiplas circunstâncias está sendo vilipendiada no trabalho individual e coletivo capaz de manter, por princípios, a confiança do paciente e a qualificação do profissional em busca de um resultado imponderável mas quase sempre positivo.
Pressentindo mudança, resolvemos participar, imitando com humildade o beija-flor, que transportou no bico uma gotinha d'água com a intenção de ajudar a apagar, de densa mata, vigoroso incêndio. Queremos abrir espaço, muito mais em relação ao jovem cirurgião geral, no intuito de valorizar e retomar a maneira de trabalhar num "Bloco Cirúrgico", o mais importante setor de um hospital que mantém como melhor propósito servir ao paciente numa atividade segura, digna por ser médica, indispensável pela necessidade e excelente pelos resultados obtidos. É no bloco cirúrgico que o paciente comparece em busca da saúde orgânica e é no mesmo ambiente que um profissional, de mais alta qualificação teórica, técnica e ética, é forjado com a finalidade insubstituível de bem fazer com as mãos e melhor servir de coração.


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Em medicina, especificamente, reciclar é preciso. De quando em vez, devemos rever conceitos teóricos, avaliar procedimentos terapêuticos e reativar atitudes éticas.
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Ambientes especiais e situações refletidas em profundidade nos obrigam a parar sem retroceder, mergulhando no subconsciente à procura de maior conhecimento, melhor compreensão e quem sabe um plano de clivagem rumo a uma solução.

Dos locais especiais, um Templo Sagrado, a Cavidade Peritoneal e o Bloco Cirúrgico, se bem analisados, são muito semelhantes e merecem atitudes e comportamentos respeitáveis.

O Templo, em todos os credos, induz à meditação, absoluto silêncio tentando ouvir o Ser Supremo. A cavidade peritoneal, espaço imaculado da homeostase, quando injuriada, reage gritando em dor, implorando uma precoce e efetiva ação terapêutica. O Bloco Cirúrgico, abrigo momentâneo do indivíduo solitário, que mudo e quase morto de medo, recorre à prece implorando a troca do acidente, da complicação, da recorrência, da seqüela, da mutilação, da iatrogenia e do risco de óbito pela agressiva intervenção que lhe restaure a saúde, patrimônio magno de todo ser vivo. Todos os Templos do mundo, morada do Creador, respiram harmonia em respeitável introspecção. A Cavidade Peritoneal, violada em algum momento por uma laparatomia exploradora, entreabre-se num estoma, maior ou menor, por absoluta necessidade terapêutica. O Bloco Cirúrgico, outro ambiente sagrado, clama por respeito ao paciente cirúrgico, antes mesmo de ser tomado por local banal, misturando condutas vulgares, atitudes menores, desvio de comportamento e propósitos secundários.


Trabalhar no Bloco Cirúrgico significa buscar a perfeição técnica, revivendo os ensinamentos de William Stewart Halsted (Ann Surg 225: 445, 1997), precursor da arte de operar, dissecando para facilitar, pinçando e ligando um vaso sangüíneo, removendo tecido macerado, evitando corpos estranhos e reduzindo espaço vazio, numa síntese feita com a ansiedade e vontade da primeira e a necessidade e experiência da última.

Mas, se a cirurgia e o cirurgião vêm sofrendo grande evolução, técnica a primeira e científica o segundo, desde o início do século, a imagem que todo doente faz sempre, persiste numa simbiose entre mitos e verdades. Dos mitos, quantos não julgam o cirurgião um "mão abençoada" verdadeiro semideus. Para outros, a cirurgia significa enfrentar ambiente desconhecido chamado "sala de cirurgia" onde a fobia ganha espaço rumo ao infinito. O medo prepondera em muitos. A confiança é um reconhecimento de todos os pacientes, familiares e amigos. Confiança e segurança têm que ser preservadas sem o risco de serem corroidas por palavras e atitudes do pessoal que trabalha no bloco cirúrgico, principalmente quando a intervenção cirúrgica está sendo realizada sob anestesia local ou radicular, antes que pela geral, capaz de impedir o paciente de tomar conhecimento de todas as coisas, principalmente daquelas relacionadas ao prognóstico negativo e tantas outras...

Não foi fácil transformar, para a população, o ato cirúrgico numa atividade científica, indispensável, útil e por demais segura. Da conquista da cirurgia, como excelente arma terapêutica para a manutenção de um alto padrão de qualidade técnica, resta a responsabilidade dos cirurgiões, os herdeiros do suor e sangue, que se iniciou com o trabalho desenvolvido por Billroth, Lister, Halsted, Moyniham, Kocher e uma legião de figuras humanas dignas do maior respeito, admiração e gratidão universal.

Exercendo a Cirurgia Geral por 40 anos ininterruptos, numa permanência superior a 30.000 horas de trabalho árduo, confinado à sala de cirurgia, sobrou como última lição não haver dedicado mais e feito muito melhor em favor dos 12.000 semelhantes. Todos iguais em tudo e dos quais tentamos remover uma lesão orgânica ou corrigir um distúrbio funcional através da ação cortante do bisturi, em busca de um alívio provisório ou definitivo, em caráter urgente ou eletivo.

Que significa, nesta retrospectiva, dedicar mais e fazer melhor?

Nada menos que trabalhar no ambiente cirúrgico, cotidianamente, sem rotina e o simples e indispensável direito de um "regra três", revendo conceitos, aplicando conhecimentos, ultrapassando dificuldades, removendo dúvidas, transpirando trabalho, aceitando o imponderável e esquecendo da vida.


Desde longa data escrevemos: o cirurgião entra no bloco cirúrgico com esperança e não deve sair, com dúvida (Folha Médica 71: 125, 1975).

O ato de operar seria a melhor atividade do mundo se três inconvenientes não existissem: uma operação tem hora para começar e nunca previsão para terminar; a diérese quase sempre é seguida de um sangramento que necessita imediata e eficaz hemostasia e na sala de cirurgia, para executar com êxito um ato cirúrgico, o cirurgião vive na dependência e ajuda de pelo menos cinco auxiliares, uns mais e outros menos diretos. Foi então que veio à mente uma história, quase infantil, dos três cegos que gostariam de sentir um elefante. Um dia, os cegos tiveram a oportunidade de encontrar com aquele paquiderme. Usando as mãos para contactar o meio ambiente, o primeiro cego levou-as em direção à orelha e imaginou ser o elefante um tapete. O segundo cego tocou no animal pela tromba. Agora entendo. O elefante é uma gigantesca cobra. O terceiro cego levou a mão a grotesca perna e jurou que o elefante é igual a uma frondosa árvore. Todos os três acham que estão certos, mas cada um deles não tem certeza de estar errado. Não é de outro modo que um homem sozinho não consegue saber e fazer tudo, senão uma pequena parte. Quando trabalhamos juntos, como no bloco cirúrgico, cada um contribui com uma parcela, maior ou menor, para a concretização do todo, do ato cirúrgico por completo, com muita dedicação e sabedoria. Da mesma maneira, cada um de nós, discípulos de Hipócrates, fica obrigado a se unir e prestigiar, como o beija flor, o Conselho Regional de Medicina, a Associação Médica Brasileira, a Associação Médica de Minas Gerais e o Sindicato dos Médicos. A adição une e a união prepondera e é duradoura.

No Centro Cirúrgico o tempo vale ouro. Economize esforço aplicando a lei da associação de movimentos, sempre sincrônicos, na execução dos tempos cirúrgicos. Simplifique as atitudes individuais e o trabalho coletivo da equipe cirúrgica como um todo, espalhada por todos os setores do Bloco. A melhor qualificação do trabalho, ganhando tempo, é torná-lo mais objetivo, simples, fácil e rápido. Cada paciente receberá, em troca, inúmeros benefícios, principalmente as crianças e os idosos submetidos a drogas anestésicas e a um variável grau de injúria cirúrgica. Toda tarefa, da limpeza do chão ao nobre ato de operar, num crescendo, se faz em função de cada um e em benefício da maioria, o mais perfeito possível e de uma só vez, quase sempre sem oportunidade de repetição e previsão de término.

Enquanto não seja realmente recompensado o trabalho do cirurgião geral, mais vale saber que é feito com carinho, muita dignidade, humildade e executado em função da alegria do resultado obtido aliado a dimensão ética do dever cumprido.

Caro e jovem cirurgião, não me tome como o dono da verdade e o impostor de atitudes. É que o tempo passa e o bloco cirúrgico não pode deteriorar. Faça bom uso dele em benefício do paciente, nosso semelhante, conhecido ou em completo anonimato, mas todos carentes de uma mão amiga e temerosos da solidão, antídotos da verdadeira solidariedade!

O bloco cirúrgico, palco de exérese de lesões benignas ou malignas, associado a conhecimento científico e atividade técnica, não separa o homo faber do homo sapiens o binômio Cosme e Damião do transplante em terapêutica cirúrgica. Nem tanto por ser uma área física hermética, não tolera e jamais permite atitudes menores, inferiores, ambas prejudiciais a todos os pacientes e a cada cirurgião. Precisamos valorizar nossa matéria prima, cada semelhante, respeitando as normas técnicas e éticas e impondo condições de trabalho honesto e insubstituível. Temos plena convicção de que a maioria absoluta de respeitáveis colegas reconhecem e aplicam este ponto de vista deturpado por uma minoria insólita, mesmo que muito ativa. O ressurgimento do cirurgião geral, sem nenhuma fórmula mágica, está vinculado à postura ética acoplada ao trabalho sério sem imposições mas com muita perseverança para não escrever predestinação. Fênix perdura!

O Centro Cirúrgico como área física nobre de um hospital, equipamentos de alta linhagem e recursos materiais em qualidade e quantidade não deixa nada a desejar. Como ambiente de trabalho de uma equipe diversificada, precisa manter, a todo custo, o controle de qualidade, por lidar com o que há de mais precioso na Terra: o ser humano. Algumas normas, por demais conhecidas poderiam ser relembradas, mesmo que conceituadas de maneira apressada e com certeza incompletas:

Jovem colega, feche os olhos à crítica negativa, aponte a seta de sua trajetória de vida profissional para cima rumo ao sucesso e faça do bloco cirúrgico a continuação de seu berço, de seu lar, de sua escola e de sua vida. Uma virose do comodismo crônico de alguns e a parasitose anemica do desânimo de outros não pode contaminar e destruir um ideal da maioria absoluta no ambiente por demais sagrado.

Jovem cirurgião, em suas mãos, que com desenvoltura faz uma hemostasia e melhor ainda uma síntese perseguindo a cicatrização dos tecidos, por primeira intenção, depositamos o futuro da cirurgia nacional, as mesmas mãos que nasceram e foram adestradas para servir, aliviando sempre e, na medida do possível, curando.


De cajado à mão e de bisturi desafiado, queremos ter a possibilidade de assistir à evolução da Cirurgia, como profissão magna, respeitável e digna dos ideais hipocráticos. Não posso olhar para tras. Dá vontade de começar tudo de novo. Cirurgião nasce Cirurgião.