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Aspectos Atuais da Infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) na Mulher
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Prof. Victor Hugo de Melo
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG

 

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) foi descrita como uma nova entidade clínica em 1981. Os primeiros casos foram reconhecidos por causa de um número incomumente alto de enfermidades como o Sarcoma de Kaposi e Pneumonia por Pneumocystis carinii (PPC) em jovens homossexuais, previamente saudáveis.

História Natural da Doença

Existem várias fases desde a infecção pelo HIV até o desenvolvimento da AIDS 1 :

Na infecção retroviral aguda a pessoa desenvolve uma doença clinicamente semelhante à mononucleose. Essa fase é de alta viremia, podendo durar de uma a quatro semanas;

A soroconversão ocorre em seis a doze semanas após o evento responsável pela transmissão do HIV. Atualmente, utilizando-se os testes sorológicos de rotina, mais de 95% dos pacientes apresentam soropositividade no decorrer dos seis meses seguintes à exposição;

Na fase de infecção assintomática as pessoas não apresentam outros achados além de linfadenopatia generalizada persistente em dois ou mais sítios extra-inguinais. Essa fase dura, em média, dez anos;

A infecção sintomática inicial (ARC ou Sintomas B) inclui condições clínicas existentes mas ainda não indicadoras de AIDS tais como: candidíase orofaringeal e/ou vulvovaginal, displasia cervical, Herpes Zoster, doença inflamatória pélvica e outras;

A definição de AIDS atualmente utilizada é a proposta pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em 1993. O aparecimento de câncer cervical invasivo é indicador da doença. Outra alteração importante é a inclusão de pacientes com CD4 abaixo de 200 / mm3 ;

A infecção avançada é diagnosticada em todos os casos onde a contagem de CD4 está abaixo de 50 / mm3 . A expectativa média de vida para essas pessoas é de 12 a 18 meses.

 

Aspectos biológicos do vírus

O HIV foi descoberto cerca de três anos após a descrição da doença. É um RNA-vírus. Sua atividade citopática leva à depleção característica dos linfócitos auxiliares (CD4), acarretando a imunodeficiência, com o subsequente desenvolvimento de infecções secundárias e neoplasias.

Além de interferir diretamente na resposta imune celular, através da destruição dos linfócitos auxiliares, o HIV também pode determinar outras disfunções no sistema imunitário, induzindo a produção de auto-anticorpos contra as próprias proteínas celulares normais.

O vírus pode ser transmitido por três vias: sexual, sanguínea e materno-fetal. A via heterossexual está surgindo como categoria muito importante na manutenção da epidemia. A transmissão sanguínea ocorre por transfusões ou pelo uso de seringas contaminadas. A transmissão da mãe para o feto pode ocorrer durante a gestação, no parto ou no puerpério. A transmissão através de sêmen de doadores já foi confirmada.

Diagnóstico sorológico

Há quatro maneiras de se diagnosticar o HIV: através da cultura do vírus, da identificação de antígenos e anticorpos específicos ou, ainda, mediante a confirmação da sequência de ácidos nucléicos.

Os dois testes mais utilizados para a detecção dos anticorpos são a técnica de Imunoabsorção Enzimática (ELISA) e o teste de Western Blot (WB). O método ELISA é o teste de triagem padrão em todo o mundo. A sensibilidade do teste é de 100% e a especificidade de 99,43%. Seus resultados positivos devem ser confirmados pela técnica de WB, que tem sensibilidade e especificidade de 100%.

 

A infecção nas mulheres

O impacto da infecção pelo HIV na população feminina talvez seja o aspecto menos estudado da epidemia, apesar da grande ameaça para a saúde das mulheres e da possibilidade de transmissão perinatal do vírus. Estima-se que, atualmente, três mil mulheres são infectadas a cada dia, em todo o mundo. A maior parte delas (85%) são mulheres jovens, em idade reprodutiva.

A AIDS é, hoje, nos Estados Unidos, a quinta causa principal de morte em mulheres. É, ainda, a primeira causa de morte em mulheres em idade de procriação em várias capitais americanas.

No Brasil, percebe-se uma mudança nas categorias de risco nos últimos anos, com uma acentuada elevação para os grupos heterossexuais. A proporção de novos casos atribuídos à transmissão homossexual caiu de 47% para 24%, entre 1986 e 1991. A transmissão heterossexual, no mesmo período, aumentou de 5% para 20%. A proporção de homens e mulheres infectados pelo HIV também tem caído significativamente: era 28:1 em 1985, no início da epidemia; atualmente é de 4:1. 2, 3 A Tabela 1 mostra uma retrospectiva histórica das vias de transmissão da doença nas mulheres, a partir da adolescência, no Brasil.

Tabela 1 - Distribuição dos casos de AIDS em mulheres maiores de 12 anos de idade, segundo o período de diagnóstico e a categoria de exposição - Brasil, 1983 a 1996.

Categoria de Exposição

Período de diagnóstico

1983-1988 1989-1992 1993-1996

n % n % n %

Total

N %

Heterossexual

144

1.8

1.938

24.2

5.941

74.0

8.023

47.2

Sanguínea

466

9.6

2.020

41.8

2.346

48.6

4.832

28.5

UDI

280

7.8

1.534

42.6

1.785

49.6

3.599

21.2

Transfusão

186

15.1

486

39.4

561

45.5

1.233

7.3

Ignorada

165

4.0

1.513

36.7

2.451

59.3

4.129

24.3

Total

775

4.6

5.471

32.2

10.738

63.2

16.984

100.0

        •  Fonte: Adaptado do Boletim Epidemiológico (AIDS), do Ministério da Saúde. 3
        • ( Dados compilados até 30/11/96 )
        • UDI - Usuária de Drogas Injetáveis

  

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