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O MÉTODO CUIDADO MÃE CANGURU
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"A característica essencial dos mamíferos não é
a capacidade de gestação, mas a posterior
manifestação do cuidado materno, a propriedade
da mama para secretar leite para a cria
"
Alan Parkes (1966)

Prof. César Coelho Xavier
Professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina UFMG
e-mail: xavier@medicina.ufmg.br

Apesar de Pierre Budin, no início do século passado ter idealizado a incubadora com paredes de vidro para permitir que a mãe visse facilmente o filho e ter incentivado que estas visitassem e cuidassem de seus bebês, o modelo de assistência neonatal que se consolidou neste século, em quase toda cultura ocidental, excluiu os pais dos cuidados aos prematuros e evoluiu com grandes conquistas técnico - científicas.

Os grandes avanços na assistência perinatal em nosso meio, têm sido cada vez mais rápidos quanto a absorção da produção científico- tecnológica dos países desenvolvidos. No entanto observa-se um paradoxo: grandes conquistas e perdas importantes. O uso de tecnologias avançadas de terapia intensiva como incubadoras, berços de calor radiante, equipamentos para assistência ventilatória, alimentação parenteral, antibióticos de última geração, enfim modernas unidades de tratamento intensivo neonatal, contribuíram para uma enorme expectativa de sobrevivência dos recém-nascidos de menor peso, com ampla mudança no perfil da mortalidade infantil. Entretanto, observam-se perdas como: maior tempo de internação com separação precoce e prolongada da mãe-filho-família, menor incidência e prevalência de aleitamento materno, maior exposição a complicações que cursam com graves seqüelas, maior demanda de atenção especial prolongada e de alto custo.

O Cuidado Mãe Canguru é definido como um contato pele a pele, precoce, prolongado e o mais contínuo possível e necessário. Nesta metodologia, as mães são estimuladas a colocarem seus filhos de baixo peso ao nascer, após estabilização clínica, em uma posição verticalizada entre os seios, debaixo de suas roupas, proporcionando calor humano, estímulo, carinho e aleitamento materno. Em condições especiais pode-se iniciar na sala de parto. Esta metodologia habitualmente se inicia na unidade de terapia intensiva ou berçário de alto risco, permitindo a retirada mais precoce da incubadora, maior participação da mãe, amadurecimento do apego e conseqüente estímulo à produção de leite. Em seguida, a continuidade do cuidado é oferecida em enfermaria específica, com reinternação da mãe se esta teve alta. Após a alta hospitalar o acompanhamento ambulatorial específico deve completar pelo menos a idade gestacional corrigida de 40 semanas. O aleitamento exclusivo é meta, mas não se obstrui este cuidado a mães que não conseguiram esta prática.

Alguns princípios norteiam esta nova proposta metodológica na questão do CUIDAR, exigindo reflexões e certamente mudanças de atitude. É uma metodologia humanizadora da atenção neonatal e uma alternativa a assistência neonatal tradicional, que exclui quase que sistematicamente a mãe, pai e família dos cuidados e contato íntimo com seu filho (Charpak et al, 1997). É um cuidado complementar ao tratamento de alta tecnologia. Pedagogicamente cria condições que permitem às mães vivenciar o saber fazer e se responsabilizar. Devemos entender que esta é uma proposta que incentiva a assistência ambulatorial e esta na perspectiva de desmedicalização e desospitalização do cuidado

Charpak et al (1996) diz que a proposta pode ser expressa como Intervenção Mãe Canguru. Entende que em serviços onde existem bons recursos técnicos e humanos, mas com dificuldade de atender toda a demanda, esta intervenção é uma alternativa para a unidade de cuidados mínimos.

O Programa Mãe Canguru foi idealizado pelos médicos Edgar Sanabria Rey e Héctor Gomes Martínez da Universidade Nacional de Bogotá na Colômbia em 1979 (Rey & Martinez, 1983), que inovaram na assistência tradicional aos recém-nascidos prematuros e de baixo peso, criando uma nova técnica de assistir esses recém-nascidos. O programa que chamava-se "Manejo Racional ao Prematuro e sua Mãe", surgiu como uma resposta pragmática para uma situação crítica onde ocorria infecções cruzadas, falta de incubadoras, alto índice de abandono de bebês na unidade neonatal, baixa prevalência de aleitamento materno e alta mortalidade dos recém-nascidos de baixo peso (RNBP). Posteriormente o novo método ficou conhecido e denominado como Mãe Canguru, devido a semelhança entre a forma como a fêmea canguru carrega seu filhote e as mães deste programa acomodam e cuidam de seus filhos. Devido ao seu relativo sucesso e como técnica oriunda de um país do terceiro mundo, foi motivo de muitas e procedentes críticas (Whitelaw & Sleath, 1985; Diaz-Rossello et al, 1985 e 1996). Posteriormente a superação dessas críticas com mudanças metodológicas na Colômbia (Charpak et al, 1997) e uma ampla comprovação em todo o mundo das várias propostas de cuidado mãe canguru (contato precoce pele-a-pele) consolidou esta estratégia na atenção perinatal.

No Brasil, desde 1992, o Hospital Guilherme Álvaro em Santos e o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP), iniciaram de forma sistematizada esta tecnologia. Na região de Belo Horizonte, o cuidado mãe canguru inicio com o Hospital das Clínicas em 1994. Posteriormente o Hospital Sofia Feldman, a Maternidade Municipal de Betim e o Hospital Municipal Odilon Behrens. E agora, em 2002 a Maternidade Odete Valadares após seminário e treinamento de sua equipe.


Bibliogafia e leitura recomendada

Charpak N, Ruiz-Pelaez JG, Charpak Y. Rey-Martinez kangaroo-mother programme: an alternative way of caring for low birth weight infants? One year mortality in a two-cohort study. Pediatrics 1994;94:804-10
Charpak N, Ruiz-Pelaez JG, Figueroa de Calume Z, Charpak Y. Kangaroo mother versus traditional care for newborn infants £ 2000 grams: a randomized controlled trial. Pediatrics 1997;100:682-8
Cattaneo A et al. Recommendations for the implementation of Kangoroo mother care for low birth weight infants. Acta Paediatr 1998;87:440-5
Christensson K, Bhat GJ, Amadi BC, Eriksson B, Höjer B. Randomised study of skin-to-skin versus incubator care for rewarming low-risk hypothermic neonates. Lancet 1998;352:1115
Diaz-Rosseló JL. Caring for the mother and pretem infant: kangaroo care Birth 1966;23:108-11.
Duarte ED "Agora eu me sinto como uma mãe de muito tempo": a mulher que realiza o cuidado mãe canguru. Dissertação (Mestrado) Escola de Enfermagem da UFMG, 2001.
Gray L, Watt L, Blass EM. Skin-to-skin contact is analgesic in healthy newborns. Pediatrics 2000;105:e14
Lamounier, JÁ; Xavier, CC; Moulin, ZS. Leite materno e proteção à criança. In: Tonelli, E; Freire LMS. Doenças Infecciosas na Infância e Adolescencia. 2ª ed. Rio de Janeiro, MEDSI, 2000. P 89-103.
Lawrence R A & Lawrence RM Breastfeeding: a guide for the medical profession. 5 ed. St Louis, Mosby Co. 1999.
Leão MRC "Tendo uma pessoa ao lado, a gente fica muito mais forte ... a dor até diminui" Estudo etnográfico sobre parturientes acompanhadas por "doulas". Dissertação (Mestrado) Escola de Enfermagem da UFMG, 2000.
Lima G, Quintero-Romero S, Cattaneo A. Feasibility, acceptability and cost of kangaroo mother care in Recife, Brazil. Ann Trop Paediatr 2000;20:22-6
Rey ES, Martinez HG. Manejo racional del niño prematuro. In: Curso de Medicina Fetal. Universidad Nacional. Bogotá. Colombia. 1983.
Rezende MB Recém nascido pré-termo com peso ao nascimento menor que 1500g: avaliação da sucção e do aleitamento materno. Tese (Doutorado em Fisiologia) Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, 1999.
Sloan NL et al. Kangaroo mother method: randomised controlled trial of an alternative method of care for stabilised low-birthweight infants. Lancet 1994;344:782-5
Whitelaw A, Sleath K. Myth of marsuphial mother: home care of very low birth weight infants in Bogota, Colombia. Lancet 1985;I:1206-8
Whitelaw A. Kangaroo baby care: just a nice experience or an important advance for preterm infants? Pediatrics 1990;85:604-5
Xavier CC, Jorge SM, Gonçalves AL. Prevalência do aleitamento materno em recém-nascidos de baixo peso.
Rev. Saúde publ, S. Paulo 1991;25:381-7.

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