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Constipação Intestinal

Maria
do Carmo Barros de Melo
Professora Adjunta do Departamento de Pediatria da UFMG
Doutora e membro do Setor de Gastroenterologia Pediátrica do
Departamento de Pediatria da UFMG
Elizabet Vilar Guimarães
Professora Adjunta do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina
UFMG
Doutora e membro do Setor de Gastroenterologia Pediátrica do
Hospital das Clínicas da UFMG
Márcia
Regina Fantoni Torres
Professora Adjunta do Departamento de Pediatria da UFMG
Doutora e Membro do Setor de Gastroenterologia Pediátrica do
Departamento de Pediatria da UFMG
Sílvia
Aparecida Steiner
Acadêmica do décimo período da Faculdade de Medicina
da UFMG
Participante do Grupo de Constipação Intestinal Pediátrica
do Hospital das Clínicas da UFMG
Ricardo
Castanheira Pimenta Figueiredo
Professor Adjunto do Departamento de Pediatria da UFMG
Doutor e Membro do Setor de Gastroenterologia Pediátrica do Departamento
da UFMG
Francisco José Penna
Professor Titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina
da UFMG
Doutor e coordenador do Setor de Gastroenterologia Pediátrica
do Departamento de Pediatria da UFMG
A
constipação intestinal (CI) é um dos motivos mais
freqüentes de consulta no ambulatório de Gastroenterologia
do Departamento de Pediatria da UFMG.
Consideramos constipadas crianças que apresentam queixas de eliminação
de fezes endurecidas, freqüência evacuatória menor
do que três vezes por semana e/ou sensação de esvaziamento
incompleto do reto, quando for possível obter esta informação.
Em crianças menores, que ainda não conseguem relatar seus
sintomas, a constipação pode ser considerada na presença
de movimentos intestinais dolorosos, acompanhados de desconforto, gritos
e manobras para não eliminar as fezes. A eliminação
de fezes endurecidas, às vezes em cíbalos, com freqüência
normal para a idade, é também considerada como constipação.
Nunca esquecer, que em lactantes em amamentação, a eliminação
de fezes sem dor, mas com intervalos que se prolongam até 7 dias,
não é considerada constipação.
Alguns indivíduos, embora evacuem, algumas vezes, mais que 3
vezes por semana, eliminam fezes em quantidade muito pequena, ou apresentam
somente queixa de dor abdominal recorrente. Nestes casos, a constipação
é definida como oculta.
A constipação intestinal pode ser acompanhada de escape
fecal e encoprese. Encoprese é a passagem voluntária ou
involuntária de grande quantidade de fezes na roupa ou em locais
diferentes do usual, depois que a criança já obteve o
controle do esfíncter anal. Na maioria dos casos não está
associado à causa orgânica. Deste modo, encoprese é
definida com base em um sinal clínico e pode ocorrer na presença
ou não de constipação intestinal. Já o escape
fecal é definido como um escape de pequena quantidade de fezes,
que ocorre de forma involuntária, freqüentemente associado
à impactação fecal.
A presença de escape fecal e massa abdominal palpável
indica forma grave de constipação. Uma criança
com estes sintomas tem muitas vezes, problemas de comportamento em casa
e na escola, podendo mostrar queda no rendimento escolar, associada
à ansiedade crônica. Infecção do trato urinário
deve ser pesquisado.
FISIOPATOLOGIA:
As principais funções do cólon são absorver
água e eletrólitos, conduzir as fezes a partir do intestino
delgado e armazenar as fezes, especialmente no sigmóide, antes
das evacuações. Após as refeições
podem ocorrer contrações colônicas de grande amplitude,
denominadas reflexo gastro-cólico, que se propagam a partir do
sigmóide proximal em direção a sua porção
terminal, empurrando a massa fecal para o interior do reto. O reflexo
evacuatório inicia -se com a chegada do bolo fecal na ampola
retal. Com a dilatação retal, os receptores sensíveis
ao estiramento determinam o relaxamento do esfíncter interno
do ânus (reflexo reto anal), permitindo que o conteúdo
retal seja percebido de modo discriminado para gases, líquidos
ou fezes pastosas. Neste momento, o indivíduo pode decidir pela
eliminação de flatos ou pela contração voluntária
do esfíncter externo até chegar ao local apropriados para
defecar. Nas crianças que ainda não adquiriram o treinamento
esfincteriano, a evacuação ocorrerá logo após
a chegada do bolo fecal no reto e dilatação do esfíncter
anal interno.
A continência fecal depende do perfeito funcionamento do esfíncter
anal externo, do músculo puborretal, do esfíncter anal
interno e do reto. Para a defecação, a posição
ideal é equivalente ao agachado, com contração
da musculatura abdominal durante inspiração, relaxamento
do esfíncter externo do ânus e contração
do músculo elevador do ânus.
A retenção fecal ocorre quando as fezes não são
eliminadas. Quando essa retenção persiste por tempo prolongado,
o reto passa a conter fezes, progressivamente mais ressecadas e em maior
volume. A parede retal fica cronicamente dilatada e a sensibilidade
retal diminui. A criança retém massa fecal, que geralmente
acarreta em dilatação do cólon (megacólon
funcional). Um círculo vicioso se instala quando a criança
apresenta eliminação dolorosa de fezes endurecidas e calibrosas,
fazendo com que continue a inibir a defecação, através
de contração anormal do esfíncter anal externo
e, também freqüentemente, por contração paradoxal
do assoalho pélvico (anismo). Estas fezes retidas são
difíceis de serem eliminadas e podem deixar o esfíncter
anal interno cronicamente distendido, assim a criança torna incapaz
de perceber o escape fecal. De fato, na manometria anorretal, essas
crianças podem apresentar o reflexo retoanal apenas após
a insuflação do balão retal com volumes maiores
que o necessário, em relação a crianças
que não apresentam megarreto.
Considerava-se no passado que o comportamento retentivo fosse distúrbio
emocional ou psicológico, porém observou-se que intercorrências
tais como: nascimento de irmão mais novo, nova residência,
problemas familiares, entre outros, geralmente são apenas fatores
contribuintes.
Na presença de escape fecal os problemas emocionais são
conseqüência e tendem a desaparecerem com o tratamento.
Outro fator contribuinte para a constipação é a
dieta pobre em fibras alimentares. As fibras podem ser solúveis
ou insolúveis, sendo que as insolúveis têm menor
capacidade de incorporação de água que as fibras
solúveis e são difíceis de serem degradadas pelas
bactérias sendo por isso eliminadas praticamente intactas. Atuam
nas porções distais por serem pouco digeridas no cólon,
mantendo o volume líquido até a evacuação.
Existem estudos demonstrando a relação entre ingestão
de leite de vaca e constipação intestinal.
O ânus ectópico anteriorizado (AEA) tem sido reconhecido
como causa de constipação intestinal na infância.
Os artigos que citam o AEA como causa de CI são na grande maioria
de cirurgiões pediátricos, alguns utilizam o IAG como
uma forma de identificar o ânus anteriorizado. Deve ser determinado
com o paciente em posição genupeitoral. Mede-se com fita
adesiva da fúrcula vaginal posterior ou da base de implantação
da bolsa escrotal até o centro do ânus, e do primeiro local
citado até local de palpação do cóccix.
Divide-se o primeiro resultado pelo segundo. No nosso serviço
determinamos como limite inferior para o IAG no sexo feminino 0,33 na
faixa etária de lactente, 0,36 no pré-escolar e 0,31 nos
escolares e na mesma seqüência de faixa etária no
masculino 0,44, 0,48 e 0,45 (MELO et al., 1996).
CLASSIFICAÇÃO:
A constipação intestinal pode ser aguda ou crônica.
A constipação intestinal aguda ocorre, geralmente, durante
ou após mudanças do hábito alimentar, pelo uso
de drogas, redução da atividade física, pela presença
de um estado mórbido, ou até mesmo durante uma viagem,
com mudança do ambiente de costume. Após a correção
dos fatores desencadeantes a constipação se resolve espontaneamente.
A constipação intestinal crônica era classificada
em funcional simples (CICFS) e funcional idiopática (CICFI) e
também em orgânica (PENNA & TORRES, 1991).
Em 1999 surgiram critérios para classificação de
doenças funcionais - Roma II - na parte que se refere às
desordens da defecação são detalhados 4 itens:
(a) disquezia do lactente: lactente menor que 6 meses com choro prévio
à defecação; (b) Constipação funcional:
fezes endurecidas na maioria das evacuações ou freqüência
menor que 2 vezes por semana, na ausência de doenças orgânicas;
(c) Retenção fecal funcional: lactente de 1 a 16 anos
de idade com eliminação de fezes calibrosas, menos que
2 vezes por semana, com postura retentiva, podendo ocorrer escape fecal;
(d) Sem retenção fecal: idade superior à 4 anos,
evacuação em local e horário inapropriado (encoprese).
As doenças orgânicas (que podem ser intestinal ou extra-intestinal)
mais freqüentes são: Doença de Hirschsprung, malformação
anorretal (estenose anal ou retal), Doença de Chagas, Pseudo
obstrução intestinal, tumores, hipotireoidismo, hipocalemia,
hipercalcemia, espinha bífida, trauma, mielomeningocele, paralisia
cerebral, doença celíaca, fibrose cística, etc.
É importante relatar, que a maioria dos casos de CI crônica
são devido a alterações funcionais. Algumas drogas
freqüentemente causam constipação, como fenitoína,
imipramina, fenotiazinas, preparações contendo ferro,
xaropes contendo codeína, vincristina, etc.
Quadro 1- diagnóstico diferencial entre constipação
intestinal crônica funcional idiopática (CICFI) e Doença
de Hirschsprung.
| |
CICFI
|
Hirschsprung
|
Início
dos sintomas
|
Comum
após desmame
|
Ao
nascimento
|
| Distúrbios
emocionais |
Sim
|
Sim/não
|
| Escape fecal |
Sim
|
Raro
|
| Calibre das
fezes |
Muito
calibrosas
|
Finas
ou em fita
|
| Enterocolite
|
Não
|
Comum
|
| Dor abdominal |
Comum
|
Comum
|
| Estado nutricional |
Preservado
|
Alterado
|
| Distensão
abdominal |
Comum
|
Muito
comum
|
| Massa abdominal
palpável |
Comum
|
Comum
|
| Fezes no reto |
Muito
comum
|
Raro
|
| Reflexo reto
anal (manometria) |
Presente
|
Ausente
|
| Enema opaco |
Megacolon
funcional
|
Megacolon
com zona de transição
|
| Biópsia
retal |
Normal
|
Segmento
agangliônico
|
EXAMES COMPLEMENTARES:
A propedêutica
e o tratamento da constipação intestinal vão depender
do quadro clínico e do diagnóstico etiológico.
Na anamnese é importante abordar o início, a dieta, a
presença de outros sintomas e sinais, outras doenças orgânicas
associadas e o uso de medicamentos. Ao exame físico é
importante verificar a presença de distensão abdominal
e de massas fecais, fazer a inspecção da região
perineal (verificar a presença de fissuras, estenose anal, etc),
o toque retal e as medidas para o cálculo do índice anogenital.
A manometria anorretal deve ser realizada em casos graves de constipação
intestinal, ou quando a doença persiste mesmo após adesão
do tratamento, ou quando existe algum dado da anamnese ou do exame físico
que faça pensar em megacólon agangliônico. Ao exame,
podemos observar nas crianças com constipação intestinal
funcional, uma diminuição da sensibilidade da mucosa anal
à distensão e diminuição da contratilidade
retal.
O enema baritado pela técnica de Neuhauser, é indicado
para confirmar a suspeita clínica ou manométrica da doença
de Hirschsprung; a presença de zona de transição
reforça a suspeita clínica de megacólon agangliônico,
mas sua ausência não exclui o diagnóstico - nestes
casos é necessária a realização da biópsia
retal do segmento suspeito.
Alguns sinais são sugestivos de causa orgânica: déficit
de crescimento, distensão abdominal importante, flacidez das
nádegas, estenose anal, reto vazio ao toque retal, alterações
neurológicas e motoras. Nestes casos é recomendável
realizar os seguintes exames, de acordo com a clínica: dosagem
de tiroxina (T4), TSH, anticorpos antiendomísio e antigliandina
das classes IgG e IgA, sorologia para doença de Chagas, manometria
anorretal, enema opaco e biópsia retal.
O tempo que resíduos alimentares levam para progredir através
do trato digestivo já foi medido através de diversas técnicas.
O método que vem sendo mais utilizado é o que usa marcadores
radiopacos. Este método permite identificar grupos de pacientes
constipados caracterizados por diferentes padrões de tempo de
trânsito. De maneira geral, os padrões identificados são
agrupados em quatro grupos: tempo de trânsito colônico total
e segmentar normal, tempo de trânsito colônico prolongado
no colo direito, independente do trânsito nos outros segmentos,
tempo de trânsito prolongado no colo esquerdo e normal no colo
direito, independente do tempo de trânsito no retossigmóide
e tempo de trânsito prolongado no retossigmóide isoladamente.
Em estudo realizado no grupo de constipação da Gastroped,
os padrões mais encontrados foram tempo de trânsito colônico
total e segmentar normal, em 39,1% dos pacientes e lentificação
distal do tempo de trânsito, compreendendo os pacientes com prolongamento
do trânsito colo esquerdo e retossigmóide, associados ou
isoladamente, em 52,2% dos pacientes. Através de uma análise
multivariada, identificamos três características clínicas
que a partir da presença ou ausência delas nos permitem
predizer se o paciente apresenta tempo de trânsito colônico
total e segmentar normal ou prolongado. Estas características
clínicas são sexo, presença de massa fecal ao exame
físico e freqüência evacuatória. Sexo demonstrou
ser a característica mais importante para esta predição,
o sexo feminino demonstrou forte correlação com tempo
de trânsito colônico total e segmentar normal. O modelo
criado permite identificar pacientes com grande probabilidade de apresentar
um dos padrões de tempo de trânsito prolongado, sendo útil,
assim, na indicação do exame.
TRATAMENTO:
Na maioria dos casos
a correção da dieta ou do fator desencadeante é
suficiente.
Se existe massa fecal palpável ao exame, a lavagem intestinal
está indicada (clister glicerinado a 12%) por 3-7 dias e a medicação
laxativa deve ser iniciada.
O laxativo que mais usamos é o óleo mineral na dose de
3-5 ml/kg/dia e o hidróxido de magnésio na dose de 1-3
ml/kg/dia. O óleo mineral não deve ser prescrito para
pacientes com quadros neurológicos, crianças menores de
1 ano, crianças com história de vômitos devido ao
risco de aspiração pulmonar, Outros laxativos como a lactulose
também podem ser usados com segurança, mas são
mais caros.
No caso de má aceitação de suplementos de fibras
à base de farelo de trigo, indicamos o uso da metilcelulose,
na dose de meio a um envelope três vezes por semana. Outras formas
de medicamento de fibra vegetal podem ser usados.
Laxantes contendo componentes antraquiônicos (sene, cascara ou
ruibarbo) devem ser reservados para casos excepcionais e muito graves,
e apenas temporariamente, pois podem causar o cólon catártico
(lesão dos plexos mioentéricos, devido sua estimulação
excessiva). Os estimulantes químicos são derivados do
polifenol e incluem a fenoftaleína e o bisacodyl. Estes freqüentemente
causam cólicas abdominais e não devem ser usados, além
disto a fenoftaleína tem sido associada a fotossensibilidade,
dermatites e síndrome de Stevens-Johnson, não sendo mais
comercializada nos Estados Unidos.
Após resposta satisfatória ao tratamento anterior, com
melhora do escape fecal e diminuição da tensão
emocional, a criança deve ser encorajada a sentar-se no toalete
após as refeições.
Nos casos com pouca resposta ao tratamento, pode ser realizado o teste
terapêutico com dieta de exclusão do leite de vaca.
Orientações gerais como sobre a cronicidade da constipação
intestinal, as informações para o conforto no toalete
(os pés da criança devem estar apoiados no chão
ou na banqueta), maior ingestão de líquido e de fibra
são essenciais. A criança deve ser encorajada também
a realizar exercícios físicos e os pais orientados a evitarem
posturas coercivas e punitivas. Nos casos de comprometimento psicológico
acentuado é indispensável a colaboração
do profissional especializado.
Em 25-50% dos pacientes constipados encontramos alterações
da defecação, como contração anormal do
esfíncter anal externo e/ou contração paradoxal
dos músculos do assoalho pélvico. Tem-se preconizado o
uso do treinamento de biofeedback, onde o paciente aprende a controlar
esta musculatura.
BIBLIOGRAFIA:
GUIMARÃES,
E.V. Constipação intestinal crônica funcional
na criança: aspectos clínicos, ingestão de fibra
alimentar e estudo do tempo de trânsito colônico. Belo
Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG,
2000.213p. (Tese, Doutorado em Medicina, Área de concentração
em Pediatria)
MELO, M.C.B. Índice anogenital em crianças com e sem
constipação intestinal. Belo Horizonte: Faculdade
de
Medicina da UFMG, 1999.137p.(Tese, Doutorado em Medicina. Área
de Concentração em
Gastroenterologia).
MORAIS, M.B., MAFFEI, H.V.L. Constipação intestinal.
Jornal de Pediatria, v.76, supl.2, p.147-156, 2000.
PENNA,F.J., TORRES, M.R.F. Constipação intestinal.In:
PENNA, F.J.; WEHBA,J., FAGUNDES NETO, U. Gastroenterologia Pediátrica,
Rio de Janeiro; Médsi, 2 ed., p.341-8, 1991.
WHITEHEAD, W.E., WALD, A., DIAMANT, N.E., ENCK, P., PEMBERTON, J.H.,
RAO, S.S.C. Functional disorders of the anus and rectum. Guts.
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