| página 1 de 1  Diarréia Aguda - Abordagem Terapêutica  Prof. Joaquim Antônio César Mota Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG 1 - Conceito -
É uma doença infecciosa, causada por bactéria, vírus ou parasita, de curso autolimitado, com duração máxima de 14 dias. É caracterizada pela perda excessiva de água e eletrólitos pelas fezes e/ou vômitos, que se manifesta clinicamente com aumento do número de evacuações e/ou diminuição da consistência das fezes. A maioria dos episódios dura de algumas horas a cinco dias. 2 - Importância -
No Brasil, apesar de ser uma doença potencialmente previnível por medidas simples (aleitamento ao seio, cuidados de higiene, alimentos do desmame não contaminados e saneamento básico, entre outros) e de tratamento também simples (apenas nutrir e hidratar adequadamente) ainda é uma das principais causas de morbimortalidade infantil, especialmente nos bolsões de pobreza. Há uma relação estreita entre a diarréia a desnutrição, uma favorecendo o desenvolvimento da outra. Além disso, uma abordagem incorreta (jejum, uso de antibióticos indiscriminadamente, alimentos inadequados) favorece o prolongamento da diarréia por mais de 14 dias, caracterizando a síndrome da diarréia persistente, de muito maior morbidade e mortalidade. 3 - Alguns Conceitos Básicos - A absorção de eletrólitos e glicose se mantém fisiologicamente
- A manutenção da alimentação é benéfica, pois impede a deterioração do estado nutricional e favorece a regeneração do epitélio intestinal
- Um maior aporte nutricional durante a fase de convalescência deve ser parte integrante do tratamento
4 - Manejo Diagnóstico -
O manejo de uma criança com diarréia aguda é sempre uma situação de urgência, pois o principal mecanismo de morte nesta síndrome é o desequilíbrio hidroeletrolítico. Três perguntas têm que ser rápida e eficazmente respondidas: - A criança está com diarréia aguda?
- Está desidratada? Se sim, qual a intensidade dessa desidratação?
- Se desidratada, tolera hidratação por via oral?
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No diagnóstico, dar ênfase aos sinais e sintomas de se referem à diarréia e à desidratação, além de observar a existência de outras doenças associadas. A criança deve ser pesada descalça e despida e deve ser realizado exame físico rápido, porém completo, aproveitando a ocasião para explicar à mãe como reconhecer os sinais precoces de desidratação (>>Quadro 1). 4 - Manejo Terapêutico -
Visa prevenir ou corrigir a desidratação e manter ou recuperar o estado nutricional da criança, além de, durante o tratamento, realizar processo de educação para a saúde, enfatizando para a família o que causa a diarréia, como evitá-la e como tratá-la. Portanto, todos os fatores capazes de causar diarréia e/ou de torná-la mais grave hoje conhecidos (desnutrição fetal e pós-fetal, ausência de aleitamento materno, uso de alimentos inadequados nutricional e microbiologicamente, vínculo psicológico mãe-filho mal estabelecido, ausência de vacinação) devem ser abordados, aproveitando o tempo que eventualmente a mãe fica no Serviço de Saúde durante o processo de tratamento. A abordagem terapêutica vai depender do plano de tratamento proposto. A - Hidratação Utiliza-se a solução de reidratação oral preconizada pela Organização Mundial de Saúde e fornecida, no Brasil, pelo Ministério da Saúde (Quadro 2), ou então a reidratação venosa, dependendo do esquema terapêutico: plano A, plano B ou plano C. B- Alimentação É tão importante quanto a hidratação na abordagem da diarréia. O aleitamento materno, se usado, deve ser mantido e incentivado, mesmo durante a reidratação. Para as outras crianças, assim que estiverem hidratadas, fornecer alimentação habitual, inclusive leite de vaca não diluído. Lembrar que o mais importante é um bom aporte calórico nestas crianças, utilizando alimentos densamente calóricos e microbiologicamente adequados. Por isso, não há qualquer restrição alimentar ao uso de gordura (óleo, manteiga etc...) na alimentação da criança com diarréia. Se possível, fazer suplementação de uma refeição a mais por dia para compensar as perdas nutricionais causadas pela diarréia. Essa suplementação alimentar deverá ser mantida até a recuperação nutricional destas crianças. C- Medicamentos Habitualmente o tratamento da diarréia aguda restringe-se à hidratação e nutrição da criança. Em algumas situações (cerca de 10 a 20% dos casos) pode haver necessidade de uso de medicamentos, que é, pois, exceção na abordagem destas crianças. Medicamentos como antieméticos, antiespamódicos, adstringentes e agentes probióticos (lactobacilos e outros) não devem ser utilizados. A única exceção é o uso parcimonioso de metoclopramida parenteral (uma dose apenas, de 0,2 mg/kg) em algumas crianças no início da terapia de reidratação oral, quando apresentam vômitos que não cessam com o uso da SRO (o que é raro acontecer, pois habitualmente os vômitos desaparecem com o início da SRO). D- Medidas preventivas As medidas para prevenção da diarréia aguda visam dois aspectos principais: - Reduzir a transmissão dos agentes patogênicos, diminuindo o número de episódios
- Promover o bom estado nutricional da criança, diminuindo as complicações e mortalidade da diarréia
Para isso as principais medidas são: - Promover a prática do aleitamento materno, indiscutivelmente o melhor alimento para o lactente. Este alimento deve, idealmente, ser o único alimento nos primeiros quatro a seis meses de vida. Para que a mãe possa adequadamente amamentar seu filho é necessário que ela tenha condições para tal. Tentar promover estas condições é tarefa da equipe de saúde.
- Introduzir práticas adequadas do desmame, que deve, idealmente, ser iniciado aos seis meses de vida, utilizando alimentos de boa qualidade nutritiva, culturalmente aceitos e preparados com boa higiene.
- Seguir o esquema básico de vacinação preconizado pelo Ministério da Saúde e Secretarias Estadual e Municipal de Saúde.
- Incentivar o saneamento básico. A disponibilidade de água em quantidade suficiente nos domicílios é a medida mas eficaz no controle das diarréias infecciosas. A disponibilidade de rede de água e esgotos adequados reduz consideravelmente a morbimortalidade por doenças diarréicas na infância.
- A educação da comunidade, incentivando noções de cidadania, única maneira da população efetivamente lutar por seus direitos de saúde.
5 - Bibliografia Consultada -
BRASIL, Ministério da Saúde/Secretaria de Assistência e Saúde/ Coordenação de Saúde Materno-infantil. Assistência e controle das doenças diarréicas. Brasília, s.n., 1993. 44 p. -
MOTA J.A.C.; NORTON R.C., LEÃO E. Diarréia aguda na infância. In; PENNA F.J. & MOTA J.A.C. Doenças do aparelho digestivo na infância. Rio de Janeiro, MEDSI, 1994. 342 p. p. 7-25. -
MOTA J.A.C.; PÉRET FILHO L.A., NORTON R.C., PENNA F.J. Diarréia aguda- sumário e manejo clínico. In; PENNA F.J. & MOTA J.A.C. Doenças do aparelho digestivo na infância. Rio de Janeiro, MEDSI, 1994. 342 p. p. 27-35. |