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Reações da Família ao Paciente
com Malformação Congênita

Mônica
Maria de Oliveira Melo
Acadêmica
Marcos
José Burle de Aguiar
Orientador
O
nascimento de uma criança com uma malformação congênita
é um grande desafio ao pediatra, que terá que saber lidar
não somente com a criança malformada mas, principalmente,
com sua família.
Levando-se em consideração o número relativamente
grande de crianças com malformações, é ainda
muito restrito o conhecimento médico acerca dos mecanismos de
adaptação das famílias à chegada de uma
criança malformada. É importante que o médico compreenda
que a ocorrência de qualquer tipo de malformação
é sempre traumática para os pais, pois representa a perda
de um filho que se esperava normal.
Vários estudos foram desenvolvidos com o intuito de tentar compreender
o processo de adaptação sofrido pelos pais dessas ciranças.
Esses estudos mostraram que o processo adaptativo é composto
de um conjunto de reações fisiológicas e necessárias
para a aceitação da nova realidade. O enfrentamento de
cada uma dassas reações ou estágios é imprescindível
aos pais para a conclusão saudável do processo de perda
da criança idealizada e aceitação da criança
com a qual conviverão na realidade.
O
processo de luto - as reações de desgosto
"A
discrepância entre a criança antecipada e a realidade da
criança com defeitos sempre é motivo de crise."
A
mãe que dá a luz à uma criança malformada
precisa sofrer pela perda da criança perfeita desejada para que
possa se apegar à criança imperfeita produzida por ela.
Quando uma criança nasce com um defeito, as metas, fantasias
e idealizações dos pais são destruídas e
o luto é a resposta característica dos pais à perda
de sua criança normal. Várias fases são encontradas
no processo de luto; a reação inicial de desgosto, que
inclui sentimentos de dor, vazio e desamparo intensos, manifesta-se
com o inicialmente com o choque e posteriormente vem a descrença,
ou negação.
Primeiro
estágio - Choque
"Aquilo
foi um grande golpe, que me espatifou por inteiro."
Várias
fases são encontradas no processo de luto. Na maioria dos pais,
a reação inicial à notícia de que seu filho
é ou será malformado é o choque. Certamente os
pais são totalmente despreparados para a notícia de alguma
anomalia em seus filhos e é extremamente importante para eles,
tanto psicologicamente quanto perante a sociedade, produzirem um bebê
perfeito. A criança representa uma auto-imagem dos pais, é
o espelho deles; assim, muitos pais sofrem problemas de auto-estima
quando surpreendidos pelo nascimento de uma criança com defeitos.
Segundo
estágio - Negação
"Eu
não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. Eu
pensei que era um sonho e que eu podia acordar a qualquer momento."
"Eu não conseguia enxergar aquele bebê como meu. Era
como se fosse o filho de alguma outra pessoa. Inicialmente eu o carreguei
no colo
apenas porque era meu papel como mãe."
A
negação constitui o segundo estágio do processo
de luto. É um processo de atordoamento, entorpecimento, descrença,
no qual a mãe não se permite nenhum pensamento ou sentimento
que a faça admitir a realidade de sua criança imperfeita.
Em muitos estudos, os pais relatam um desejo de se livrarem daquela
situação, mesmo quando isso significa se livrarem da criança.
Muitos estudos revelam ainda que a intensidade da negação
está relacionada diretamente ao impacto visual da malformação.
Malformações de face são estreitamento relacionadas
com altos índices de rejeição.
O
processo de frustração - As reações do desapontamento
e
    As
reações de defesa
Terceiro
estágio - Raiva
"Eu
nunca odiei o bebê, eu odiei o que ele representava. Eu me odiei
naquele momento, pois eu era a responsável, mas não me
importaria se ele morresse."
Seguem
ao estágio de negação sentimentos intensos de raiva
e culpa. O desapontamento e frustração que marcam esse
estágio podem gerar impulsos primitivos de agressividade e destruição
que são voltados contra a criança. Muitas famílias
ainda relatam ter dirigido sua raiva contra eles mesmos, suas famílias
e, principalmente, contra o médico e a equipe hospitalar. Outra
forma de expressar a raiva são os sentimentos de auto-piedade,
onde os pais se sentem vítimas de um destino que não mereciam
e vêem a criança como "uma cruz" que carregarão
durante suas vidas.
Quarto
estágio - Culpa
"O
que eu fiz para merecer isso?"
Após
os sentimentos de raiva e consequentemente aos mesmos, vem os sentimentos
de culpa. Nessa fase, a mãe se responsabiliza pelo que aconteceu
à criança, inclusive tentando encontrar um motivo concreto
que explique a malformação. Algumas mães tendem
a ver a malformação como uma punição Divina
e procuram na memória por algum ato que tenham cometido durante
suas vidas que esteja envolvido na gênese da tragédia.
Outro aspecto interessante é a hesitação em se
apegar à criança; muitas mães relatam que o medo
de que a criança pudesse vir a falecer a qualquer momento influenciou
negativamente na interação mãe-filho nesse estágio.
Fazem parte do processo de frustração, além das
reações do desapontamento - raiva e culpa - as reações
de defesa, que podem durar semanas ou mesmo uma vida inteira; muitos
mecanismos de defesa podem ser usados ao mesmo tempo, em qualquer dos
estágios do processo adaptativo.
As reações de defesa são necessárias para
que a família possa lidar com a ansiedade gerada pelo nascimento
de uma criança malformada e sobreviver às reações
anteriores, de choque, negação, raiva e culpa, mantendo
ainda a integridade emocional. Com o uso de mecanismos de defesa, a
mãe pode também se proteger contra a depressão,
culpa ou perda de auto-estima. O limite entre a utilização
saudável dos mecanismo de defesa e a utilização
patológica dos mesmos, entretanto, é muito tênue
e o médico deve estar alerta para a percepção e
aconselhamento nesses casos.
Os mecanismos
de defesa - projeção, formação reativa,
retração e distanciamento, intelectualização,
busca incessante por atendimento médico.
Projeção
ou transferência - frequentemente é mais fácil
para os pais enxergarem a malformação como um erro cometido
por outra pessoa, como uma falha que não se relaciona à
eles. Assim, geralmente a mãe projeta seus sentimentos de raiva
e hostilidade em algum membro da família que possa ser responsabilizado
por essa "herança"; é ainda muito comum vermos
os médicos e a equipe hospitalar serem vistos como culpados pela
imperfeição da criança, seja na condução
do parto ou por procedimentos médicos pré-natais. São
também comuns alusões à medicamentos, bebidas,
comidas, comportamentos ou mesmo "mau-olhado" de outras pessoas
que justifiquem a condição da criança. É
ainda mais comum a transferência da "culpa" pelo ocorrido
ao cônjuge ou membro da família deste. Alguns estudos mostram
que em um número apreciável de famílias a presença
de uma criança malformada leva ao divórcio.
Formação
reativa - ocasionalmente a descoberta de uma malformação
resulta em pensamentos do tipo "Estou feliz de que a criança
seja malformada" ou "Nós tivemos a sorte de sermos
abençoados com uma criança excepcional" - que refletem
a crença de que o defeito seja vontade de Deus e abençoado
pelos céus.
Retração
e distanciamento - muitas mães sentem necessidade de se isolarem
do convívio com outras mães de crianças normais
ou do convívio familiar, por imaginarem algum tipo de cobrança
dos parentes que esperavam a produção de uma criança
perfeita. Outro mecanismo de defesa é o distanciamento precoce
da criança, por meio da institucionalização das
mesmas.
Intelectualização
- se a mãe tem formação escolar suficiente, ela
pode se dedicar intensamente ao estudo das causas ou curas para a deficiência
específica de sua criança. Esse mecanismo pode ser construtivo
e de grande ajuda, mas não quando a leitura se torna obsessiva
e reflete uma forma de se abstrair das reais necessidades da criança
malformada.
Busca
incessante por atendimento médico - o desejo intenso de negar
a existência da malformação, de minimizar seu significado
ou um objetivo de mudar o prognóstico pode levar à uma
busca incessante por aconselhamento médico, ou "doctor shopping".
Esse mecanismo de defesa compreende uma peregrinação à
diversos especialistas num esforço evidente de negar a realidade,
sendo muito comum inclusive a procura de "curas miraculosas",
por pessoal não especializado.
Quinto
estágio - Adaptação
"Quando
nós a vimos pela primeira vez, ficamos espantados, pois tudo
o que vínhamos conjecturando a seu respeito, todos os medos e
fantasias terríveis sobre o aspecto do bebê caíram
por terra: o que vimos foi um bebê relativamente normal. Ela era
muito diferente do que tínhamos imaginado".
No
período de adaptação é o estágio
onde comumente cessam os mecanismos de defesa e inicia-se uma gradativa
aceitação da verdadeira realidade. É muito comum
nesse período vermos os pais tentando enfatizar os pontos positivos
de suas crianças e a grande maioria deles realmente se surpreende
com o verdadeiro aspecto de seus filhos quando vê a criança
pela primeira vez após serem avisados sobre a malformação.
As fantasias criadas pelos pais acerca do aspecto de seus filhos são
muito piores e mais pessimistas do que a realidade das crianças.
As mães se surpreendem quando percebem que, muitas vezes, o convívio
com um bebê malformado é muito parecido com o convívio
com outras crianças. É nessa fase que estreitam-se os
laços mãe-filho e muitas mães referem-se à
seus filhos como "muito especiais". Também nesse estágio
resolvem-se os conflitos internos e as mães se convencem de que
a malformação não é nada que elas tenham
provocado ou nenhum castigo por algo que tenham feito.
Sexto
estágio - Reorganização
"Nós
nos preocupamos mais um com o outro do que com a criança. Nós
precisamos muito um do outro naquela época; foi um período
em que engrandecemos nossa confiança, cumplicidade e admiração
pelo outro."
O
período de reorganização é um tempo em que
os pais relatam maior apego e interação com seus filhos
e representa o período em que procura-se "colocar a casa
em ordem", ou seja, redefinir prioridades e procurar planejar o
futuro da melhor forma possível, respeitando as limitações
da criança. Para que o período de reorganização
tenha sucesso é imprescindível apoio mútuo entre
os pais, para que possam enfrentar as futuras adversidades juntos. Devemos
ressaltar que a intensidade das reações de reorganização
é infinitamente maior do que a intensidade de todas as outras
reações em um processo de adaptação saudável.
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