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A medicina atual - biológica e tecnológica
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Prof. Roberto Assis Ferrreira
Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG

 

A medicina atual com todas as sua glórias, com a sua eficácia comprovada, obtendo sucesso em situações desesperadas, para as quais há pouco tempo não havia qualquer perspectiva de vida, mesmo assim, apesar da credibilidade conquistada, esta medicina encontra-se imersa em uma profunda crise. É uma crise que já se faz sentir pelo alto custo do modelo assistencial, o que a torna inviável para a maioria dos países, passando a ser questionada mesmo em nações ricas, como o próprio EUA. A especialização crescente, as políticas sociais excludentes, a influência crescente da indústria, a incorporação anárquica de tecnologias, a tendência à mercantilização e ao consumo, são problemas que não podem ser considerados como menores. A educação médica, por seu lado, por mais esforços que tenham existido por parte de alguns organismos internacionais como a Organização Mundial de Saúde, permanece presa a modelos subordinados em grande parte às demandas de mercado, distante de uma educação crítica e transformadora.

Uma das principais explicações para essa crise está em atribuí-la ao modelo biológico o qual, sem dúvida, se adequou perfeitamente ao modelo tecnológico, da mesma maneira como os dedos da mão se adaptam à luva. Fica já desde o início a pergunta: como explicar a manutenção dessa hegemonia, biológica e tecnológica, por que se mostra tão forte este paradigma, mesmo enfrentando essa grave crise e recebendo críticas reiteradas? Esse processo necessita ser estudado enquanto fenômeno cultural, relacionado com o modelo de produção do conhecimento, mas que deve ser analisado em suas dimensões históricas, políticas, econômicas e sociais.

Os fenômenos que compõem as modificações da medicina no século XX, quando abordados em separado, levam a uma visão parcial e insuficiente da realidade, conseqüentemente, estimulam soluções equivocadas. Reduzir a análise da medicina tecnológica e a crise que a afeta a determinados aspectos, alguns sem dúvida de grande importância, empobrece o entendimento. É o que ocorre nos exemplos abaixo, onde se poderia tomar como causa isolada desse processo:

  • a complexidade crescente do conhecimento; a divisão técnica do trabalho; a incorporação de instrumentos à prática médica;

  • a desorganização da assistência pública; a massificação da formação médica; a má-qualidade profissional; a formação médica dissociada das necessidades da população;

  • as transformações econômicas, sociais e demográficas, atingindo a população, inchando as cidades, criando necessidades e demandas na área de saúde;

  • a má distribuição e a concentração urbana de médicos e serviços médico-hospitalares;

  • o ensino médico dissociado das necessidades da população, o baixo nível de consciência sanitária dos médicos e de outros profissionais de saúde; o papel das corporações médicas em defesas de privilégios setoriais;

  • o surgimento das empresas médicas; a perda da autonomia dos médicos; a mercantilização da medicina e o assalariamento;

  • as tecnologia caras; modelos centrados no atendimento hospitalar; a dependência tecnológica;

  • a burocratização; a intervenção do estado; a crise do Estado; o projeto neoliberal;

            Assim, é comum que alguns pontos de vista surjam na tentativa de explicar as transformações da medicina tecnológica, ou seja, procurando entender fenômenos como a incorporação maciça de tecnologia, a especialização crescente, o desaparecimento da medicina liberal e o surgimento das formas coletivas de trabalho. Tais explicações são naturais e necessárias, mas a partir delas é possível ampliar o entendimento do processo. Continuemos:

  • uma abordagem priorizando a forma de produção do conhecimento, pode tentar explicar a medicina moderna, em sua complexidade e especialização crescentes, como resultado do progresso técnico e científico, sobretudo, de avanços no campo do conhecimento; as transformações da medicina seriam o resultado da aplicação da ciência em um mundo industrializado; as especialidades surgiriam pela produção de novos conhecimentos e novas áreas do saber; a especialização crescente dentro do modelo tecnológico vigente, construído sobre o paradigma biológico, está fundamentada na incorporação de tecnologias instrumentais e no esvaziamento de procedimentos clínicos, leva também ao parcelamento do ato terapêutico e dificulta práticas interdisciplinares;

  • uma concepção mais economicista, pode tentar entender a medicina tecnológica a partir da divisão técnica do trabalho, da complexidade crescente do trabalho e dos instrumentos do trabalho, portanto, em relação direta com o mercado de trabalho e as relações de trabalho; na medida em que o objeto da medicina e a eficácia médica ultrapassam o indivíduo deslocando-se para a sociedade, em que a saúde é do interesse do Estado e da própria produção industrial, a participação do Estado se faz sentir inclusive na assistência médica; por outro lado, quando a doença e a própria saúde se transformam em mercadorias, em produtos que podem ser ofertados no mercado, ou quando a prática da medicina leva ao consumo de mercadorias - produtos, serviços ou tecnologias - ela passa a ter que admitir em sua atividade as empresas médicas; o desenvolvimento tecnológico estimula o uso de instrumentos complexos e de alto custo, induz a intervenção do Estado e o aparecimento das empresas médicas, leva a priorizar investimentos nas organizações hospitalares, públicas ou privadas, influenciando em grande parte na constituição do modelo assistencial;

  • a partir da dinâmica social, dos conflitos de interesse de diversos agentes sociais - médicos, empresas médicas, grande indústria, Estado -, da luta por autonomia e da ideologia liberal sobretudo dos médicos, entendem-se diversos fenômenos envolvidos na medicina atual; a saúde entendida como um direito social, como uma necessidade básica e parte da luta por cidadania, como elemento que gera tensão social, tranforma-se em bandeira de movimentos populares e passa a exigir ações do Estado; a tendência à extinção da prática liberal, o empresariamento ou a ação Estatal, criam novas relações de trabalho e novas formas de organização profissional;

  • a especialização é uma necessidade da divisão técnica do trabalho, mas a especialização maciça, a grande desproporção entre médicos gerais e especialistas, a "associação de iguais", sem estimular práticas interdisciplinares, o parcelamento do ato terapêutico, a falta de preparo para perceber as necessidades globais do paciente e do sistema de saúde, são fruto do modelo tecnológico vigente subordinado às normas de mercado e ao conceito biologico de prática médica; o modelo tecnológico e a crença habilmente propagada que a expansão hospitalar e a incorporação de tecnologias trariam solução para os problemas da saúde, levaram a uma distorção profunda do modelo médico-assistencial, priorizando o investimento hospitalar e tecnológico e secundarizando o investimento em atenção primária e atenção coletiva, mesmo em países como os EUA;

  • a formação profissional por mais crítica que pretenda ser, recebe forte influencia da prática médica vigente, seja do setor público ou privado; e o estudante de medicina sempre vai construir seu projeto profissional tendo por referência os modelos com os quais convive e as possibilidades de inclusão no mercado, por menos que este lhe seja atrativo; a medicina tecnológica na medida em que passou a incorporar sobretudo especialistas, tendeu por um lado a estender o curso médico através da residência médica, sistema altamente interessante para os hospitais que passaram a ter um corpo clínico permanente e extremamente dedicado, de baixo custo, ávido por praticar e aprender.

            Nos pontos levantados acima pode haver a tendência de valorizar apenas os efeitos, os fenômenos mais imediatos, que certamente têm importância e contribuem para constituir o conjunto do quadro, cujo entendimento deve ser procurado. Há risco de permanecer no conhecimento abstrato quando se tenta analisar questões tão complexas, transformando os processos sociais em variáveis ou multivariáveis e não como elementos de uma mesma realidade em relações dialéticas.

 Por outro lado, a tentativa de compreender o "conjunto" corre o risco de valorizar determinações mecânicas, tratando essas diversas dimensões como peças de uma engrenagem, reflexo de determinada realidade, que uma vez compreendida permite enxergar o restante, sem levar em consideração as contradições particulares a cada processo concreto. É necessário assim um esforço analítico, mas considerando sempre uma realidade em movimento, com contradições próprias e não mantendo relações mecânicas, pelo contrário, apresentando mediações, muitas vezes, dificilmente perceptíveis. Deve-se, portanto, evitar sínteses apressadas sendo mais sensato, às vezes, manter conclusões provisórias, que devem ser amadurecidas na observação e no debate.

 A medicina tecnológica está enraizada nas transformações da sociedade do século XX e foi construída dentro do paradigma da medicina biológica. Paradigma, esse, que se consolidou no início deste século através das contribuições das disciplinas biológicas. Para essa consolidação, foram também fundamentais as transformações do ensino médico. Como conclusão é possível afirmar que o modelo tecnológico é um modelo em crise, crise que se manifesta na sua forma de construir o conhecimento, na resposta à questão da saúde na sociedade, no seu equacionamento econômico, nas relações sociais e profissionais, enfim nos modelos assistenciais que gera. Esta crise cobra respostas e no caso da Universidade tem relação direta com o ensino médico e a produção de conhecimentos.

 

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