Avaliação integrada é novidade no novo currículo

Publicado em Entrevistas, Graduação
19 de janeiro de 2012

A prova escrita deverá ser apenas um dos instrumentos de avaliação do curso de medicina nos próximos anos. Na nova proposta curricular, encaminhada à Pró-Reitoria de Graduação nesta semana, está prevista uma mudança na forma de analisar os conhecimentos adquiridos pelos estudantes.

Fernando Reis, coordenador do colegiado do curso de Medicina, aborda, na terceira parte da entrevista concedida à Assessoria de Comunicação Social, as mudanças na avaliação dos alunos.

De que forma o novo currículo irá afetar a forma de avaliação dos estudantes?

Vamos reforçar o papel da Comissão Permanente de Avaliação e dos coordenadores de períodos, que irão planejar e acompanhar todo o processo. Queremos melhorar a qualidade das avaliações em todas as etapas do curso. Para isso, precisamos aumentar a variedade dos instrumentos, aumentar a objetividade, o grau de planejamento, analisar de forma científica e metódica os resultados das avaliações, além de dar retorno aos alunos.

Haverá uma padronização das avaliações?

Sim, é o que prevê a proposta. A avaliação deixará de ser uma coisa que cada professor faz do seu jeito, para se tornar algo dirigido pela escola. Um modelo definido. Mas queremos também diversificar, criar mais formas de avaliação. Não dá para avaliar os conhecimentos e habilidades de um aluno só com a prova escrita. As provas serão mais bem planejadas, irão passar por comissões. Os resultados serão apurados de forma metódica.

Quais seriam os outros instrumentos adotados?

Provas práticas estruturadas, como mini-CEX e OSCE, este já aplicado nos internatos e com perspectiva de introdução em outras disciplinas, e o portfólio.

Além de uma variedade de instrumentos, o que será feito para aperfeiçoar a qualidade daqueles já adotados no curso?

Os testes de múltipla escolha e de questões abertas  poderão contar com outros recursos, como projeção de imagens e filmes, e passarão por um controle de qualidade das questões. As provas deverão ser integradas. Os conhecimentos de uma disciplina irão se misturar com os conhecimentos de outras. O aluno tem que saber pensar no caso clínico usando conhecimentos adquiridos em várias matérias. E isso deverá ser cobrado na prova.

Leia as outras partes da entrevista com o professor Fernando Reis:

- 1ª parte: Coordenador do colegiado fala sobre proposta de novo currículo

- 2ª parte: Saiba quais são as principais mudanças no currículo de Medicina

- 4ª parte: Novo currículo pode entrar em vigor em 2012

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Principais mudanças no currículo da Medicina

Publicado em Entrevistas, Graduação
18 de janeiro de 2012

A nova proposta de currículo para o curso de Medicina inclui mudanças e introdução de novas disciplinas, além da oportunidade de fazer eletivas em cursos diversos da UFMG. Áreas como a de saúde mental e saúde da mulher também ganharão mais espaço.

Nessa segunda parte da entrevista com o coordenador do colegiado do curso de Medicina, professor Fernando Reis, conheça as principais mudanças pelas quais os alunos deverão passar nos próximos anos.

Haverá mudança de carga horária com a introdução do novo currículo?
A proposta prevê um aumento de aproximadamente 10% da carga horária atual. Porém, a maior parte desse acréscimo está relacionada a estágios. Algumas disciplinas serão criadas e outras serão remanejadas ou extintas.

O senhor pode citar alguns exemplos?
O ensino de cirurgia será remodelado. Disciplinas atuais darão lugar a novas, que mesclarão conteúdos. Serão novas maneiras de apresentar o conteúdo, de inserir o aluno na prática. Um ensino mais próximo da realidade profissional, menos fragmentado.

A humanização da medicina é uma preocupação bastante atual dos cursos médicos. Quais serão as mudanças nessa área?
Uma das prioridades das mudanças curriculares que estão acontecendo em todo o país é o preparo do estudante de medicina para questões relacionadas à ética, bioética e atenção humanitária ao indivíduo. Para isso, o aluno poderá cursar disciplinas de sua livre escolha (eletivas) em outros cursos da UFMG, como os da área de ciências humanas. A proposta também inclui duas disciplinas específicas de ética médica na nossa matriz curricular. Também devemos incluir e desenvolver, de forma contínua e sistemática, conteúdos de ética e bioética em grande parte das disciplinas do curso médico.

Como essa questão de ética é trabalhada na Faculdade atualmente?
O que temos hoje é uma disciplina optativa de Ética e Direito Médico, que recebe alunos e professores convidados da Faculdade de Direito. Algumas disciplinas trabalham conteúdo de ética, de uma maneira mais esporádica.

Alguma área médica ganhará mais espaço com a adoção do currículo novo?
Duas áreas devem ter alcance maior nesta proposta: saúde mental e saúde da mulher. Futuramente temos a intenção de expandir também a área de saúde do idoso, considerando a tendência de alteração da pirâmide populacional brasileira.

Por que a decisão de dar mais destaque a essas áreas?
Pelas diretrizes nacionais, o curso de medicina deve ser capaz de preparar um clínico geral capaz de atuar nos problemas mais comuns da população. A formação nas grandes áreas básicas da medicina (clínica médica, pediatria, cirurgia, saúde pública, ginecologia-obstetrícia e saúde mental) deve ser sólida e resolutiva. Os ajustes de carga horária nessas áreas básicas buscam uma formação consistente e equilibrada em todas elas.

Haverá remanejamento da parte prática do curso?
Em relação aos estágios, o que temos de mais importante é que eles passam a ter quatro semestres de duração. Atualmente, eles começam no 10º período. Com a nova proposta, começariam no 9º. Dessa forma, existe a oportunidade de antecipar os estágios hospitalares, que são feitos hoje no 12º período, e deixar esse último semestre do curso para um estágio em atenção primária e outro estágio opcional. Com o estágio em atenção primária o aluno poderá ficar, no fim do curso, mais próximo do espaço de trabalho que absorve grande parte dos recém-formados. Com o estágio opcional o aluno teria a chance de complementar o aprendizado em uma área que ele defina como prioritária para reforçar sua formação.

Leia as outras partes da entrevista com o professor Fernando Reis:

- 1ª parte: Coordenador do colegiado fala sobre proposta de novo currículo

- 3ª parte: Avaliação integrada é novidade no novo currículo

- 4ª parte: Novo currículo pode entrar em vigor em 2012

 

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Coordenador do colegiado fala sobre proposta de novo currículo

Publicado em Entrevistas, Graduação
17 de janeiro de 2012

A proposta de mudança curricular encaminhada à Pró-reitoria de Graduação da UFMG nesta segunda-feira, 16 de janeiro, começou a ser formulada há mais de dez anos, com a publicação, em 2001, das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Se aprovada, estudantes do curso passarão a ter uma formação ainda mais interdisciplinar, focada no lado humanístico da profissão e no mercado de trabalho.

Professor Fernando Reis fala sobre as implementações previstas na proposta de um novo currículo.

Em entrevista à Assessoria de Comunicação da Medicina, o coordenador do colegiado do curso, professor Fernando Reis, deu detalhes sobre as alterações curriculares.

Como se deu o processo de elaboração da proposta de um novo currículo para o curso de Medicina da UFMG?

Essa proposta é o resultado do trabalho de várias comissões da Faculdade de Medicina durante os últimos dez anos, de 2002 a 2011. Envolveu professores de todos os departamentos da Faculdade e representantes de alguns departamentos do ICB (Instituto de Ciências Biológicas). Em todas as comissões, houve também participação de alunos.

Quando ocorreu a última mudança curricular no curso médico da UFMG?

A última mudança de maior porte ocorreu em 1994, mas o currículo passou por ajustes menores em 2003 e 2009.

Como surgiu a necessidade de fazer uma grande reforma de todo o currículo?

Essa proposta não é revolucionária. Trata-se de um conjunto de mudanças que partiu de um marco teórico em 2001, que foi a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais. A proposta nasceu com a necessidade de a Faculdade de Medicina modernizar seu método de ensino e aderir às normas nacionais.

Que tipo de mudanças podemos esperar no curso de Medicina com a introdução de um novo currículo?

As duas palavras-chave que são perseguidas nesse esforço de mudança curricular são contextualização e integração. Contextualizar significa que o estudante, desde o 1º período, deve entender as situações às quais ele vai aplicar o conhecimento que adquire. Ele deve aprender motivado pela aplicação do conhecimento. Integrar significa que os conteúdos das várias disciplinas, tanto aquelas que são dadas simultaneamente como aquelas em sequência, serão articulados uns com os outros. Isso será feito de forma programada e organizada pelos professores encarregados de gerir e acompanhar o currículo.

E como esses dois objetivos, de contextualizar e integrar conhecimentos, serão construídos no cotidiano do aluno?

Para que isso ocorra, as disciplinas terão que dialogar umas com as outras. Estamos propondo disciplinas interdepartamentais, nas quais os professores de diversas especialidades possam trabalhar juntos. Haverá uma atualização de conteúdo de disciplinas dadas simultaneamente, para que elas sejam complementares. Por exemplo: o aluno deverá estudar, na mesma época mais ou menos, a doença cardiovascular do ponto de vista da imagem, da anatomia patológica, de propedêutica clínica, da terapêutica. Pretendemos ligar os conteúdos de neuroanatomia e neurofisiologia e os de anatomia topográfica e radiologia. Uma das propostas mais interessantes do currículo, a meu ver, é a criação de disciplinas de propedêutica e de saúde mental acopladas aos internatos clínicos. Isso significa a oportunidade de o aluno discutir exames de laboratório, de imagem e histopatológicos dos mesmos pacientes que ele atende na enfermaria, com os professores das áreas propedêuticas. Significa discutir os problemas relacionados com saúde mental dos seus pacientes clínicos e pediátricos com seus professores da saúde mental. O aluno deve aprender a exercer a medicina de forma integral, atendendo o paciente como um todo.

Leia as outras partes da entrevista com o professor Fernando Reis:

- 2ª parte: Saiba quais são as principais mudanças no currículo de Medicina

- 3ª parte: Avaliação integrada é novidade no novo currículo

- 4ª parte: Novo currículo pode entrar em vigor em 2012

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Bernardo Kucinski discute mídia e promoção da saúde

Publicado em Centenário, Entrevistas
26 de outubro de 2011

A relação entre a mídia e a saúde irá nortear os trabalhos do Eixo 7 do 2º Congresso Nacional de Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG. Uma das presenças mais aguardadas é Bernardo Kucinski, jornalista, cientista político e professor da USP. Ele participará da mesa-redonda O Diálogo (Im)Possível: Jornalistas e Profissionais de Saúde, às 14h30 do dia 3 de novembro. Na entrevista abaixo, ele adianta algumas questões que serão abordadas.

Bernardo Kucinski / foto: Jailton Garcia

Hoje em dia, as revistas de circulação nacional têm oferecido, com frequência, grandes reportagens sobre temas ligados à saúde, muitas vezes como destaque de capa. Esse fenômeno é reflexo do interesse da sociedade por notícias de saúde? O que explica esse interesse?

Eu não tenho conhecimento de algum trabalho específico com metodologia científica que aborde essa questão. Mas é possível especular. Eu considero que há três fatores que podem explicar o aumento do interesse por notícias de saúde. O primeiro é o envelhecimento da população. É do perfil de pessoas mais idosas se preocuparem mais com a saúde. O segundo fator é o culto ao indivíduo, fenômeno que é próprio dessa era neoliberal. O individualismo estimula uma preocupação demasiada com você mesmo, e a forma mais concreta de manifestar essa preocupação é dar grande atenção ao seu corpo. Disso resulta que a maior parte das reportagens em saúde está relacionada com a estética. O terceiro e último fator é a erotização da vida pós-moderna, que novamente fomenta a preocupação com o corpo.

A abordagem de outros assuntos da área da saúde é prejudicada pelo excesso de reportagens sobre a estética corporal?

Pelos motivos que eu já expus, o corpo da sociedade gera menos interesse que o corpo pessoal e, por isso, não há uma cobertura da saúde pública no mesmo grau que a cobertura das questões estéticas. Um fenômeno que se observa hoje é a ascensão das revistas femininas. Não tanto em tiragem, mas em quantidade de títulos. Há uma infinidade de publicações semelhantes voltadas para a estética e a beleza. E nessas publicações, o jornalismo se mistura com a propaganda. A propaganda se tornou leitura, é informativa, se confunde com a reportagem. E os grandes anunciantes são os produtores de cosméticos. Há um apelo para o consumo dos cosméticos. Nas farmácias, a área dedicada a eles costuma ser muito superior à destinada a outros tipos de produtos. E estas revistas femininas se disseminam num momento em que outras revistas especializadas estão em crise. Elas acabam sendo um veículo para promover os cosméticos.

O senhor já defendeu, em um artigo, que a cobertura jornalística tem foco nas manifestações das doenças e não nos processos sociais de produção da doença. Porque isso acontece e qual a importância de se inverter esse enfoque?

Eu creio que esse não é um problema limitado ao jornalismo, porque o próprio sistema de saúde é focado no tratamento. Os procedimentos médicos são quantificados em cima da cura e do tratamento. Não há um trabalho sistemático voltado para promover o bem-estar do ser humano. Até porque o capitalismo busca transformar tudo numa mercadoria e, na saúde, ele consegue fazer isso de forma eficaz com o tratamento e o medicamento. Transformar bem-estar em mercadoria é bem mais difícil. Por isso, eu não acredito na possibilidade de inversão completa desse enfoque. Por outro lado, quando se propõe abordar a promoção da saúde, que é o tema do Congresso, nós estamos dando um passo na direção de diminuir a incidência do foco no tratamento. Por enquanto, eu vejo a questão da promoção da saúde como um esforço de reflexão filosófica, em eventos científicos, médicos, etc. Ainda é necessário abrir mais os horizontes e conceber ações de saúde quantificáveis. Um exemplo concreto é a recente proibição de fumar em lugares fechados, que tem como consequência a economia de milhões de reais na área da saúde. Da mesma forma, limitar os índices de emissão de gases pelos automóveis, controlar a presença de gordura trans nos alimentos e impor padrões adequados de moradia – boa iluminação, pouca exposição à poluição, etc. – são possíveis políticas públicas que são quantificáveis.

As diferenças de linguagem criam em muitos médicos e professores de medicina o receio de conceder uma entrevista à imprensa, apontando o risco de distorção de suas palavras. Como equacionar essa questão?

É difícil responder, porque esse é um problema que se verifica igualmente na interação do jornalismo com outras áreas. Os economistas, por exemplo, também fazem essa reclamação. Mas, na medicina, essa relação é mais conflituosa porque sua linguagem é muito rigorosa. O que eu tenho observado é que, na tentativa de equacionar essa questão, os hospitais e mesmo as clínicas menores recorreram às assessorias de comunicação. Hoje, quase todas as instituições médicas possuem assessorias. E os profissionais que atuam nelas estabeleceram como ideologia central a importância da clareza da informação para com o público. E nesse sentido, filtram os médicos que conseguem se expressar melhor e são mais concisos, e os instruem. Por outro lado, eu tenho observado que a qualidade do jornalismo tem se deteriorado nos últimos anos, o que cria novos conflitos. Os jornalistas hoje estão menos informados e mais sobrecarregados. Às vezes, eles têm muitas pautas para cobrir num mesmo dia, e não dão a devida atenção para compreender uma informação corretamente.

A imprensa é o melhor meio para os professores de medicina de universidades públicas retribuírem o investimento realizado pela sociedade? Seria falta de dever cívico se negar a compartilhar, por meio da imprensa, os seus conhecimentos e os resultados de suas pesquisas?

O funcionamento de um sistema de comunicação pública é pré-requisito para o caráter democrático de uma sociedade. E neste sistema todos os especialistas deveriam estar prontos a prestarem esclarecimentos, estejam eles onde estiverem. Logicamente, o mundo acadêmico tem regras e dinâmicas próprias, fazendo surgir ciúmes, disputas, etc. É o que faz com que alguns professores não queiram se expor na imprensa, o que eu acho um equívoco. Nós temos avançado para uma noção da comunicação pública enquanto um direito do cidadão. Mas para que a comunicação pública funcione, todos devem participar. Qualquer médico que for convocado, por exemplo, no caso de um surto epidêmico, precisa estar apto a dar orientações e informações sobre aquilo que é assunto de seu conhecimento.

Qual o impacto que os novos meios de comunicação virtual – blogs, sites de relacionamento e outras mídias especializadas em saúde – causam na circulação de informação sobre saúde?

Eu considero que nós estamos vivendo a maior revolução da história da comunicação e eu pretendo dedicar parte da minha exposição do Congresso a essa questão, que é de interesse de toda a sociedade. É uma revolução que acaba com o monopólio do jornalismo na mediação da comunicação, por exemplo, entre o médico e a população. A comunicação agora pode ser realizada de maneira direta. Pode também ser mediada de diversas outras formas, através das novas ferramentas virtuais. Além disso, com a pluralidade de vozes na internet, uma reportagem pode ser logo contestada por diversos usuários. Isso afeta a autoridade do jornalista. Mas não só a dele. Afeta também a autoridade do médico. Vai havendo menos espaço para o médico que esbanja soberba, que explica as coisas de forma ininteligível. Porque, cada vez mais, o paciente já tem informação prévia. Ele pesquisa sobre a doença, sobre os medicamentos e chega ao consultório em condições de dialogar e não apenas de aceitar a autoridade médica. É claro que o excesso de informações disponíveis também traz preocupação com a qualidade destas informações. Uma proposta que vem sendo discutida nesse sentido é a criação do “Selo Médico”, que seria concedido aos sites confiáveis. Para isso, seria necessário criar um serviço de fiscalização e autenticação ligado ao Ministério da Saúde ou ao Sindicato dos Médicos.

O tema deste 2º Congresso Nacional de Saúde é a promoção de saúde, que significa voltar as atenções para o indivíduo em seu estado sadio. Em outras palavras, é pensar como tornar as pessoas, a sociedade e as instituições mais saudáveis. A mídia tem alguma contribuição para oferecer na promoção da saúde?

A mídia pode contribuir de duas formas. A primeira é cumprindo a sua função tradicional de cobrar respostas das instâncias políticas para certos problemas da sociedade. Ela pode exercer sua pressão por políticas públicas voltadas para a promoção da saúde, que resultem na diminuição da demanda de atendimento dos hospitais. A outra forma de contribuir é através do esclarecimento. Para isso, é necessário criar uma agenda positiva, abrir uma janela que não seja destinada a ficar reportando somente o desastre.

 

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Entrevista: Luiz Megale fala sobre Osce

Publicado em Entrevistas
16 de setembro de 2011

Professor planeja chamar estudantes de artes cênicas para atuar nas provas

Desde 2009, quando foi implementada, a Avaliação Objetiva e Estruturada de Desempenho Clínico (Osce) passa por constante aperfeiçoamento. Às vésperas do Osce do 2º semestre de 2011, o professor do departamento de Pediatria, Luiz Megale, adiantou algumas das possíveis mudanças para os próximos semestres, como a implementação do exame ainda mais cedo no curso de Medicina e o convite a estudantes de teatro para participar como “pacientes”. Confira a entrevista realizada pela Assessoria de Comunicação Social (ACS) da Medicina:

ACS: Qual é a importância do Osce para os alunos do curso de Medicina?

Profº Luiz Megale: Os estudantes, durante os seis anos de curso, adquirem conhecimentos, como parte teórica, e desenvolvem habilidades clínicas,  como apalpar o fígado e baço. Mas eles devem ter o que chamamos de atitude. Isso significa saber conversar, ter respeito, educação e vontade de tratar aquelas pessoas. Essa parte do relacionamento entre médico e paciente é muito avaliada no Osce. E testamos também as habilidades clínicas.

ACS: Os alunos ficam bastante nervosos durante o Osce. Como o senhor avalia essa questão?

Profº Luiz Megale: Os estudantes devem aprender a vivenciar aquela situação, ter controle emocional. Se eles ficam nervosos na prova, imagina na frente de um paciente doente e com dor? Mas estamos estudando a possibilidade de implementar o Osce em períodos anteriores, às vezes a partir do 6º ou 8º período, para que eles possam ir se acostumando. Além disso, é normal ficar um pouco nervoso em uma prova.

ACS: Há outras mudanças em vista para o Osce?

Profº Luiz Megale: No caso da Pediatria, estamos com um projeto de trazer estudantes do curso de Artes Cênicas para atuar no Osce, no lugar dos funcionários da Medicina, que passam por pacientes. Isso aprimoraria a prova, fazendo com que o ambiente ficasse ainda mais próximo da realidade. É uma ideia para 2012.

Sobre o Osce

O Osce é aplicado a alunos do 10º ao 12º períodos, que fazem nesses últimos anos do curso internatos de Traumatologia, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Clínica Médica e Cirurgia. Eles passam por situações de simulação de atendimento clínico, quando devem atender os “pacientes” e dar diagnósticos.

Datas e regras

No 2º semestre de 2011, as provas ocorrem em 19, 20 e 21 de setembro. Será permitido somente o porte de crachá, jaleco, estetoscópio e caneta. O uso e porte de aparelhos eletrônicos, mesmo que desligados, também são proibidos.

 

 

 

 

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`Professores estrangeiros são atraídos por boas condições´

Publicado em Entrevistas
15 de setembro de 2011

No segundo bloco da entrevista sobre a internacionalização da Faculdade de Medicina da UFMG, o professor Manoel Otávio da Costa Rocha fala sobre a importância de aproveitar o potencial tecnológico, as estratégia para atração de docentes de outros países, os rankings internacionais, etc.

A entrevista foi publicada em versão resumida na edição de setembro do Saúde Informa, boletim informativo da Faculdade de Medicina. Aqui, ela se encontra na íntegra, divida em dois blocos. (Leia no primeiro bloco: “Internacionalizar é investir em nós mesmos”)

 

Recentemente, o Centro de Tecnologia em Saúde (Cetes) da Faculdade de Medicina organizou uma defesa de tese por videoconferência, proporcionando a participação de um professor estrangeiro. Qual a importância disso?
É você dar uma visão não provinciana. Porque quando se trabalha com a mesma equipe há muito tempo, existe sempre o risco de se criar uma ideia fechada. Você constrói a crítica sempre dentro de uma mesma lógica. Um docente de outro espaço acadêmico e outra realidade cultural apresenta uma nova visão e fomenta a reflexão. Nós fizemos um trabalho agora que contou com a ajuda de um professor muito importante da Havard Medical School. Ele fez uma análise do trabalho. Elogiou diversos aspectos e apontou algumas limitações que praticamente delineou toda uma linha de pesquisa pra nós desenvolvermos. O empenho desse camarada nas suas considerações será fundamental para os caminhos que iremos tomar.

Para um professor estrangeiro se tornar efetivo em uma universidade brasileira, ele precisa primeiro revalidar seu diploma, processo que pode durar meses. A questão burocrática não seria um empecilho para que docentes formados em notáveis instituições estrangeiras venham para cá?
Precisamos analisar esta questão com calma. Na minha opinião, é fundamental conhecer a realidade nacional para praticar a medicina aqui. Então o processo de revalidação não pode ser descartado. Um médico formado em Harvard pode ser bom para Harvard. E pode, por exemplo, ter conhecimentos aprofundados para tratar da hipertensão arterial. Mas para ele trabalhar dentro do sistema público brasileiro, são necessários novos conhecimentos.

Quais seriam as estratégias pra motivarem esses docentes a virem pra UFMG?
Eu tenho um tio que é físico. Ele trabalhou em Nothinghan, numa universidade onde havia 4 pesquisadores com Prêmio Nobel. Uma vez, ele me falou uma coisa que me deixou meio preocupado. Pesquisador não teria pátria. Não falou exatamente desse jeito. Mas o que ele disse é que os pesquisadores vão para onde tem condições de desenvolver seu potencial. Se você não dá condições pra pessoa se desenvolver, ela se frustra. A pessoa se forma como astrofísico e vai passar a vida inteira dando aula de matemática básica? Não vai. Ela vai pro país que lhe oferecer um laboratório.

Então sem infraestrutura não há internacionalização?
A infraestrutura tem que ser criada, sobretudo laboratórios e acolhimento. Nós temos que ter acolhimento mínimo. Existe uma ideia de fazer um prédio administrativo aqui no campus Saúde. Então, é importante inserir dois apartamentos nesse projeto. Porque precisamos ao menos de um lugar digno para receber os professores. E nós temos que ter também alojamentos para estudantes.

E qual que seria o caminho e a estratégia para que as universidades brasileiras consigam ampliar o número de publicações de artigos em revistas internacionais?
A resposta é qualidade e não quantidade. Porque tem gente que acha que deve ficar produzindo artigos ininterruptamente. Mas a questão também não é só essa. Na minha opinião, o caminho está numa coisa que Fernando Pessoa disse que é mais ou menos o seguinte: quando você estuda a sua aldeia e o perímetro da sua aldeia e você é qualificado, é possível atingir a universalidade. Então, eu acho que quando você estuda os aspectos peculiares das doenças da sua região você pode encontrar elos faltantes do conhecimento universal. Por isso, nós devemos nos inserir profundamente na realidade e nas necessidades de saúde da população brasileira. É o compromisso da universidade com seu meio. Temos que nos aprofundar em assuntos como hanseníase, esquistossomose, leishmaniose, o processo de urbanização da leishmaniose, a busca de um efeito residual mais duradouro de inseticida pra controlar dengue, etc. E quando se estuda essas questões, há uma repercussão mundial. Nós temos químicos e farmacêuticos pra estudar isso, mas é preciso ter indução para essas pesquisas. Porque quem vai estudar hanseníase, se não for indiano e brasileiro? E aí nós vamos ficar estudando Aids? Podemos estudar isso também, mas acho que não é o foco porque é um assunto que todo o mundo pesquisa. Os EUA gastam 4 bilhões de dólares com estudo de Aids. Então competir com eles nessas doenças que são universais é mais difícil. Agora quem vai estudar as nossas doenças e os nossos problemas é a universidade pública brasileira.

Criar cursos ministrados na língua inglesa contribui para o processo de internacionalização?
Eu acho que não. Nós temos que ser ciosos dos valores nacionais: a língua, a moeda, os símbolos da pátria, etc. Você escrever, redigir e ter o domínio da língua, da linguagem e da expressão é importante. No meio em que a universidade brasileira está inserida, a língua é o português. Então os estrangeiros precisam se adequar a essa situação. Agora a linguagem internacional acadêmica utiliza o inglês como já utilizou o latim e o francês no passado. Então, acho que não precisa haver um rigor excessivo, porque muitas publicações exigem textos na língua inglesa. Por exemplo, eu não vejo porque não poder apresentar um trabalho ou defender uma tese em inglês. Acho que isso é possível.

Dada a diversidade de metodologias, até que ponto os rankings internacionais podem ser realmente considerados o termômetro da internacionalização?
Os rankings são muito variáveis. Eles analisam aspectos diferentes: inserção social, número de formandos, número de doutores, número de trabalhos publicados, impacto dos trabalhos publicados, etc. Ainda assim, eu considero que eles são termômetros da internacionalização. Mas o sentido de se iniciar um processo de internacionalização não pode ser a busca de uma boa colocação nos rankings. Eu defendo a internacionalização porque ela é necessária. Eu não sustento meus argumentos em função de ranking. Agora se você pegar todos os rankings e a UFMG estiver fora de todos eles, alguma coisa em termos de visibilidade internacional e inserção acadêmica internacional está acontecendo. E aí tem que ver o que é? Pode ser porque tem pouco professor internacional, porque tem pouco vínculo com aluno, porque tem má qualidade acadêmica, etc. Tem que fazer um diagnóstico preciso para podermos agir.

A perseguição desenfreada por uma boa colocação nos rankings pode prejudicar a universidade?
Mas isso já prejudica demais. As pessoas acham que vida acadêmica é ficar somando número de trabalhos. E tem gente que publica inúmeros artigos, sem haver uma preocupação intensa e contínua com a qualidade e a relevância social do estudo. E aí existe uma questão que prejudica o Brasil. Não se pode publicar qualquer coisa nas revistas nacionais e deixar os bons trabalhos somente para as publicações lá de fora. Também não pode haver uma dedicação exagerada a linhas de pesquisa atreladas a coisas que estão na moda. Porque tem gente que não pesquisa o que é necessário e sim o que é modismo. Quem é que tem que controlar isso? A sociedade. O sujeito quer estudar algo que não tem relevância social? Ele tem todo o direito, mas não vai ter financiamento e nem bolsa. Se quiser, faça por conta própria.

Leia o primeiro bloco da entrevista:
“Internacionalizar é investir em nós mesmos”

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`Internacionalizar é investir em nós mesmos´

Publicado em Entrevistas
15 de setembro de 2011

Abrir a instituição para o mundo é um investimento com retorno garantido. Essa é a opinião do professor Manoel Otávio da Costa Rocha, um defensor do processo de internacionalização da Faculdade de Medicina da UFMG. O desafio, porém, não é tarefa simples e passa pela ampliação do intercâmbio estudantil, pela diversificação do corpo docente, pela melhoria da infraestrutura, pelo estabelecimento de estratégias de divulgação internacional, etc.

A edição de setembro do Saúde Informa, boletim informativo da Faculdade de Medicina, traz um resumo da entrevista concedida pelo professor sobre o assunto. Aqui, publicamos a íntegra desta conversa, dividida em dois blocos. (Leia no segundo bloco: “Professores estrangeiros são atraídos por boas condições”)

 

Qual é a importância de desenvolver um processo de internacionalização das universidades brasileiras?
Internacionalizar é investir em nós mesmos. Quando estabelecemos contato com outros modos de trabalhar, de encarar a disciplina do estudo e de desenvolver o profissionalismo acadêmico, nós também criamos um ambiente acadêmico mais fértil. Então, mesmo que nós tenhamos núcleos de excelência, não significa que podemos nos fechar pro mundo. Pelo contrário, o trabalho se desenvolve mais quando estabelecemos parcerias. Não defendo uma ação subserviente. Não se pode aceitar a condição de simplesmente fornecer os dados para eles fazerem estudos. A internacionalização é uma troca, uma parceria acadêmica.

Considerando o atual panorama da UFMG, esse processo de internacionalização passaria por quais medidas?
O ponto central da internacionalização da UFMG passa pelo intercâmbio de alunos, de professores e do conhecimento. A nossa política tem que ser de mandar pra fora todo mundo que quiser. Na minha visão, sempre houve dificuldade de se criar e manter na graduação um programa institucionalizado e ordenado de intercâmbio. Na pós-graduação, o quadro é um pouco mais favorável. A UFMG tem cursos de excepcional qualidade como o de Demografia, de Física, de Literatura, de Bioquímica, de Fisiologia e de Microbiologia. Esses cursos têm nota 6 ou 7 da Capes e são de padrão internacional. Aqui na Faculdade de Medicina, nós temos dois cursos de padrão internacional: a Saúde Pública e a Medicina Tropical. E nesses cursos, nós recebemos alunos estrangeiros: angolanos, moçambicanos, argentinos, etc. Mas ainda assim, são muito poucos.

Segundo dados da imprensa, as grandes universidades dos EUA como Columbia, Harvard, Stanford e Cambridge possuem cerca de 20% graduandos e pós-graduandos estrangeiros. No Brasil, as universidades que mais recebem estudantes de outras nacionalidades possuem em torno de 2%. A que razão se pode atribuir essa diferença?
Eles têm esta abertura porque há interesse acadêmico, político e também econômico. Se você estuda Radiologia na Alemanha, qual equipamento radiológico você vai usar quando voltar pro Brasil? Siemens, claro! Isso acontece, mas eu acho que nós temos que cultivar também o princípio de fraternidade e solidariedade, sobretudo com os países de língua portuguesa: Timor Leste, Moçambique, Cabo Verde, etc. Nós temos obrigação moral com esses países em função da importância deles na formação étnica e cultural do Brasil. Temos que ter essa vontade política. Obviamente também existe o interesse acadêmico nessa relação. Angola, por exemplo, é um país rico de recursos naturais, mas não tem recursos humanos. Isso precisa ser desenvolvido pela academia. Ao dar essa contribuição, nós aumentamos a expressão da UFMG.

E qual a melhor estratégia para aumentar o número de alunos estrangeiros nas universidades brasileiras?
É preciso ter mais visibilidade, mostrar o portfólio, a qualidade do corpo docente, as linhas de pesquisa, o tamanho da universidade, etc. Tem que investir em divulgação. É isso que Harvard faz. O nosso site, por exemplo, tem que ter versões em inglês, espanhol e português. A diretoria da Faculdade já está cuidando disso. Mas é essencial também criar condições mais propícias. Nós não oferecemos curso de português e nem de inglês para alunos estrangeiros. Não temos seguro-saúde e seguro-odontológico. A Fundação Mendes Pimentel (Fump) ainda não tem uma articulação pra oferecer isso. Mas eu não tenho dúvidas de que isto ainda será feito, porque estamos num momento de ampliação da consciência.

Num país onde menos de 20% dos jovens ingressam nas universidades, preocupa iniciar um processo de abertura de vagas para estrangeiros sem antes promover a inclusão da nossa própria juventude?
Sabe quantos estudantes universitários tinham no Brasil em 1964? 60 mil. Sabe quantas temos hoje? 6 milhões. Isso foi o que aconteceu com as universidades brasileiras. Agora, é claro que existem as distorções: a maior parte do crescimento se deu através de cursos particulares com qualidade discutível. Mas nós crescemos exponencialmente. E assim também ocorreu com a pós-graduação, que foi sendo desenvolvida a partir da década de 70. Hoje nós soltamos 10 mil doutores por ano, mas não há mercado pra eles. Há pouca inserção no mercado de trabalho e na produção tecnológica. Porque ser doutor não é simplesmente ter um título na mão, mas ter qualificação para a pesquisa. Agora onde eles vão desenvolver pesquisa? É preciso uma indústria que produza. É essencial uma articulação entre a universidade e a indústria. E aí nós não vamos nos preocupar com inovação tecnológica? O que eu estou querendo dizer é que os problemas são variados: o acesso ao ensino superior, a ampliação do nosso parque industrial, a internacionalização das universidades. O desenvolvimento nacional depende do enfrentamento de todas estas questões simultaneamente. Não são contraditórias.

A política de diversas grandes universidades envolve a concessão de bolsas de estudo aos estrangeiros. Qual é o retorno de oferecer bolsas de estudo pra uma mão-de-obra que não irá atuar no país?
Eles vão usar os seus produtos e também serão agentes da sua cultura. O estudante que cria um vínculo no Brasil automaticamente vira um agente cultural, faz propaganda, ajuda a abrir portas e oportunidades para o nosso país. Isso tem impacto do ponto de vista político, econômico e acadêmico. Basta ver o respeito internacional que a França tem na área de Farmácia ou que a Alemanha tem na área de Radiologia. Esse respeito foi conquistado também pela capilaridade das instituições. Eles recebem gente de todos os lugares do mundo. Isso é investimento dos mais baratos.

Qual o principal ganho pro ensino de se ter, nos departamentos, professores de diferentes origens?
Não podemos ter endogenia demais. Nós temos valorizar as boas pessoas que se formam aqui. Mas também é importante balancear as equipes com gente de fora. Muitas boas universidades se caracterizam por essa diversidade. Elas não estão preocupadas com a origem dos professores. Pode ser coreano, indiano, japonês, islâmico, etc. Desde que o professor seja bom, pode ser qualquer um. Grande parte do desenvolvimento dos EUA foi devido a essa política. Mesmo em momentos de acirrada disputa política, os EUA foram pragmáticos e aceitaram pesquisadores de ponta vindos de países considerados inimigos. O Canadá é outro exemplo. Eles pegam produto formado de várias partes do mundo. Já imaginou quanto custa para o país formar um professor doutor experiente e com linha de pesquisa estabelecida? Então o Brasil precisa valorizar os seus docentes e, ao mesmo tempo, estimular a vinda de professores estrangeiros. Isso pode ser feito de diversas formas. Por exemplo, nós estamos com uma professora da pós-graduação em Medicina Tropical lá no Massachusets General Hospital, que fica em Boston e é um dos principais hospitais do mundo. Ela foi conhecer uma ecocardiografia tridimensional e foi aprender métodos de estudos estatísticos. Mas sabe qual o principal ganho? O estabelecimento de vínculo. Porque pode ser que, no ano que vem, ela consiga convidar alguém para vir à UFMG. E aí, ao invés de ensinar um professor, irão ensinar quatro ou cinco de uma só vez. É muito melhor.

Leia o segundo bloco da entrevista:
“Professores estrangeiros são atraídos por boas condições”

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Os benefícios do vinho para a saúde

Publicado em Entrevistas
30 de junho de 2011

Aquela máxima “tudo que é bom faz mal” pode ser aplicada em várias situações que envolvem comidas e bebidas, mas definitivamente não é o caso do consumo de vinho. Saboroso, ele também está associado a reações saudáveis no corpo, como aumento do HDL e redução na incidência do câncer.

Júlio Anselmo é médico, enófilo e ex-professor da Faculdade de Medicina da UFMG.

Sobre esse assunto, o médico, enófilo e ex-professor do departamento de Morfologia, Júlio Anselmo de Souza Neto falou à Faculdade de Medicina, onde ele ministra, nesta semana, um curso de 12 horas de iniciação ao vinho.

Quais foram os impactos, no Brasil, da descoberta de benefícios para a saúde do consumo de vinho?

Independentemente das descobertas dos benefícios do vinho, noto que as pessoas, no Brasil, estão consumindo mais essa bebida. Hoje, sempre que vamos a algum bar, vemos o vinho sendo consumido em algumas mesas. Mas, sem dúvida, a descoberta que algumas substâncias fazem bem à saúde também contribuiu para o aumento do consumo. Mas eu sempre digo que se deve beber vinho pelo prazer. O benefício é um complemento.

E quais são esses benefícios do vinho comprovados cientificamente?

São vários, mas todos são obtidos pelo consumo moderado. Isso equivale a uma, duas taças por dia, em média, cerca de 500 ml. Uma das primeiras descobertas é que, em pequenas quantidades, o vinho melhora o HDL do corpo, que é o bom colesterol. Ele contém também os polifenóis, que são substâncias, presentes na uva, que mantêm a atividade celular. Ou seja, diminuem a morte das células e também evitam as reações de oxidação maléficas. O consumo moderado, portanto, está relacionado com a longevidade. Há pesquisas que mostram que, em áreas de consumo de vinho, há menor incidência de câncer, de osteoporose, principalmente em mulheres no período depois da menopausa, e alzheimer.  Esses polifenóis também têm um efeito importante pois evitam a coagulação do sangue. Há uma redução do índice de mortalidade por infarto e doenças cardiovasculares. Na França, por exemplo, onde é grande o consumo de vinho, o índice de infarto é muito menor que em outras regiões do mundo.

E quais os problemas que o consumo de vinho pode acarretar?

Com exagero, o consumo de vinho tem vários malefícios, ligados ao álcool. Há doenças gravíssimas, como a cirrose, por exemplo. São doenças hepáticas, cardíacas, sem falar em aumento da agressividade, violência, acidentes de trânsito. Também há aumento do índice de vários tipos de câncer, problemas ao feto em mulheres gestantes. Gera exatamente o efeito oposto ao consumo moderado.

Há diferença, para a saúde, do consumo de vinho branco e tinto?

Os polifenóis estão presentes, principalmente, na casca e na semente de uva. O vinho branco é feito só com o suco da uva, então tem bem menos polifenóis. Já o vinho tinto, que obtém aquela cor pela casca da fruta, tem bastante concentração dessa substância. A proteção é bem maior.

Há contra-indicações para o consumo de vinho?

A ingestão de vinho deve ser feita por pessoas com boas condições de saúde. Pessoas com problemas hepáticos, diabetes, intolerância ao álcool, alterações metabólicas não devem tomar.

 

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Adélia Prado debate humanização da saúde

Publicado em Centenário, Entrevistas
24 de março de 2011

Autora de mais de mais de 20 obras literárias e reconhecida como importante escritora do feminismo, Adélia Prado foi modesta ao falar sobre a conferência “Humanização da Saúde”, que vai proferir no dia 28 de março como parte das comemorações do Centenário da Faculdade de Medicina da UFMG. “Eu pretendo muito mais promover uma discussão do que levar uma ideia pronta”, afirmou.

Adélia Prado em palestra para o "Saúde & Cultura", da Faculdade de Medicina da UFMG, em 2008.

Em entrevista por telefone, a escritora, mineira de Divinópolis, adiantou algumas das propostas do debate. À Faculdade de Medicina, onde já esteve em outras ocasiões, referiu-se como “um espaço privilegiado”. Confira a entrevista na íntegra.

Muito se fala sobre a humanização da saúde. O que seria isso, na prática?

É, na verdade, o problema da humanização da medicina pela arte. A ideia é debater a necessidades dos profissionais da saúde de fazerem e terem experiências simbólicas pela arte. Que eles busquem um sentido mais humano na profissão, e não apenas utilitário.

Quais os prejuízos de uma prática médica pouco humanista?

Não é só para a medicina, mas para qualquer profissão. Estamos vivendo em um contexto social que descarta qualquer valor simbólico, experiências transcendentais. Os profissionais estão buscando significados momentâneos que não vão produzir sentido total para a vida.

Como é possível promover a formação de um médico mais humano e sensível aos pacientes dentro das instituições de ensino?

Incluindo disciplinas humanas, estudos de arte. É uma mudança de currículo e de comportamento pedagógico completamente possível. E que depende, claro, de uma decisão política também.

Qual pode ser o papel da Faculdade de Medicina da UFMG para a humanização da saúde?

A Faculdade de Medicina é um espaço privilegiado para discutir esse assunto. Trata-se de uma classe (médica) que tem enorme poder sobre comportamento, felicidade das pessoas. Eu pretendo muito mais promover uma discussão do que levar uma ideia pronta.

A conferência “Humanização da Saúde”, pela escritora Adélia Prado, será realizada no dia 28 de março, às 19h30, no Minascentro, que fica na avenida Augusto de Lima, 785, Centro – Belo Horizonte/MG. A entrada é franca, aberta ao público. O evento contará ainda com apresentação do grupo musical “Amaranto”.

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Cem anos nas páginas de um livro

Publicado em Centenário, Entrevistas
07 de fevereiro de 2011

Já faz praticamente um ano que o texto do livro “Medicina – História em Exame” está pronto, guardado na gaveta à espera apenas de retoques finais. O atraso no lançamento, porém, foi por um bom motivo: as comemorações do centenário da Faculdade de Medicina da UFMG, em 2011.

Pedro Nava, médico e escritor, formou-se na Faculdade de Medicina da UFMG em 1927

No dia 14 de março, a edição será finalmente conhecida pelo público, que terá a oportunidade de saber um pouco mais da história do curso de Medicina da UFMG,  responsável pela formação de mais de 15 mil médicos em Belo Horizonte.

Heloisa Maria Murgel Starling, professora do curso de História, e uma das três organizadoras do livro, falou sobre a publicação e adiantou alguns dos relatos presentes no texto.

Como surgiu a idéia do livro “Medicina – História em Exame”?

Há alguns anos, criamos uma coleção de memória para a UFMG. A ideia era recuperar a história das unidades. Fizemos um livro com a história do Campus, que é chamado “Cidade Universitária”. Também tivemos livros sobre as faculdades de Odontologia e Farmácia. O da Medicina faz parte da coleção. A redação ficou pronta em 2010, mas achamos mais interessante lançá-lo no ano do centenário.

Como foi o trabalho de elaboração do livro?

Foram três organizadores que trabalharam na recuperação da história da Medicina. Temos uma panorama de Minas Gerais e o percurso da Faculdade no século XX. A novidade é que, para o livro de Medicina, convidamos pessoas de várias áreas para abordar alguns temas que fizeram parte da história do curso. Temos a professora Eneida Maria de Souza, por exemplo, que escreveu sobre Pedro Nava. Temos relatos da passagem de Madame Curie pela Faculdade e o período em que  Juscelino Kubitschek esteve aqui. Eu mesma fiz de Guimarães Rosa.

Guimarães Rosa entrou no curso de Medicina em 1925. Como foi recuperar informações sobre esses anos na vida do médico/escritor?

Foi bastante interessante porque não existia quase nada sobre o período que ele passou em Belo Horizonte como aluno da Universidade. Descobrimos fatos inéditos e até fotos do dia de sua formatura, que estavam com o filho de um médico que foi da turma de Guimarães Rosa.

A senhora pode nos adiantar alguma história interessante do livro?

Soubemos, por exemplo, que havia uma loja no centro da cidade que expunha fotos dos alunos que estavam formando no curso de Medicina. As moças passavam e, pelas imagens, elegiam pretendentes para tentar namorar.

Ao organizar esses cem anos de história, algum aspecto do curso de Medicina lhe chamou atenção em especial?

A grande marca da escola de Medicina da UFMG é a sua dimensão humanista. O foco não é somente a doença, e sim os seres humanos. O curso mobiliza, ensina a prestar atenção nas pessoas.

Medicina – História em Exame

Organizadores:

Heloisa Maria Murgel Starling

Lígia Beatriz Paula Germano

Rita de Cássia Marques

Tiragem: mil exemplares

Os livros estarão disponíveis nas lojas da UFMG. O preço ainda não foi definido.

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