Ano - 1954. Era Nacionalismo. Era Vargas. Renasce o movimento estudantil. Belo Horizonte.
Avenida Professor Alfredo Balena. Faculdade de Medicina. Diretório Acadêmico.

O estudante do 5° ano José Geraldo Dângelo - Jota Dângelo - fôra convidado por seu amigo e
presidente do Diretório Acadêmico (DAAB) José Menotti Gaetani, para um inédito Festival
Medicina; disposto à empreender atividades culturais e raptar o estudante desempregnando-o
da vida acadêmica, envolvendo-os com uma aura de mundo...

Naquela época Jota Dângelo e José Menotti Gaetani conheceram um professor paulista, Jõao
Afonso Di Dio, que sabendo das inovadas pretrensões artísticas do grupo, discorreu
longamente sobre um certo espetáculo que os estudantes da USP faziam em São Paulo: O
Show Medicina.

O caminho estava aberto. Tratava-se de fazer um Show com alunos e alunas da Faculdade,
sobretudo sobre temas médicos e estudantis.

O primeiro Show Medicina foi regado à inexperiência e dificuldade: pouco tempo disponível,
pouco dinheiro, textos (escritos pela própria equipe), poucos integrantes do sexo feminino e a
resistência preconceituosa da época em relação ao teatro e seus militantes. Contudo, estreou e
deu certo. Já no seu segundo ano, o Show ganhou uma aquisição: Angelo Machado; e o que se
seguiu foram os filhos de um casamento feliz: 7 anos ininterruptos de surrealismo
humorístico. Os nossos protagonistas então em 1962 partiram para suas carreiras científicas,
entretanto; prepararam substitutos.

O Show seguiu então até 1976. Apenas a arbitrariedade da ditadura e a prepotência da censura
nos angustiados anos 70 conseguiu interrompê-lo. Em 1977, totalmente vetado pela censura, os
diretores, cansados de tanto lutar contra moinhos de vento, cancelaram o Show Medicina.

Paralelamente, em 1971 foi criado o Show Anatomia, apresentado semestralmente ao final do
curso de Anatomia, um "filho do Show Medicina". Em 1986, os participantes do Show
Anatomia de 1985, com ajuda de Carlo Americo Fattini e Júlio Anselmo Souza Neto,
professores da Escola e ex integrantes do Show Medicina, retomaram o vulcão adormecido e o
Show Medicina dirigido e encenado apenas por estudantes apresentou no Teatro Marília.

É preciso dizer que o evento não tem pretensões profissionais ou de ordem estética. É um grupo
de teatro amador que se entrega ao exercício da criação para criticar seu próprio habitat e a si
mesmos. Todo o Show é produzido e executado por estudantes da Faculdade de Medicina:
desde a confecção de cartazes e textos até iluminação, som, maquiagem, figurino e
apresentação. As críticas, sob um tênue véu humorístico, são por incrível que se possa
parecer, atuais desde 1954, e o Show Medicina tem solo fértil para muitas outras questões
da "atualidade". O Show é assim ao mesmo tempo instrumento de conscientização e
pura diversão.

Hoje, cabe a nós reafirmar a atitude contestadora e rebelde do estudante. Atraídos seja pelo
simples prazer da contravenção ou contestação; seja por ambições artísticas, ou mero
mecanismo valvular de escape às tensões, somos um grupo com cerca de 100 pessoas rumo à
próxima abertura de cortinas, sob a luz colorida dos palcos, embebidos à maquiagem e
fantasia. Ao fechar a cortina, fechamos também nossos olhos e nos deliciamos com o resultado
e objetivo de um ano de preparações e espera: o riso e o aplauso.