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Coronavírus: O SUS está preparado?

Especialista avalia como pandemia impacta o sistema de saúde e dá dicas aos profissionais que vão ter que enfrentar a doença


23 de março de 2020 - , , , , ,


Mais de 1500 casos de COVID-19 foram confirmados no Brasil até o dia 22 de março. O país também já confirmou 25 mortes pelo coronavírus. Os dados são do Ministério da Saúde e mostram que a doença está chegando no Brasil. Os números, por enquanto, são menos preocupantes que os dos países da Europa (para se ter uma ideia, na Itália, são mais de 46 mil casos confirmados e 5476 mortes), mas os especialistas já se preparam para a chegada da doença no país.

Para o infectologista e professor do Departamento de Clínica Médica, Unaí Tupinambás, os profissionais da atenção primária à saúde, porta de entrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), são os “heróis e heroínas anônimos contra o coronavírus, que vão combater, enfrentar e nós vamos ganhar dessa epidemia”. Ele destaca que esses profissionais precisam tomar um cuidado maior para não se infectarem.

“A equipe tem que estar bem forte e preparada para enfrentar as próximas 12 a 24 semanas que vão ser de trabalho intenso. A gente pede para todo mundo se proteger, eles são os craques do time, digamos assim. Eles não podem adoecer, não podem quebrar uma perna não podem machucar, não podem ter contusão. A equipe de saúde tem que se cuidar muito para poder cuidar da população”, aconselha.

Para isso, o uso do equipamento de proteção individual é essencial. “Quando a epidemia estiver estabelecida, quem vai atender diretamente o paciente deve usar óculos, máscara, luva, gorro e capote”, indica o professor Unaí. Ele explica, ainda, que cada unidade de saúde deve estabelecer um protocolo que determina, dentre outras coisas, o fluxo de atendimento. Essa orientação deve complementar o Ministério da Saúde, que tem o Protocolo de Atendimento de Abordagem da Síndrome Gripal na Atenção Primária à Saúde. “Cada equipe, cada posto, vai ter um fluxo de atendimento, inclusive quem vai para casa, no isolamento domiciliar, quem vai ser encaminhado para a upa ou para observação, quem vai ser encaminhado para voltar amanhã, por exemplo. A gente já trabalhou isso no H1N1 e trabalha com a dengue. É estratificar o risco”, detalha.

O professor informa, ainda, que o pico do coronavírus deve coincidir com o da gripe. “Ainda não chegou no pico da doença, muitas cidades ainda não tem nenhum quadro. Nós também não chegamos no pico da influenza. Nós temos que discutir essas duas coisas: além do coronavírus, a partir do dia 15 de abril, vai começar a síndrome gripal comum, a sazonal e a H1N1. Então, nesse outono e nesse inverno, as equipes, junto com a comunidade, vão ter que discutir o fluxo de atendimento”.

Funcionamento das unidades

O professor Unaí Tupinambás destaca que as unidades de saúde devem continuar com o atendimento: “Esse é um lugar que não pode parar. Nós [profissionais de saúde] temos que nos proteger bem e enfrentar essa epidemia de frente”. O especialista completa que os casos emergenciais devem ser priorizados. “Talvez, algumas consultas eletivas – de controle de pressão, de diabetes mellitus, de puericultura, por exemplo –, poderão ser adiadas, se não for algo urgente. As receitas vão ser estendidas, não precisa renovar a receita… isso tudo está sendo discutido”, esclarece.

Além disso, há uma necessidade de aumentar os recursos governamentais para a saúde.

“Sem o SUS, não tem como enfrentar nenhuma epidemia. O SUS é o ator principal. Para isso, a gente tem que ter insumos, equipamentos, materiais, leitos”, afirma o professor.

“Uma discussão que está tendo na sociedade é a revogação da Emenda Constitucional 95, que limita os gastos públicos. Só no ano passado, foram R$ 9 milhões de corte na saúde. Esse dinheiro já está fazendo falta. Está fazendo falta e é para agora. Nós precisamos abrir leitos, contratar pessoal, abrir leitos de CTI, comprar respiradores para não passarmos o que outros países, como a Itália, estão passando”, desabafa. Até o último domingo, os italianos registraram mais de 5 mil mortes pelo coronavírus.

O que você precisa saber

Para combater a desinformação, o Saúde com Ciência traz entrevista com o infectologista e professor do Departamento de Clínica Médica, Unaí Tupinambás. O especialista dá dicas de como se proteger, desvenda fake news e faz paralelo do COVID-19 com a gripe. Confira.

Ouça a programação da semana:

:: Como se proteger
:: O SUS está preparado?
:: É verdade ou fake news?
:: Como vai ser a doença no Brasil
:: Gripe e coronavírus

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