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Encontro internacional atualiza pesquisas sobre prevenção ao HIV

Projetos de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) do Brasil e África do Sul debateram avanços em evento online.


03 de novembro de 2020 - , ,


Belo Horizonte foi sede do Annual Meeting PrEP Projects Adolescent 2020 – reunião anual de acompanhamento, troca de informações e experiências dos projetos financiados pela Unitaid sobre efetividade da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) em adolescentes. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da UFMG, em parceira com pesquisadores da UFBA e USP, receberam, virtualmente, pesquisadores da Europa e África do Sul para debater políticas públicas em saúde voltadas para a juventude.

Participaram do evento, que ocorreu nos dias 29 e 30 de outubro, representantes do Ministério da Saúde (Brasil), Unitaid/OMS, Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO), Departamento de Saúde da África do Sul, WITS University (África do Sul), Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e pesquisadores brasileiros ligados à PrEP 15-19. 

A Unitaid é uma iniciativa internacional de financiamento de pesquisas em saúde e combate à aids, sediada em Genebra (Suíça) e associada a Organização Mundial da Saúde. Entre as entidades envolvidas estão os governos da França, Reino Unido, Noruega, Brasil, Espanha, Coreia do Sul, Chile e a Bill & Melinda Gates Foundation

O anfitrião do evento, professor Emérito da Faculdade de Medicina da UFMG, Dirceu Greco, lembrou o motivo do evento ser virtual. “A covid atingiu o mundo todo, especialmente o Brasil. São 156 mil mortos e cinco milhões de infectados. São várias crises: sanitária, econômica, ética, social”, disse, abrindo discussões sobre lições aprendidas durante a pandemia de covid-19.

Captura de tela do primeiro dia de evento, via Zoom. Debates sobre lições aprendidas e atualização de dados marcaram programação.

De forma geral, as iniciativas do Brasil e da África do Sul tiveram que descentralizar pesquisas e adaptar serviços, usando telemedicina, consultórios móveis, treinamento de pessoal, entre outras ações. “O estabelecimento de normas de forma rápida e apropriada, foi muito bom para nós. Intensificamos uso de plataformas online para ligar clientes aos serviços. Produzimos informações para pessoal de campo e clientes. Treinamos nosso pessoal sobre prevenção à infecção, aplicamos zoneamento, entregamos a medicação em casa”, conta Saiqa Mulick, diretora da área no Departamento de Saúde da República da África do Sul.

“Precisamos começar a descentralizar o serviço. Continuar inovando: unidades móveis do lado de fora das clínicas e pensar em novos acessos para a população”, ressalta Saiqa.

No Brasil, as medidas de prevenção à covid-19 incluíram reformulação do chatbot Amanda Selfie para atuação no whatsapp, consultas à distância e transporte via aplicativo para deslocamento de participantes. “Em março decidimos manter as clínicas como serviço essencial na pandemia, já que os adolescentes não pararam de fazer sexo. Dessa forma, teleconsultas foram implementadas e vieram para ficar”, afirma a professora Inês Dourado, coordenadora do estudo em Salvador. Os dados da pesquisa mostram que 60% dos participantes – adolescentes entre 15 e 19 anos – tiveram encontros sexuais durante a pandemia.

A profilaxia pré-exposição no Brasil

O Ministério da Saúde apresentou números sobre o uso de PrEP no Brasil, que já oferta o serviço de prevenção, via SUS, desde 2017 para pessoas com 18 anos ou mais. São 211 serviços que dispensam o medicamento, com 14.252 usuários ao redor do país.

O perfil dos usuários adultos é de pessoas com 12 ou mais anos de estudos, entre 30 e 39 anos, brancas, gays ou outros homens que fazem sexo com homens (HSH). Como a descontinuidade do tratamento é maior nas faixas de idade iniciais, há maior preocupação com o uso entre adolescentes. 

“A adesão parece ter um componente de idade, com melhor adesão entre pessoas mais velhas. Por outro lado, na última pesquisa feita descobrimos que os jovens usavam muito mais preservativo do que os mais velhos, mas parece que agora os dados tendem a se igualar”, relata Ana Roberta Pati Pascom, representante do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério.

Para conferir dados completos acesse: www.aids.gov.br/pt-br/painel-prep

Construindo a política pública

Um dos objetivos das pesquisas com o uso combinado da PrEP entre adolescentes é pautar formuladores de políticas públicas com evidências científicas sobre a efetividade da estratégia. Nesse sentido, as experiências brasileira e sul-africana são acompanhadas por especialistas na análise econômica da viabilidade dos projetos.

Andreia Costa Santos, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, conduz pesquisa sobre custo-efetividade da PrEP no Brasil. Para chegar a indicadores, serão analisados o consumo de testes, de medicamentos, mão de obra, orçamento do Ministério da Saúde, entre outros. “Potencialmente vamos avaliar quando a PrEP se torna uma economia para o SUS”, explica a pesquisadora, que atua no campo da economia da saúde.

Essa análise levará em conta o custo médio do tratamento, do diagnóstico de HIV/aids, e a relação de custo-efetividade para prevenção em cada faixa etária. Será feito um modelo analítico de decisão computacional para entender horizontes de tempo e parâmetros. 

Na mesma linha, Diantha Pillay apresentou os estudos em andamento de custo-efetividade do projeto na África do Sul. No país, é “importante avaliar os custos das unidades móveis e as diferenças de manutenção entre os clusters”, em diferentes estados, afirmou. No país, foi desenvolvida uma ferramenta com base no Microsoft Excel com funções de estimativas de exames, entre outros custos. Na tabela, entram custos anualizados, por cada visita e por pessoa/mês em uso de PrEP.

O que é a PrEP 15-19?

O projeto PrEP 15-19 é uma pesquisa que avalia o uso da Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP) como parte da chamada prevenção combinada, através do uso diário de dois antirretrovirais associados em um único comprimido (tenofovir+emtricitabina) entre jovens de 15 a 19 anos que se identificam como gays, homens que transam com homens, mulheres trans e travestis. 

No Brasil, o estudo multicêntrico é realizado pela UFMG, USP e UFBA e com financiamento da OMS/Unitaid e Ministério da Saúde. Na capital mineira, as atividades ocorrem principalmente no Centro de Referência da Juventude (CRJ), em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte.

Durante participação no segundo dia do evento, o pesquisador da Universidade de São Paulo e membro da equipe do projeto PrEP 15-19, Alexandre Grangeiro, apresentou o perfil dos jovens que se apresentam para o estudo no país. Em sua maioria, são homens cis, pessoas negras e aquelas em maior vulnerabilidade social. Cerca de 42% dos jovens estão inseridos no mercado de trabalho e maior parte deles tem elevado grau de escolaridade: estão no ensino superior ou no ensino médio.

Captura de tela/evento no Zoom. Segundo dia de programação contou com apresentações sobre recrutamento, acesso ao projeto e retenção dos participantes.

A vulnerabilidade social e questões relacionadas ao cotidiano desses jovens têm se mostrado um fator importante para casos de desistência do uso da PrEP. “Muito têm uma rotina que dificulta a permanência ou vinda aos serviços”, reforça Alexandre Grangeiro, coordenador do estudo em São Paulo. Por isso, ele acredita ser necessário testar técnicas para simplificar o uso da PrEP, como a entrega do medicamento descentralizada dos serviços de saúde.

Os jovens que se apresentarem para o estudo também podem optar em não fazer o uso da profilaxia pré-exposição. Independentemente da opção, todos são acolhidos e tratados em caso de algum diagnóstico de Infecção Sexualmente Transmissível (IST). Em Belo Horizonte, esse acompanhamento ocorre no Centro de Treinamento e Referência em Doenças Infecciosas e Parasitárias Orestes Diniz (CTR-Orestes Diniz).

“O projeto PrEP 15-19 tem se mostrado uma oportunidade também para ajudar a diagnosticar e tratar ISTs. Cada participante que recebe algum tipo de diagnóstico é tratado”,

reforça o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Mateus Westin, que conduziu a apresentação “IST, eventos adversos”.

Dados de entrada e de acompanhamento do projeto mostram que a população adolescente participante do estudo tem risco acrescido de infecção pelo HIV e sífilis, especialmente.

Para todes

Além do teste para diagnóstico de HIV (feito no local ou com o autoteste) e a outras ISTs, todos os participantes têm acesso à informação adequada, recebem camisinha, lubrificante, aconselhamento e vacinação contra as hepatites A e B.

Por isso, para o professor Dirceu Greco, é importante a manutenção dos participantes que optam por não usar a PrEP também como política em saúde. “É importante mantermos todos os participantes para acompanhamento da prevenção e discussão dos direitos. Na própria UFMG, existe o Projeto Horizonte que acompanha essa população”, completa.

Para participar, interessados podem entrar em contato pelo o whatsapp do projeto (31) 9 9726-9307 ou instagram @nodeumatch. A assistência virtual Amanda Selfie também pode ajudar! É só chamá-la para conversar pelo site (Prep1519.org), Facebook (@amandaselfie.bot).

Leia mais: PrEP 15-19 completa um ano e fortalece atuação no meio digital durante pandemia


Com Comunicação da PrEP 15-19 Minas (Atualizada e 4/11/2020 às 13h15)