Estudo testa PrEP mensal para prevenção do HIV
Pesquisa de fase 3 avalia novo antirretroviral de uso mensal e conta com participação da Faculdade de Medicina da UFMG
02 de fevereiro de 2026 - HIV, PrEP, Uso mensal

A Faculdade de Medicina da UFMG participa de um estudo internacional para avaliar a eficácia de um novo medicamento para prevenção da infecção pelo HIV. O estudo em andamento avalia o MK-8527, desenvolvido pela farmacêutica Merck, como alternativa de profilaxia pré-exposição (PrEP) oral e mensal ao HIV. A pesquisa compara o medicamento com o de uso diário tradicional (FTC/TDF), amplamente utilizado na prevenção do HIV e já disponível no SUS.
A PrEP é uma estratégia reconhecida por reduzir de forma significativa o risco de infecção pelo HIV. Atualmente, estão disponíveis a PrEP oral de uso diário e a PrEP injetável, aplicada a cada dois ou seis meses. No entanto, ainda não há comprimidos de uso mensal aprovados para prevenção da infecção.
Na UFMG, o estudo é liderado pelo professor Jorge Andrade Pinto, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina (PED), em parceria com os professores Mateus Westin e Júlia Caporali, do Departamento de Clínica Médica (CLM) e da professora Flávia Ferreira (PED).
Os resultados iniciais mostram dados de cinco estudos clínicos de fase 1 e um estudo de fase 2, que envolveram 431 voluntários, vivendo ou não com HIV. Eles demonstraram que o MK-8527 é altamente potente contra o vírus, apresenta baixa toxicidade e possui longa meia-vida no sangue — ou seja, permanece no organismo por tempo suficiente para inibir o HIV com apenas uma dose mensal.
“Essas características fazem do medicamento uma forte candidata a ampliar as opções de prevenção, oferecendo mais praticidade e potencialmente melhor adesão ao uso”, enfatiza o professor Jorge Pinto.
Este é o primeiro estudo de fase 3 que irá investigar a eficácia do MK-8527 administrado mensalmente, em comparação com a PrEP oral diária, na prevenção da infecção pelo HIV.
Segundo o professor, a PrEP oral mensal representa uma nova modalidade de medicamentos de longa duração, até então disponíveis apenas em formulações injetáveis. “Se a eficácia for comprovada, essa estratégia vem somar às opções já existentes, ampliando a flexibilidade de escolha para os usuários”, explica.
Os dados epidemiológicos mostram que, mesmo com os avanços na prevenção e no tratamento, novas infecções por HIV ainda se concentram em populações com diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, reforçando a necessidade de estratégias preventivas mais eficazes, acessíveis e adaptadas às realidades dos usuários.
Impacto no sistema de saúde
Além da eficácia clínica, a PrEP mensal também pode trazer benefícios do ponto de vista econômico. Uma pílula mensal tende a ter custo menor do que o tratamento diário e pode favorecer a adesão, um dos grandes desafios das estratégias preventivas.
No entanto, os pesquisadores destacam que a custo-efetividade real da tecnologia dependerá da sua disponibilização a preços acessíveis, especialmente em países de baixa e média renda, onde se concentra a maior parte das novas infecções por HIV no mundo.O estudo atual tem duração prevista de cerca de três anos. Para o professor Jorge Pinto, o futuro da prevenção passa por ampliar as possibilidades de escolha. “O ideal é que a PrEP se adeque ao estilo de vida, às condições socioeconômicas e ao acesso aos serviços de saúde de cada pessoa”, afirma.
Entre os desafios para tornar essa estratégia amplamente disponível, estão o estímulo ao licenciamento voluntário e a transferência de tecnologia por parte das farmacêuticas, ações fundamentais para garantir acesso sustentável em regiões mais vulneráveis à epidemia do HIV.
O futuro do estudo
A pesquisa já está em andamento na UFMG, por meio da Unidade de Pesquisa em Vacinas (UPqVac) da Faculdade de Medicina, que já concluiu a triagem do primeiro grupo de voluntários. A previsão é que os testes se iniciem ainda em janeiro.