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Faculdade de Medicina passa a oferecer aos alunos toucas descartáveis específicas para cabelos volumosos

Demanda surgiu da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Racismo e visa evitar constrangimentos a alunos negros, com distribuição de EPIs adequados à diversidade.


28 de outubro de 2021 - , , , ,


A Faculdade de Medicina da UFMG passa a oferecer toucas descartáveis específicas para cabelos volumosos – como os trançados e o black power/afro – a partir do segundo semestre letivo de 2021. O material faz parte dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) disponíveis para alunos que necessitem para uso em aulas práticas.

Foram compradas 800 unidades para o semestre, considerando a demanda levantada por alunos dos cursos de Fonoaudiologia e Medicina. As unidades já estão disponíveis em campos de prática, como no Borges da Costa (Hospital das Clínicas da UFMG) e no laboratório de cirurgia, da mesma forma que as demais toucas descartáveis. Além disso, os alunos de Medicina interessados poderão receber o material junto do kit de EPIs do internato.

A demanda foi levantada por alunos do Grupo de Estudos de Negritude e Interseccionalidades (GENI) e pelo Diretório Acadêmico Alfredo Balena (DAAB), por meio de seus representantes na CPER. “As consequências do racismo institucional no aprendizado de estudantes negros e indígenas é uma das questões cruciais para a criação da CPER. Esse racismo tende a adoecer mentalmente e até expulsar esses estudantes dessa instituição a partir dessas violências cotidianas”, indica Marina Nascimento, acadêmica do sexto período de Medicina e coordenadora da CPER. 

Marina conta que, além de situações constrangedoras, a falta de EPIs que contemplem traços de pessoas negras gera uma sensação de ansiedade pelo desgaste iminente. “Eu, por exemplo, senti isso nas minhas primeiras experiências com EPIs. Passei por isso com black e com tranças, e a sensação foi ‘parece que meu corpo não deveria estar nesse lugar na posição de estudante’”, relata, indicando a sensação de medo e vergonha entre discentes negros nestas situações.

“A CPER se percebeu como uma comissão que poderia sistematizar e reivindicar essa demanda institucionalmente.” 

A professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina e que também atua na coordenação da CPER, Elis Borde, explica que os funcionários dos laboratórios e campos de prática foram devidamente instruídos sobre a distribuição das toucas. “É um avanço importante. Agora devemos garantir que a compra dessas toucas seja realizada de forma regular e que a distribuição seja feita de forma adequada”, afirma. Para a professora, a ação pode incentivar avanços no mesmo sentido em outras unidades da UFMG e em outras instituições.

A Comissão realizou uma consulta aos discentes, com apoio dos Diretórios Acadêmicos, para mensurar a demanda real. Marina destaca a atuação conjunta da CPER com o GENI,  DAAB e o Centro Acadêmico do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da UFMG (CAFono) para a realização desse processo. Os Núcleos Docentes Estruturantes dos cursos também participaram do diálogo. A partir de então, a Superintendência Administrativa da Faculdade realizou esforço para conseguir o EPI de forma imediata, ainda em 2021, uma vez que o item não estava previsto na cesta de produtos orçados para o período. 

O formulário de interesse para refinar a demanda e subsidiar a Comissão com informações para as próximas compras ainda está disponível e pode ser acessado pelos alunos do internato de Medicina clicando aqui. Com o mesmo objetivo, os alunos que fizerem uso irão assinar uma lista ao pegar o EPI. “É importante que todos entendam que o número de toucas é limitado e está sendo fornecido em decorrência da demanda de pessoas negras”, reforça a coordenadora. 

A distribuição e a facilidade de acesso estão sendo monitoradas pela CPER. A expectativa do grupo é que a compra agora seja feita de forma regular pela UFMG. “Eu espero que essa iniciativa fomente a sensibilidade às demandas concernentes à raça pelas pessoas que administram as instituições de ensino. O combate ao racismo e a promoção de equidade são conceitos esvaziados de sentido caso não sejam acompanhados de ações”, completa Marina.

Confira relatos de alunos negros sobre o uso do EPI antes do fornecimento das toucas para cabelos volumosos:

“Minha primeira aula de cirurgia prática e o que era para ser uma experiência agradável, acabou sendo um pouco mais complicada para mim. Isso porque tenho cabelo cacheado e quando fui colocar a touca cirúrgica tive muita dificuldade, demorei mais tempo que os demais alunos e tive que pedir ajuda para colocar, pois a touca convencional é muito pequena e como meu cabelo é volumoso, foi bem complicado. Porém mesmo com ajuda não consegui colocar a touca em todo cabelo, ficaram duas partes para fora, o que acabou me deixando meio constrangido, já que a maioria dos meus colegas conseguiram colocar a touca certinho. Em 2019 quando entrei, esta onda de assumir o cabelo Black cacheado era muito pouca, hoje pude perceber que aumentou o número de pessoas que assumiram seu cabelo natural, o que é muito bom. Porém com isso podemos observar cada vez mais uma necessidade de equipamentos, como as toucas, que atendam às necessidades desses estudantes.” – aluno do quinto período de Medicina.

“Quando me matriculei para cirurgia já fiquei ansiosa pensando em como seria a minha experiência nas atividades práticas de cirurgia. Já sabia que sofreria algum tipo de constrangimento. E, como o esperado, já na minha primeira aula prática na FM, a touca não coube no meu cabelo nem de outro colega com black, e aí o professor chamou atenção porque não estávamos bem paramentados na hora da tão tradicional foto da aula de paramentação… como se fosse uma escolha não estar bem paramentado. Quando tive a primeira aula no Borges, precisei usar 3 toucas. Eu nem sei como explicar como é constrangedor esse tipo de situação. Parece que a gente é anormal. É como se houvesse uma pressão constante para que a gente tente se adequar ao espaço a partir da negação da nossa identidade.” – aluna do sexto período de Medicina.

CPER

A Comissão Permanente de Enfrentamento ao Racismo iniciou seu trabalho em julho de 2020. A comissão é composta por estudantes negras e negros do Grupo de Estudos de Negritude e Interseccionalidades (GENI), estudantes indígenas, técnicos administrativos da Faculdade de Medicina, professores dos cursos da Faculdade de Medicina e representação estudantil, por meio dos Diretórios Acadêmicos.

O objetivo da CPER é propor e acompanhar a aplicação de políticas e estratégias de combate ao racismo na instituição, a fim de garantir o compromisso histórico com a universidade pública, gratuita, inclusiva, de qualidade e diversa. Foram estabelecidos seis eixos iniciais de trabalho:

– Sensibilização da comunidade acadêmica sobre o racismo;

– Ações afirmativas e acesso à universidade;

– Planos de ensino e práticas de ensino;

– Permanência e bem-estar estudantil;

– Articulação institucional transversal com objetivo de combate ao racismo;

– Divulgação de conhecimentos sobre saúde, elaborados pela população negra e pelos povos indígenas.

Conheça mais sobre o trabalho que vem sendo realizado pela CPER: