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Maioria dos adolescentes hospitalizados por violência é homem

Adolescentes do sexo masculino são mais violentados fora do domicílio, enquanto as mulheres sofrem violência dentro de casa.


28 de junho de 2019 - , , ,


*Carol Prado

Um estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da UFMG apontou que, entre jovens de 15 a 19 anos, a hospitalização por motivos de violência é maior em homens do que em mulheres. De acordo com a fisioterapeuta Rebecca Barbosa de Decco Monteiro Marinho, autora do estudo, nas periferias de Belo Horizonte, 77% das hospitalizações foram de jovens do gênero masculino e na cidade formal, que são as áreas planejadas da cidade, a percentagem foi de 80%.

Defendido como mestrado no Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da UFMG, o estudo também revelou que os tipos de violência que acometem adolescentes do gênero masculino e feminino são diferentes.

“Adolescentes do sexo masculino são violentados fora do domicílio, envolvendo brigas com violência física. Já as adolescentes do sexo feminino são violentadas no meio intradomiciliar”, explica a fisioterapeuta Rebeca Barbosa de Decco Monteiro Marinho.

De acordo com Rebecca, um dos fatores que justifica a maioria das hospitalizações masculinas está relacionado ao tipo de violência sofrida. “O tipo de violência em que são envolvidos incluem brigas físicas, armas brancas e, em outros casos, armas de fogo; . O adolescente do sexo masculino chega ao hospital com um diagnóstico mais visível”, explica.

O estudo também apontou que a taxa de crescimento da violência é maior entre adolescentes moradores da cidade formal do que nas áreas de vilas e favelas.  Para a fisioterapeuta, a informação contraria um senso comum. “É um paradigma entender o porquê dessa velocidade”, afirmou, já manifestando a possibilidade de continuação do estudo para investigar essas causas.

A pesquisa foi orientada pela professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG Waleska Teixeira Caiaffa

Metodologia

O estudo investigou as hospitalizações por motivos de violência em hospitais da rede pública e conveniados. Foram avaliados 1.147 adolescentes, a partir da ‘Autorização de Internação Hospitalar’ (AIH), sondados para um conjunto de pesquisas mais amplo chamado Programa BH VIVA, desenvolvido pelo Observatório da Saúde Urbana da Faculdade de Medicina da UFMG (OSUBH).

Com base no endereço registrado na AIH, fez-se esse filtro de adolescentes que residem em áreas de vulnerabilidade social e na cidade formal. “Nossa ideia não era separar esses dois grupos, mas entender se existe, e como é manifestada, a segregação da violência”, justifica.  

Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID), estão incluídas e classificadas como violência episódios de agressão física e sexuais; de intenção indeterminadas, quando não se sabe o que causou a violência; as autoprovocadas, como tentativas de suicído; e as sequelas dos outros tipos de violência.

Além da ponta do “iceberg”

Para a pesquisadora, algumas pessoas podem pensar que 1.147 adolescentes é um número pequeno. “Mas esse é o dado da violência extrema, dos casos graves. Abaixo desses existe uma população que não chega ao hospital ou sequer tem o caso relatado em uma delegacia ou unidade de saúde. É preciso entender para além da ponta do “iceberg”, alerta Rebecca.

A autora do estudo acredita que o trabalho pode ser percussor para outros, na medida em que faz um alerta em relação à violência existente. “Essa pesquisa tem potencial de direcionar o pensamento de gestores de saúde, no serviço da atenção básica, por exemplo, voltando à base da pirâmide, tentando entender seus determinantes e condicionantes para que não chegue ao topo, que são as hospitalizações e óbitos”, conclui.

Nome do trabalho: Hospitalização por violência em adolescentes residentes em áreas urbanas de Belo Horizonte: Projeto BH VIVA
Autor: Rebecca Barbosa de Decco Monteiro Marinho
Nível: Mestrado
Programa: Saúde de Criança e do Adolescente
Orientador: Waleska Teixeira Caiaffa    
Coorientador: Veneza Berenice de Oliveira

*Carol Prado – estagiária de Jornalismo
edição: Karla Scarmigliat