Insegurança alimentar prejudica tratamentos e agrava saúde da população negra

Na semana que marca o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, celebrado em 27 de outubro, o Saúde com Ciência aborda os impactos do racismo na saúde dessa população


26 de outubro de 2021 - , , , , , , ,


A insegurança alimentar já atinge metade da população brasileira – 116,8 milhões de pessoas, de acordo com dado da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan), divulgado em abril. E devido ao racismo estrutural, é a população negra a mais atingida. Sem ter uma alimentação adequada, essas pessoas têm dificuldades em manter tratamentos para doenças que são mais incidentes nessa população, como Doença Falciforme, hipertensão e diabetes.

No Brasil, 77,8% de toda a pobreza se concentra na população em que a pessoa de referência da família era preta ou parda, de acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Consequentemente, são essas pessoas que mais têm sofrido com a insegurança alimentar, que aumentou ainda mais a desigualdade neste momento de pandemia.

“Nos dados, sempre a população negra tem menor escolaridade, renda e vive em regiões da cidade que tem maior dificuldade de alimentação, saneamento e água encanada, o que interfere processo de saúde e doença”, pondera o sociólogo e pesquisador científico da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Luís Eduardo Batista, que é coordenador do Grupo de Trabalho “Racismo e Saúde” da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A insegurança alimentar não é só a falta, mas também a substituição de alimentos riscos em nutrientes e vitaminas, por alimentos mais baratos e de menor qualidade nutricional, com mais gorduras saturadas, açúcar, sódio e calorias.

Com uma alimentação menos saudável, essas pessoas se tornam ainda mais vulneráveis a doenças que são mais prevalentes na população negra como hipertensão e diabetes mellitus.

“Essas duas doenças são mais prevalentes tanto por questões genéticas quanto sociais, como o tipo de alimentação, necessidade de colocar mais sal nas comidas e dificuldade de adquirir alimentos saudáveis”, observa Batista.

Conforme revela o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (​ ELSA-BrasiL), a hipertensão atinge 49,3% de negros e 30,3% dos brasileiros brancos. E dados do Ministério da Saúde, de 2017, indicam que a diabetes mellitus tipo II atinge 50% mais mulheres negras do que as mulheres brancas. 

Tratamento da Doença Falciforme não pode parar

Sem ter o que comer, também não é possível tratar doenças como a Doença Falciforme. Essa condição genética é caracterizada por alterações dos glóbulos vermelhos no sangue, que assumem o formato parecido com uma foice. A doença é mais comum em pessoas negras devido à origem no continente africano.

O tratamento para essa condição é feito com o uso de medicamentos e, em alguns casos, são necessários procedimentos como a transfusão e sangria terapêutica, que não podem ser feitos em jejum. A presidente da Associação de Pessoas com Doença Falciforme e Talassemia do Estado de Minas Gerais (Dreminas), Maria Zenó, conta que foram momentos trágicos e de desespero, em que foi necessário unir esforços para que o tratamento não parasse por falta de alimentação.

“Tivemos que mobilizar pessoas do nosso grupo, ciclo de amizade e fizemos uma parceria com o coletivo de mulheres negras de Belo Horizonte para que essas pessoas pudessem se alimentar”, relata Maria Zenó.

Ouça mais sobre esse relato aqui:

Ainda de acordo com o estudo da Rede Pessan, quase 20 milhões de brasileiros afirmam passar um dia sem ter como se alimentar. 

Covid mata mais pessoas negras

Piores condições de alimentação, de vida e maior dificuldade de acesso ao sistema de saúde – reflexos do racismo estrutural exposto e arraigado na sociedade – tornam essas pessoas mais vulneráveis ao adoecimento pela covid-19. Além disso, doenças como hipertensão e diabetes são consideradas de risco para maior gravidade do novo coronavírus. Por motivos como esse, a mortalidade na população negra internada por essa doença foi de 55% das pessoas, enquanto a proporção entre brancos foi de 38%, segundo pesquisa do Instituto Polís.

“E também foi a população que teve mais dificuldade para acesso à vacinação, porque foi priorizado os idosos num primeiro momento, e geralmente as pessoas negras morrem mais cedo, e também teve a dificuldade de vacinação nos bairros mais periféricos”, acrescenta o sociólogo Luís Eduardo Batista.

Faltam dados

Os dados sobre a mortalidade durante a pandemia são exceção à regra. Isso porque há negligência na coleta de dados étnico-raciais, ignorando a portaria n° 344, de 2017, que obriga o preenchimento da variável “raça/cor”. E mesmo assim, Batista lembra que os dados sobre a mortalidade vieram tarde, quando já havia uma alta mortalidade dessa população. Para se ter uma ideia, até abril de 2020, esses dados não constavam nos próprios boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde.

No programa de rádio Saúde com Ciência desta semana, saiba como a negligência na coleta de dados impacta na saúde da população negra. O programa também explica o que é racismo institucional e como ele se manifesta, bem como a importância da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Confira!

progama é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify