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Kit covid: o que diz a ciência?

Com base na ciência, programa de rádio debate o que se sabe até hoje sobre o uso da Cloroquina, da Hidroxicloroquina e da Ivermectina


29 de março de 2021 - , , , , ,


Diante da explosão de novos casos da covid-19 e do atual ritmo da vacinação no país, seria mais do que oportuno encontrar um remédio eficaz que elimine a doença. Mas é importante ressaltar que não há tratamento medicamentoso que comprovadamente previna ou cure a covid-19. Pelo contrário, evidências científicas mostram que além de não darem resultado, medicamentos do chamado “Kit covid” podem causar danos ao organismo.

A Ivermectina é um dos medicamentos que fazem parte do kit distribuído por algumas prefeituras e redes de saúde, além de ser defendido por membros do governo federal como tratamento precoce da covid-19. O medicamento antiparasitário tem ação contra vários parasitas como a lombriga e o piolho, mas não tem eficácia contra a covid comprovada por estudos mais rigorosos e publicados em revistas científicas de impacto. O seu uso para esse fim é desencorajado por entidades médicas e farmacêuticas, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela própria fabricante do medicamento.

De onde surgiu?

O uso da Ivermectina no tratamento contra a covid-19 ganhou maior visibilidade após publicação de estudo in vitro, isto é, feito em laboratório e não aplicado em humanos, em abril de 2020. Essa pesquisa mostrou que o medicamento inibe a replicação do Coronavírus SARS-CoV-2 in vitro quando aplicado uma dose quase 18 vezes acima da dose terapêutica.

Mas o professor titular da Faculdade de Farmácia da UFMG, Gerson Pianetti, que atua no desenvolvimento de métodos analíticos para controle de qualidade de fármacos e medicamentos, explica que os resultados encontrados in vitro não se aplicam in vivo, ou seja, em seres humanos. “Aquilo que é feito in vitro somente é publicado para te dar um norte para saber se vale a pena fazer in vivo ou não”, completa o professor.

De acordo com ele, uma dose 18 vezes acima da terapêutica seria inconcebível para uso em seres humanos.

“Imagina o que acontece no seu organismo se você tomar uma dose. Agora imagina se você tomar uma superdose. A diferença entre o veneno e o medicamento é a dose”, ressalta.

Sem comprovação

Mais recentemente, estudo publicado na revista Revista da Associação Médica Americana (JAMA), que é uma das mais respeitadas do mundo, avaliou se a ivermectina resultaria na melhora dos sintomas das pessoas com covid quando usada nos primeiros dias de infecção. E o resultado foi de que o remédio não fez diferença quando usado precocemente. Então, se a pessoa não tiver sintomas graves, é porque isso já iria acontecer naturalmente.

“A Ivermetcina enquanto vermífugo que é, obviamente que as pessoas não vão ter verme. Mas não nos esqueçamos que, a partir do momento que um medicamento entra no seu organismo, ele afeta o circuito interno que, queira ou não queira, vai passar pelo fígado”, explica Pianetti. O professor afirma que já tem casos de hepatite medicamentosa por conta do uso excessivo do medicamento.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Assim como a Ivermectina, a Cloroquina e Hidroxicloroquina também estão incluídas no “kit covid”. O uso dos medicamentos, indicados para tratamento de doenças como malária e artrite reumática, é alvo críticas de cientistas e entidades nacionais e internacionais, como a própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Não existe nenhuma comprovação de que os medicamentos atuem contra o coronavírus. Pelo contrário, já foi demonstrado em estudo feito em grupo de pessoas que a melhora no grupo que usou os medicamentos foi idêntica ao grupo que não tomou.

“Então, se não teve uma diferença estaticamente significativa, você descarta, porque não se toma medicação à toa, sendo que o medicamento vai fazer um efeito negativo em outra região do organismo”, recomenda Gerson Pianetti.

Danos ao organismo

Nem três dias, nem um dia por semana, nem dia nenhum. Consumir medicamentos sem eficácia comprovada pela ciência pode causar prejuízos para o corpo. Para se ter uma ideia, neste mês, médicos do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital da Universidade de Campinas (Unicamp) concluíram que o uso indiscriminado do medicamento Ivermectina levou pacientes a desenvolverem graves lesões no fígado, demandando até a necessidade de transplante.

Se você vai tomar por conta de um problema de verme, toma dois ou três comprimidos e acabou. Agora esse pessoal que está tomando um por dia, durante 15, 20 dias, não sabem o que estão fazendo com fígado deles daqui para frente, porque vai ter comprometimento”, frisa o especialista.

De acordo com ele, o mesmo se aplica para a Cloroquina e Hidroxicloroquina, que podem levar a destruição do fígado e causar hepatite medicamentosa quando usados para finalidade diferente da prescrita na bula e tomados de forma exagerada.

“Não existe essa de que se bem não faz, mal também não faz, porque vai causar danos sim”, avalia.

Programa Saúde com Ciência

Quer saber mais sobre o kit covid? A série “Kit covid: o que diz a ciência?”, esclarece com base em evidências científicas porque não existe tratamento precoce e os danos que o uso desses medicamentos contra o vírus pode trazer ao organismo.

Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify