‘Mais que os dons, importa o que fazemos deles’, defende Alessandro Moreira ao assumir Reitoria da UFMG
Novo reitor recebe o cargo com a missão de ‘fortalecer políticas públicas para eliminar barreiras e desigualdades e estabelecer reparações’
20 de março de 2026 - Cerimônia de posse, Reitoria

Foto: Jebs Lima | UFMG
“Eu jamais esperaria estar aqui, mas penso que a vida é feita tanto de destinos quanto de escolhas. Todos temos dons, valores, mas mais importante que nossos dons e valores são as escolhas que fazemos a partir deles. Quando Sandra me convidou para ser seu vice-reitor, foi um momento de escolha [dela, minha]. Então, antes de qualquer palavra, eu cumprimento você, Sandra, para dizer da minha alegria de poder dar continuidade à sua gestão desta Universidade.”
Com essas palavras ao mesmo tempo altivas e humildes, Alessandro Fernandes Moreira, professor da Escola de Engenharia, deu início ao seu primeiro pronunciamento como reitor da UFMG, em solenidade realizada na noite desta quinta-feira, 19, no auditório da Reitoria. O discurso foi o desfecho de uma emocionante cerimônia de transmissão de cargo, conduzida pela reitora das gestões 2018-2022 e 2022-2026, Sandra Regina Goulart Almeida, que esteve, na mesa do evento, ladeada por vários reitores de gestões anteriores: Francisco César de Sá Barreto (1990-2002), Ana Lúcia Almeida Gazzola (2002-2006), Ronaldo Tadêu Pena (2006-2010) e Jaime Arturo Ramírez (2014-2018). A convite de Sandra, Alessandro foi seu vice-reitor em ambas as suas gestões, 2018-2022 e 2022-2026, de modo que a transmissão de cargo se deu em tom de continuidade e mútua deferência.
Após os tradicionais cumprimentos iniciais feitos às inúmeras autoridades presentes – momento em que, avesso à sisudez dos protocolos, falou também diretamente e em tom familiar a várias pessoas presentes na plateia, entre as quais estavam amigos e parentes –, Alessandro Moreira tratou de demarcar, já nas primeiras considerações de sua mensagem à comunidade, um aspecto que pretende ter como inegociável em sua gestão.
Ao iniciar dizendo que pautaria seu tempo à frente da universidade pelos signos da “bondade, justiça e verdade”, Alessandro afirmou em tom assertivo: “Falo da bondade que se traduz na prática do acolhimento e do cuidado: o cuidado com o meio ambiente, o cuidado com as pessoas; a bondade que se traduz no respeito mútuo e na luta constante contra o preconceito, contra o racismo, contra a homofobia e contra tantas outras formas de discriminação”, disse. Sob essa premissa, o novo reitor afirmou que um dos focos do seu mandato será a consolidação das políticas de saúde mental e de acessibilidade e inclusão da Universidade, “expandindo a visibilidade e a efetividade das políticas de Direitos Humanos, das Ações Afirmativas e das estratégias para que haja uma permanência qualificada na UFMG”.

Ainda enquanto falava sobre “bondade, justiça e verdade”, Alessandro então disse, agora quanto ao tema da justiça: “A justiça se traduz em fortalecer as políticas públicas de nossa instituição que buscam eliminar barreiras e desigualdades e estabelecer reparações. Nesse sentido, para mim, fortalecer a política de Ações Afirmativas e as políticas de gênero e sexualidade é missão.” E quanto à verdade: “A verdade se traduz em estabelecer projetos pedagógicos para a formação política, ética e cidadã de nossos alunos. Sim, a universidade é lugar de políticas, no plural. Em minha gestão, será um compromisso institucional combater a desinformação e criar canais, mecanismos e projetos para formação ética e cidadã.” A partir daí, em um discurso que, conforme logo precaveu, seria longo, o novo reitor tratou de delinear os demais aspectos gerais de seu plano de gestão, momento em que falou em ideias econômicas como “busca pela justiça distributiva”, “redução das assimetrias regionais”, “desenvolvimento sustentável” e “diminuição das desigualdades sociais”. “A universidade pública deve ser, ao mesmo tempo, espaço de ciência, cultura e inovação, mas também de acolhimento e cuidado”, repetiria Alessandro vinte minutos depois, no fim de sua fala, demarcando o que pareceu mesmo figurar como um aspecto central nos seus planos de atuação.
Relativamente ao aspecto social das relações universitárias, Alessandro falou em “inclusão dos diferentes corpos e saberes” e em “reconhecimento da diversidade que nos singulariza e confere cidadania”, em consonância com premissas que já vinham em curso nas duas últimas gestões, em que ele foi vice-reitor. Em relação ao aspecto propriamente educacional, ele falou de seus planos de “ampliar a transversalidade da graduação e da pós-graduação”, de promover “as formações transversais e interdisciplinares” e a “convergência curricular” e de ampliar, para a pós-graduação, a “formação em extensão” recentemente implantada na graduação.
Ainda no campo do ensino, Alessandro defendeu o incentivo ao “protagonismo estudantil” e a realização de “ações de ensino, pesquisa e extensão que aproximem graduandos da Unidade Especial de Educação Básica e Profissional (Ebap) da UFMG”, assim como das redes públicas de educação básica. “Também pretendemos intensificar as práticas que favoreçam a compreensão da transversalidade da cultura, reconhecendo as capacidades de articulação de diversas áreas do conhecimento e das experiências sociais que estão nela contidas”, demarcou.

Compromisso com o bem público
“Hoje, ao vê-lo nesse lugar, sinto uma mistura de emoções: orgulho por ver um amigo chegar tão longe, esperança por saber que a Universidade está em boas mãos e tranquilidade por conhecer seu caráter, sua integridade, seu compromisso inabalável com o bem público.” Essa saudação a Alessandro partiu de Walmir Matos Caminhas, professor da Escola de Engenharia e diretor da Fundação de Apoio à UFMG (Fundep). “Em oito anos como vice-reitor, você aprendeu os meandros da administração central, os desafios orçamentários, as dores e conquistas de uma Universidade complexa como a UFMG. Você e Sandra souberam encarar a crise da pandemia vendo-a como uma oportunidade para mostrar a importância da ciência e da Universidade para o país”, lembrou Walmir.
“Quando você e Alamanda [Alamanda Kfoury Pereira, professora da Faculdade de Medicina escolhida por Alessandro para ser a vice-reitora de Alessandro Moreira na gestão 2026-2030] lançaram a chapa com o nome ‘UFMG Acolhedora’, eu fiquei muito feliz, porque uma universidade acolhedora reconhece a importância da diversidade, cuida da saúde mental, luta pela permanência estudantil e valoriza cada servidor”, disse Walmir Caminhas, que enfrentou uma confessada timidez para ainda assim estar no púlpito da Reitoria saudando o amigo. “Mas a caminhada está apenas começando agora. Vocês sabem melhor que ninguém que não será fácil, mas sabem também que a história da UFMG é feita de superação. Quantas crises já não enfrentamos? Quantas vezes já não duvidaram da nossa capacidade? E aqui estamos mais fortes, mais unidos, mais comprometidos com a sociedade. Saibam, portanto, que vocês não estarão sozinhos: toda a comunidade universitária estará aqui, caminhando junto, semeando junto, para que no final dessa gestão possamos olhar para trás e ver que fizemos o melhor que pudemos: acolhemos, inovamos, incluímos, cuidamos.”
Centro de Comunicação – Cedecom