Mulheres indígenas morrem mais precocemente no Brasil, revela estudo
Segundo pesquisa realizada no PPG de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, violências, exclusão social e precariedade no acesso a serviços de saúde são fatores que determinam alta taxa de mortalidade entre essas mulheres.
06 de janeiro de 2026 - Divulgação Cientifica, Mortalidade, mulheres indígenas, The Lancet

De acordo com pesquisa, mulheres indígenas entre 10 e 49 anos tendem a morrer mais jovens que mulheres brancas. O estudo indicou uma idade mediana de morte de 31 anos para as indígenas, enquanto entre brancas é de 39 anos. A pesquisa, realizada no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, foi elaborada pelo mestrando Guilherme Torres e pela professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social, Flávia Bulegon Pilecco, e teve o artigo publicado na revista científica The Lancet em agosto de 2025.
O estudo epidemiológico analisou a evolução das taxas de mortalidade de mulheres indígenas brasileiras em idade reprodutiva, entre 2010 e 2019, em comparação com as de mulheres brancas. O projeto buscou dar visibilidade a um grupo populacional ainda pouco estudado no país, investigando não apenas mortes relacionadas à maternidade, mas todo o conjunto de causas de morte dessas mulheres.
A pesquisa indicou importantes desigualdades, um reflexo de padrões de adoecimento diferenciados. Além de morrerem mais precocemente que as mulheres brancas, as mulheres indígenas morrem com mais frequência fora de hospitais, levando a sérios questionamentos sobre a equidade no acesso a cuidados em saúde.
“Partimos da preocupação com as desigualdades estruturais que atingem os povos indígenas e com a falta de informações consistentes sobre sua saúde. No caso das mulheres indígenas, especificamente, quisemos superar o que chamamos de “materno-infantilismo” — essa visão limitada que reduz o cuidado às questões reprodutivas e ignora outras formas de adoecimento e morte”, destaca o pesquisador.
Além disso, o objetivo do estudo foi produzir evidências que possam orientar políticas públicas mais justas, que considerem as especificidades culturais e sociais dessas mulheres e contribuam para um cuidado em saúde realmente inclusivo e efetivo.
A pesquisa foi realizada com dados nacionais, reunidos em bancos de informações do Sistema Único de Saúde. Foram analisados óbitos de quase 280 mil mulheres indígenas e brancas, ao longo de uma década, nas cinco macrorregiões. A maior parte das ocorrências entre indígenas vêm das regiões Norte e Centro-Oeste, que juntas responderam por dois terços de seus óbitos, seguidas do Nordeste, com aproximadamente 15%, Sul e Sudeste, com 9% e em torno de 7%, respectivamente.
O padrão de mortalidade é complexo, com múltiplas causas, e reflete um duplo fardo de doenças entre essas mulheres. De um lado, persistem causas evitáveis, como doenças infecciosas e parasitárias, mortes maternas e causas externas. Por outro, há um aumento expressivo das doenças crônicas não transmissíveis, dos aparelhos circulatório, digestivo e respiratório, e também de neoplasias e doenças endócrino-metabólicas e nutricionais.
“Essas mulheres continuam expostas a problemas típicos de contextos com baixa cobertura de saúde básica, superados para muitos setores da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que enfrentam um crescimento de doenças associadas à urbanização e às mudanças no modo de vida, o que evidencia uma situação de desigualdade estrutural na qualidade e no acesso à atenção em saúde”, observa Guilherme.
Causas externas, como violência e suicídio, são as mais expressivas na mortalidade de mulheres indígenas
Segundo a pesquisa, os agentes de mortalidade mais significativos entre mulheres indígenas em idade reprodutiva foram as causas externas, que incluem violências, suicídios, acidentes e envenenamentos. Essas mortes apresentaram as maiores taxas em todo o período analisado — cerca de 37 óbitos por 100 mil mulheres indígenas, o que é mais que o dobro do registrado entre mulheres brancas. Além disso, embora o indicador tenha se mantido estável ao longo dos anos, permaneceu consistentemente alto. Entre mulheres brancas, em comparação, já existe uma tendência de redução dessas mortes.
“Para nós, isso reflete a vulnerabilidade dessas mulheres à violência, à exclusão social e à falta de acesso a serviços de proteção e de saúde adequados”, explica.
Outra descoberta preocupante do estudo é que as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares, respiratórias e digestivas estão em clara tendência de aumento entre as mulheres indígenas, enquanto já se encontram estáveis ou em redução entre as mulheres brancas.
De acordo com a pesquisa, entre as mulheres indígenas não houve tendência de redução de mortes em nenhum grupo de doenças, mas sim uma tendência de aumento nos óbitos por doenças digestivas (+12,36%), circulatórias (+8,88%), respiratórias (+4,56%), neoplasias (+10,41%) e doenças endócrinas e metabólicas (+8%).
No caso de mortes por causas externas e doenças infecciosas permaneceram estáveis e elevadas entre as indígenas, enquanto diminuíram entre as brancas. Esses resultados reforçam que as mulheres indígenas sofrem uma dupla carga de doenças, refletindo desigualdades estruturais, sociais e raciais que afetam sua saúde e sua expectativa de vida.
Desigualdade social impacta diretamente no acesso limitado à serviços saúde
De acordo com Guilherme, a pesquisa comparou mulheres indígenas e mulheres brancas, a fim de evidenciar como as desigualdades sociais e estruturais impactam a mortalidade. “As mulheres indígenas vivem, em grande parte, em contextos marcados por acesso limitado a serviços de saúde, infraestrutura precária, barreiras linguísticas e culturais, além da discriminação institucional. Muitas residem em áreas remotas, o que dificulta o atendimento em situações de urgência e o acompanhamento de doenças crônicas”, informa.
Apesar disso, mesmo aquelas que vivem em ambientes urbanos e periurbanos enfrentam precariedades e obstáculos no acesso aos serviços de saúde. Esses fatores fazem com que causas de morte evitáveis, como doenças infecciosas, complicações na gestação e violências, permaneçam elevadas.
“Esses resultados refletem, sobretudo, as desigualdades crônicas e estruturais resultantes de uma invisibilização histórica, em um país formado sobre a negação da existência, dos direitos e das particularidades de seus povos originários”, aponta o pesquisador.
Para ele, as políticas públicas de saúde podem reduzir significativamente a mortalidade precoce e evitável de mulheres indígenas, ao promover o acesso equitativo a serviços de saúde de qualidade, com ações alinhadas às reais demandas dessa população. Porém, para que sejam eficazes, essas políticas devem ser culturalmente sensíveis, respeitando tradições locais e barreiras linguísticas, incluindo a formação e emprego de profissionais indígenas e agentes de interlocução e mudança.

Além disso, o fortalecimento da infraestrutura logística, como transporte e equipamentos médicos, e o combate à discriminação institucional são essenciais para garantir que as mulheres indígenas utilizem os serviços de forma adequada e segura. A educação em saúde e o empoderamento comunitário também desempenham papel central, promovendo a prevenção e a detecção precoce de problemas de saúde.
“Isso tudo se tornará mais efetivo quando for baseado em evidências, fruto de estudos como esse, que joguem luz sobre desigualdades que precisam ser abordadas, ajustando estratégias de forma direcionada. Políticas que integrem equidade, sensibilidade cultural, infraestrutura adequada e participação comunitária têm maior potencial de reduzir as disparidades em saúde, promovendo justiça social”, conclui o pesquisador.
Pesquisa: Investigação das causas de mortalidade de mulheres indígenas brasileiras em idade reprodutiva: uma análise de séries temporais
Autor: Guilherme Augusto Torres Ferreira
Orientador: Profa. Flávia Bulegon Pilecco
Programa: Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública
Defesa: 12 de junho de 2023
