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Mulheres são as mais prejudicadas pela pandemia

Sobrecarga e violência contra as mulheres aumentaram neste período


30 de novembro de 2020 - , , ,


Os impactos da pandemia na vida das mulheres têm evidenciado ainda mais as desigualdades de gênero. São elas as mais atingidas pela crise no mercado de trabalho, que ficaram ainda mais sobrecarregadas com os afazeres de casa, home office e cuidados com alguém da família, além de ainda enfrentarem a infeliz realidade do aumento de casos de violência doméstica.

De acordo com relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os feminicídos aumentaram 2% durante a pandemia. O termo feminicídio é usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero. Já as chamadas de emergência subiram 3,8%, enquanto os registros de agressões feitos em delegacias diminuíram 10% no primeiro semestre deste ano. Mas especialistas alertam que é preciso cuidado ao analisar esses dados. Isso porque eles indicam que houve aumento de subnotificações de casos de violência contra a mulher.

A professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Sara de Pinho Cunha Paiva, coordenadora do Serviço de Atendimento de Violência Sexual da UFMG, explica que o fato de a mulher estar mais em casa neste momento, por questões como a própria quarentena, desemprego e trabalho em home office, aumenta a proximidade com o agressor, proporcionado a violência doméstica.

“Por estarem mais isoladas, elas têm mais dificuldades para buscarem ajuda no serviço social, muitos não estão com funcionamento normal, ou até mesmo com amigos. Também em buscar ajuda nos serviços de assistência médica e polícia, pelo medo de contrair o novo coronavírus nesses locais”, destaca a professora.

Tipos

São diversos tipos de violência que as mulheres podem sofrer. Entre elas, violência física, psicológica, sexual, institucional, assédio moral e violência autoprovocada. Essa última, em geral, é consequência das outras cinco formas de violência contra a mulher e que pode levar a depressão, lesões autoprovocadas e até ao suicídio.   

Como são vários tipos de violência, nem sempre é possível identificar quando a mulher está sofrendo alguma, especialmente quando não deixa marcas físicas.

“A agressão pode ser verbal, por controle, uma superproteção camuflada de controle, de não deixar essa mulher conversar com sua família e amigos e até mesmo falar mal de familiares e amigos distanciando essa mulher dessas pessoas”, exemplifica Sara.

Como ajudar?

Independentemente do tipo de violência praticada, é sempre importante que a mulher busque ajuda. Nem sempre a polícia será a primeira a ser acionada, pois muitas mulheres têm medo de uma represália do agressor, preocupação com os filhos, creem que o episódio aquele episódio seria o último, vergonha ou medo da separação.

Por isso, a professora Sara de Pinho Cunha Paiva frisa que é importante a mulher ter alguma pessoa de confiança para contar sobre a violência que está vivendo e que possa auxiliar, por exemplo, com abrigo caso ela precise fugir de seu domicílio devido às ameaças do agressor.

“É interessante que a mulher seja orientada a criar um plano de fuga, uma rota de fuga caso aconteça uma violência importante”, alerta a professora.

Outras ações que podem ajudar a mulher é conversar com algum vizinho de segurança e estabelecer um código de medo ou suspeita de violência como um grito e apito. “Ou até códigos que possam ser falados ao telefone, como frases do tipo: ‘a janela não está funcionando muito bem e a porta está trancada’”, completa.

Mas, sempre que possível, essas mulheres devem ser orientadas a buscarem o auxílio da polícia para fazerem a representação e boletim de ocorrência para abertura de um processo.

Fadiga e desemprego

Dados de pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva, revelam que 41% das mulheres que seguiram trabalhando durante a pandemia afirmaram trabalhar mais na quarentena que antes.

“O cenário de quarentena implica que as pessoas fiquem mais em suas casas, mas homens e mulheres não usufruem dos mesmos direitos e deveres em seus lares. Neste contexto, o lar tem sido muitas vezes o lugar onde o homem se resguarda enquanto a mulher se sobrecarrega”, avalia a psicóloga clínica e pós-graduanda em relações étnico-raciais, Laila Resende.

Ainda de acordo com a pesquisa, mais da metade das brasileiras se tornou responsável pelo cuidado de crianças, idosos ou pessoas com deficiência. Nos ambientes rurais, esse percentual foi de 62%.

Para Laila Resende, o trabalho remunerado vem acompanhado também de um trabalho que não é socialmente valorizado, prejudicando a autoestima das mulheres.

“Se a mulher estão em casa cuidado de alguém da família, elas não tem trabalho reconhecido e legitimado, o que afeta a sua autoestima e exigência consigo mesma, porque ela acaba por internalizar essa baixa valorização”, explica.

Além disso, segundo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres que trabalhavam ou procuravam emprego caiu para 46,3% da força de trabalho no país, no segundo semestre deste ano. É o menor número desde 1990, quando foi registrado índice de 44,2%.

Elas por elas

O Saúde com Ciência desta semana é dedicado as mulheres e a sobre a saúde delas, que estão sendo mais impactadas pela pandemia. Confira a programação completa:

-> Fadiga na pandemia: novos tempos evidenciam sobrecarga das mulheres
-> TPM não é frescura: contexto atual pode piorar sintomas
-> Gravidez não planejada na pandemia
-> Metendo a colher sim: como ajudar mulheres vítimas de violência doméstica?
-> Mulheres negras e os impactos da pandemia

Sobre o Programa de Rádio

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.