‘Não encerro apenas um mandato, encerro uma travessia’, diz Sandra Goulart ao término de sua gestão
Transmissão de cargo foi realizada nesta quinta-feira, 19, em cerimônia marcada pela emoção; ela comandou a UFMG nos últimos oito anos, caracterizados por ‘dias intensos e noites inquietas, por decisões difíceis e por esperanças teimosas’
20 de março de 2026 - cerimonia de posse, gestão, Reitoria

Foto: Jebs Lima | UFMG
“São só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida”. Sob a emoção da poesia de Fernando Brant e Milton Nascimento, eternizada na voz de Bituca, a professora Sandra Goulart Almeida deu início ao seu último discurso como reitora da UFMG, durante a cerimônia de transmissão de cargo realizada na noite desta quinta-feira, 19, no auditório da Reitoria. Ela passou o bastão a Alessandro Fernandes Moreira, professor da Escola de Engenharia que foi seu vice-reitor nas gestões 2018-2022 e 2022-2026.
Na solenidade, que se deu em tom de mútua deferência, Sandra esteve ladeada por vários reitores de gestões anteriores: Francisco César de Sá Barreto (1990-2002), Ana Lúcia Almeida Gazzola (2002-2006), Ronaldo Tadêu Pena (2006-2010) e Jaime Arturo Ramírez (2014-2018). Na gestão de Jaime, Sandra foi também vice-reitora e viveu um dos momentos mais marcantes da história universitária recente: uma arbitrária condução coercitiva realizada pela Polícia Federal, que foi tema do primeiro documentário em longa-metragem produzido pela TV UFMG, cuja estreia ocorreu nesta semana.
“De fato, a gestão que hoje se encerra foi marcada por uma confluência de desafios que impuseram dificuldades incomuns, que demandaram da Universidade uma capacidade particular e inusitada de articulação interna, coesão institucional, resiliência, empatia e de adaptação a novas e delicadas situações”, lembrou Sandra em seu discurso, marcado pela emoção. “A sistemática redução do orçamento das universidades federais vivida no período e a pandemia de covid – além de um governo avesso, refratário às universidades públicas e ao conhecimento – não esgotam o elenco de adversidades que se apresentaram nos últimos oito anos, no qual podemos incluir ainda as tragédias que acometeram nossa região, como no caso dos desastres da Samarco, em Mariana, e da Vale, em Brumadinho.”
Para Sandra, a altivez demonstrada pela comunidade no período se deveu ao fato de que a Universidade, enquanto instituição, ser algo que, individualmente, “nos ultrapassa”: trata-se, em suas palavras, de “uma entidade viva, pulsante, tecida por muitas mãos e muitos sonhos. E foi com esse espírito e esse sonho que [mesmo em face das adversidades do período] seguimos defendendo, com firmeza e sensibilidade, uma universidade pública, de qualidade, inclusiva e profundamente comprometida com a sociedade.”

“Hoje encerro um ciclo que foi, acima de tudo, um compromisso com a educação pública, com a ciência e com as pessoas que dão vida a esta Universidade”, avançou a reitora. “Ao longo destes dois mandatos, enfrentamos esses desafios significativos: uma sociedade polarizada, com uma parcela da população hostil às universidades e refratária ao conhecimento e à ciência, e que ainda continua conosco, entre nós. Ao mesmo tempo, também construímos conquistas importantes, fruto do trabalho coletivo, do diálogo e da dedicação de cada estudante, cada docente e cada servidor técnico-administrativo, cada parceiro institucional. Houve momentos em que o caminho pareceu incerto, momentos em que as circunstâncias nos testaram. Ora, foi justamente nesses momentos que encontramos nossa maior força: a coletividade e a capacidade de resistir e lutar sem perder a ternura e o afeto. É o que nos ensina Pepe Mujica, nosso mais recente Doutor Honoris Causa: avançar sem abrir mão dos nossos princípios; construir pontes onde antes havia distâncias.”
‘Maior, melhor e mais inclusiva’
“A universidade que hoje deixo [enquanto reitora; professora da Faculdade de Letras, Sandra disse em dado momento estar feliz poder voltar à sua casa na Universidade] não é a mesma que encontrei: ela está maior, melhor e mais inclusiva. Isso não se deve apenas a uma gestão, mas a uma comunidade que não se resigna, uma comunidade que questiona, cria, resiste e acredita. Aqui temos uma comunidade que compreende que o conhecimento não é um fim em si mesmo, mas um instrumento de emancipação, de justiça e de futuro”, disse a reitora, saudando e agradecendo a todos com quem trabalhou ao longo de seus doze anos de Administração Central. “A abertura ao outro que se deu na Universidade nos últimos anos marcou seu comprometimento com a democracia, com a inclusão e com a diversidade de muitas formas, por meio das várias políticas que pudemos implementar em diálogo com a sociedade e os movimentos sociais. Nada disso, claro, teria sido possível sem a colaboração de toda a comunidade acadêmica, e por isso só posso agradecer.”
“Não encerro apenas um mandato, encerro uma travessia”, disse Sandra, quando se encaminhava para o fim de seu discurso. “Uma travessia feita de dias intensos e noites inquietas, de decisões difíceis e de esperanças teimosas. Uma travessia em que aprendi que conduzir uma universidade é, antes de tudo, estar aberto ao outro, à escuta das múltiplas vozes que ecoam não apenas nos espaços institucionais, mas também fora deles para atender às demandas da sociedade e as urgências do nosso tempo.” Antes, porém, de terminar, ela fez questão de agradecer à parceria com Alessandro, seu vice, agora empossado como o novo reitor, saudando também seus familiares, “que ao longo desses tantos anos se tornaram também pessoas tão amigas e queridas por mim”.
“Meus mais profundos agradecimentos ao Alessandro, companheiro na condução da gestão da UFMG nesses últimos oito anos, hoje um amigo querido, companheiro de muitas lutas, mas também de momentos de alegria e muitas realizações. Vivemos momentos difíceis, batalhas árduas, nem sempre vencidas, mas juntos fomos mais fortes, altivos e resistentes nas lutas diárias. Sua calma, tranquilidade e abertura ao diálogo serão inestimáveis nos caminhos a serem trilhados junto à professora Alamanda [Alamanda Kfoury Pereira, professora da Faculdade de Medicina escolhida por Alessandro para ser a vice-reitora de Alessandro Moreira na gestão 2026-2030], também uma amiga querida e parceira constante”, disse. “Deixo o cargo com a convicção de que a Universidade segue em excelentes mãos e continuará avançando, fiel à sua missão e aos seus valores”, concluiu.

A força da liderança feminina
Sandra Goulart foi saudada pela professora Sueli Maria Coelho, da Faculdade de Letras e que acaba de assumir a Pró-reitoria de Graduação. Em sua fala, Sueli lembrou Sandra como uma reitora que soube construir consensos em uma instituição – e em uma época da nação – marcada justamente pela pluralidade de vozes. “No decurso da gestão, vocês demonstraram plena consciência de que governar uma Universidade implica dialogar com sua diversidade, defender sua autonomia, assegurar condições para a consolidação da pesquisa e o avanço do conhecimento, fomentar práticas e tecnologias inovadoras de ensino e de extensão, preservar a soberania democrática dos órgãos colegiados e sobretudo cuidar das pessoas”, disse.
“O ciclo que hoje se encerra foi marcado por desafios significativos, mas também por decisões assertivas, por conquistas memoráveis e por avanços expressivos”, garantiu Sueli, lembrando o fato de Sandra ter assumido cargos de liderança em diversas associações e entidades associativas, como os fóruns de reitores. “Nessas associações, nossa reitora também deixou a sua marca. Influenciou políticas, promoveu a ciência, fortaleceu a universidade pública”, garantiu.
“Ao revisitarmos os anos que caminhamos sob sua gestão, compreendemos que não se tratou apenas de um período administrativo bem-sucedido, mas de uma etapa em que a Universidade, sob uma liderança firme e comprometida com sua comunidade interna e externa, soube reafirmar seus valores e expandir suas possibilidades – mesmo diante das severas crises sanitária e orçamentária que marcaram o período. Sandra foi decisiva na defesa de uma universidade pública, gratuita e de qualidade, conduzindo a instituição com sensatez e zelo, de modo a evitar que tais adversidades comprometessem seu funcionamento e seu projeto acadêmico”, lembrou a colega de Fale.
E, em momento de maior emoção, Sueli citou Graciela Ravetti, professora da Faculdade de Letras morta em 2021, durante a pandemia de covid-19. “Graciela sempre acreditou em seu potencial para liderar esta Universidade”, garantiu. Mais tarde, quando de seu discurso, Sandra fez questão de voltar ao tema, lembrando Graciela como alguém realmente “responsável, de várias formas, por eu ter chegado onde estive nestes últimos anos”.

Amiga de Sandra Goulart, de quem se aproximou nos tempos em que era reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, a professora Lucia Campos Pellanda, diretora de Desenvolvimento Acadêmico da Secretaria de Educação Superior (Sesu) do Ministério da Educação (MEC) exaltou a atuação das mulheres em cargos de liderança. “Elas são muito importantes – não só por ‘quebrarem o teto de vidro’ e inspirarem outras mulheres, não só por abrirem caminhos, mas também pelo benefício que isso gera para toda a sociedade, porque as mulheres costumam propor mais políticas que beneficiam o conjunto da sociedade. Em um mundo que gasta mais com armas que com alimentos e educação, uma perspectiva de comunidade é essencial para que possamos sobreviver como espécie. Ora, foi assim que tudo começou. Nós só sobrevivemos porque aprendemos a colaborar. E, por isso, mais do que mulheres nas lideranças, nós precisamos de mulheres generosas nas lideranças, como foi a Sandra”, defendeu.

Centro de Comunicação – Cedecom