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Novos tratamentos para câncer de mama aumentam chances de cura, mas ainda são pouco acessíveis

A ciência avança, mas prevenção e controle da doença ainda são considerados o melhor caminho


04 de outubro de 2021 - , , , ,


*Maria Beatriz Aquino

Avanços no tratamento do câncer de mama aumentam as chances de cura para esse tipo de neoplasia, que é a mais incidente em mulheres no mundo. No entanto, pequena parcela de pacientes no Brasil consegue se beneficiar dessas novas possibilidades. 

Neste mês destinado ao controle e prevenção da doença, o programa de rádio Saúde com Ciência conversa com especialista sobre esses avanços e os desafios em torná-los mais acessíveis a todas as brasileiras.

Os tratamentos podem variar de acordo com os subtipos de câncer e a especificidade de cada caso. A professora do Departamento de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da UFMG, Cristiana Buzelin, explica que o desenvolvimento de novas drogas permitiu modificar a forma de avaliar e detectar os tumores no organismo. Agora já se sabe, por exemplo, que nas células inflamatórias atingidas pelo câncer existe uma resposta imunológica da própria paciente para tentar combater o tumor. 

“Identificaram que o tumor produz substâncias que bloqueiam essas células inflamatórias do sistema imunológico da paciente. Então, a gente já tem drogas que liberam esse sistema imunológico novamente para atacar esse tumor, que são as chamadas imunoterapias”, esclarece a médica especialista em patologia mamária.

Outra novidade nos tratamentos são os quimioterápicos, que foram desenvolvidos recentemente de maneira substitutiva à quimioterapia. O medicamento é direcionado individualmente a cada um dos quatro subtipos moleculares de câncer de mama, sendo eles os nominais A e B, tumores de proteína HER2 e o tipo triplo negativo (considerado mais agressivo por ter rápido crescimento)

Desafios no acesso

Apesar dos avanços, ainda são poucas pessoas que conseguem usufruir de seus benefícios. Um dos motivos é ao fato de que algumas dessas pesquisas e descobertas foram feitas em países europeus e também nos Estados Unidos, ainda sem aprovação no Brasil. 

Por aqui, todo medicamento deve ser aprovado previamente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como não existe uma produção nacional, a aprovação se torna mais demorada a fim de garantir a segurança desses tratamentos. 

O tratamento do tumor tipo HER2, por exemplo, passou por esse longo e necessário processo de aprovação pela Anvisa e hoje já está disponível aos pacientes através do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Já a imunoterapia, apesar de ter medicamentos aprovados no Brasil, ainda não está disponível no SUS. Isso porque não existe estratégia para nacionalizar os medicamentos, que tem custo ainda muito elevado. Para ter acesso gratuito à imunoterapia, os pacientes precisam recorrer à justiça

Prevenção é o melhor caminho

Mesmo com a evolução científica em relação ao tratamento, Cristiana Buzelin chama a atenção para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer. De acordo com estimativa feita pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão integrante da Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de óbitos pela doença chegou a 684.996 no ano passado, o que marca o câncer de mama como a causa mais frequente de morte por câncer na população feminina. 

“O principal no câncer de mama é a gente identificar a lesão quando ela ainda é pequena e está no início. Não deixar crescer e não ter medo de tratar, porque quanto antes ela começar o tratamento, maior a chance que ela tem de curar essa lesão”, encoraja a professora. 

Por isso, as mulheres precisam fazer autoexame constantemente. E aquelas com mais de 50 anos ou que tenham histórico familiar, precisam ser avaliadas por um especialista e realizarem a mamografia de rastreio periodicamente. 

Teste molecular 

Mas a especialista explica que existem outras formas de se prevenir. Por exemplo, através de um teste molecular que avalia mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, que podem desenvolver o câncer. Em pacientes que já estão diagnosticados com a doença, o teste molecular ajuda na escolha de um tratamento mais preciso. 

“Atualmente, nós conseguimos trabalhar as pacientes e seus tumores de uma forma mais específica, e não mais considerar como uma doença única e generalizada”, ressalta a professora.

O teste coleta amostras de saliva e sangue para análise. Apesar de já estar disponível no SUS, ainda está pouco presente, sendo acessível para número reduzido de pacientes. 

A especialista avalia que esse é um projeto importante porque as mulheres com essas mutações têm uma chance muito maior de desenvolver o câncer de mama do que pacientes que não as têm. “Então são mulheres que serão acompanhadas desde jovens e submetidas a tratamentos preventivos, como a retirada de ovários”, esclarece a médica. 

Mas a professora preconiza que, embora a retirada do ovário reduza em até 90% a chance de desenvolvimento da doença, é preciso analisar os casos de forma individual, o que também vale para a retirada das mamas.

Diagnóstico precoce

A jovem designer de ambientes, Amanda Aquino, descobriu os primeiros nódulos três anos atrás, quando tinha 22 anos. Ela conta que na época sentiu alguns caroços na região, especialmente um maior que lhe incomodava, e decidiu se consultar com especialista no posto de saúde. 

“Eu comecei a observar quando incomodava, se estava crescendo, e resolvi procurar um médico no posto de saúde. Ele me pediu uma mamografia e um ultrassom das mamas, e somente nesse último eu consegui ver que na verdade eram 9 nódulos, tanto na mama direita quanto na esquerda”, relata. 

Amanda menciona ainda que a mãe já teve o mesmo problema, mas conseguiu impedir que os tumores evoluíssem para fases mais graves com o diagnóstico precoce. Por isso, exames como ultrassonografia, ressonância magnética e mamografia são importantes no rastreio e diagnóstico da doença. Mas Amanda afirma que durante a pandemia tem tido dificuldades para a realização desses exames pelo SUS. 

Essa realidade foi constatada em levantamento feito pelo Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, que mostrou que 71% dos pacientes do SUS tiveram dificuldades para fazer exames, e outros 66% enfrentaram problemas para conseguir consultas. E esse cenário é percebido mesmo com as buscas por exames reduzidas. Outro levantamento de autoria da Fundação do Câncer apontou que a procura por exames, como a mamografia, tiveram queda de 84% durante a pandemia. 

A Lei nº 11.664, de 2008, assegura o exame de mamografia gratuito pelo SUS a mulheres acima dos 40 anos de idade. Em 2020 foi sancionada uma nova Lei nº 13.980 que garante, também, a realização da ultrassonografia mamária a mulheres mais jovens com elevado risco de câncer de mama para o controle e prevenção da doença.

A designer pontua ainda que campanhas como Outubro Rosa são muito válidas, mas acredita ser importante, também, incentivar as mulheres a terem mais autonomia em relação aos próprios corpos, serem bem instruídas a realizarem o autoexame e nunca descartarem o diagnóstico médico. 

Saiba mais

Quer saber mais sobre os quatro subtipos do câncer de mama e os tratamentos para cada um deles? Esclarecer mitos e verdades sobre a doença? Confira essas e outras informações no programa de rádio Saúde com Ciência desta semana.

progama é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify

*Maria Beatriz Aquino – estagiária de Jornalismo
Edição: Karla Scarmigliat