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Parkinson: Pesquisas não são conclusivas sobre benefícios da maconha medicinal

Canabidiol e THC são os componentes mais estudados. Potencial terapêutico já foi comprovado em outras doenças


03 de novembro de 2020 - , , , ,


Mais de 140 substâncias compõem a Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha. Entre esses componentes, chamados fitocanabinoides, dois têm sido estudados pelo seu potencial terapêutico: o THC, que é o que causa o efeito psicoativo da maconha, e o canabidiol, conhecido pelo potencial terapêutico. Em dezembro de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a fabricação e a venda de medicamentos à base de cannabis, ou seja, maconha, no Brasil. Apesar disso, a agência não liberou o cultivo da planta pelas empresas e alega que a autorização para o plantio deve vir do Congresso Nacional. Com efeitos comprovados cientificamente no tratamento de doenças como a epilepsia, Alzheimer, câncer, autismo e dores crônicas, no Parkinson, ainda há uma discussão sobre os benefícios das substâncias. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença atinge 1% da população acima de 65 anos.

O Parkinson é tema do programa Saúde com Ciência dessa semana. Clique para ouvir

O mastologista do Hospital das Clínicas da UFMG e presidente da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA-ME), Leandro Ramires, explica que o Parkinson atinge os neurônios dos gânglios da base do cérebro. “Há uma perda de neurônios e esses gânglios da base funcionariam como um relé. A mensagem para se movimentar um membro, por exemplo, sai do córtex cerebral, passa por esse relé e vai diretamente ao membro. Então, o paciente do Parkinson manda a ordem do cérebro para movimentar o membro, só que o relé, que é o gânglio da base, está defeituoso. Com isso, o impulso passa de maneira intermitente, daí o tremor que é muito comum no Parkinson”, explica. Além dos problemas motores, a doença também provoca ansiedade, mictura (acordar à noite para urinar), constipação intestinal, dentre outros.

Leandro Ramires afirma que “tanto o canabidiol quanto o THC têm um potencial de recuperar esses neurônios que foram perdidos nos gânglios da base, além de proporcionar uma melhor condução nervosa desse estímulo. É um processo de reversão parcial da neurodegeneração e impede a progressão da doença”.

Por outro lado, o neurologista e professor do Departamento de Clínica Médica, Francisco Eduardo Cardoso, aponta que “especificamente em relação à doença de Parkinson, há uma controvérsia em relação aos produtos derivados da cannabis. Os estudos dessa área são de ótima qualidade e concluíram que não há benefício sob o aspecto motor”. Ele, alerta, ainda que o THC pode ser prejudicial. “Muitos dos produtos à base de canabidiol no Brasil raramente contém apenas essa substância, geralmente, eles têm também o THC, que pode modificar o comportamento das pessoas. Esse tipo de produto (com o THC) tem efeitos ruins sobre a parte cognitiva e as pessoas podem ter alucinações”, afirma.

“Não é que exista uma oposição minha ou da área de movimentos anormais aos derivados da cannabis. Mas, é uma área que requer mais estudos e não está pronto para o uso indiscriminado”, completa.

Segundo Leandro Ramires, a AMA-ME atende, hoje, aproximadamente 30 pacientes que fazem o tratamento do Parkinson utilizando o canabidiol. Todos apresentaram melhoras nos sintomas, especialmente nos sintomas não motores. Ainda de acordo com o médico, esses pacientes reduziram a dose medicamentosa tradicional.

Tratamento suplementar

Ao contrário dos casos de epilepsia, em que o canabidiol pode ser utilizado como um substituto para os remédios tradicionais, no Parkinson, a indicação é que a substância seja utilizada de forma complementar aos medicamentos.

“A minha recomendação nesse momento, em que a gente carece de estudos clínicos consistentes, é que o uso de cannabis medicinal seja auxiliar ao tratamento que já existe padronizado”, informa Leandro Ramires. 

Maconha medicinal x maconha recreativa

O tratamento à base de fitocanabonoides não é feito do mesmo jeito que o uso recreativo da maconha. Ao invés de fumada, a planta passa por um processo de extração e produção de um medicamento fitoterápico, que pode ser usado oralmente e em doses controladas, evitando o efeito psicoativo do THC. “Eu não recomendo, de maneira alguma, o uso fumado, porque ele vai gerar a queima de papel e material vegetal, e isso produz compostos, como o monóxido de carbono, que são tóxicos. O melhor uso é através de um extrato, em que o médico pode controlar a concentração dos canabinoides para atingir um melhor efeito, em detrimento do efeito psicoativo”, esclarece Leandro Ramires.

Programação da semana

As causas do Parkinson ainda não foram descobertas. Mas os cientistas se debruçam em buscas de respostas. Para se ter uma ideia, até mesmo a relação da doença com a covid-19 está sendo investigada. Mas não são só as causas que estão sendo pesquisadas: nessa semana, o Saúde com Ciência apresenta alguns avanços científicos em relação ao Parkinson. Confira:

:: Parkinson precoce
:: Estímulo cerebral
:: Maconha medicinal
:: Vitamina B2
:: Tratamentos alternativos

Sobre o Programa de Rádio

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.