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Pesquisa em andamento indica melhora na capacidade respiratória seis meses após alta hospitalar

Os resultados também indicam que pacientes internados com sintomas como perda de olfato e paladar tiveram evolução mais favorável da doença


07 de junho de 2021 - , , , , , ,



Uma boa notícia é a da pesquisa em andamento realizada pela Faculdade de Medicina da UFMG com pacientes que foram internados por covid-19. Resultados preliminares, coletados em 180 participantes, indicam que cerca de seis meses após a alta hospitalar há melhora significativa na capacidade respiratória, mesmo naqueles que tiveram manifestações mais intensas da doença.

O estudo foi iniciado em julho do ano passado para analisar possíveis sequelas da covid-19 e período de permanência, em pacientes internados no Hospital das Clínicas da UFMG, Eduardo de Menezes e Júlia Kubitschek, seja na enfermaria, para o recebimento de oxigênio, ou no Centro de Terapia Intensiva (CTI).

Cerca de 430 pessoas estão sendo acompanhados pela pesquisa, que realiza avaliação clínica da capacidade pulmonar e fraqueza muscular periférica e avaliação subjetiva da qualidade de vida após um mês da alta hospitalar até o período de um ano e meio. Um total de 180 pessoas já estão na segunda etapa de avaliação, feita seis meses após a alta hospitalar, e dez realizam as avaliações após um ano.

Resultados

De acordo com a coordenadora do estudo e professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, Carolina Marinho, mais de 20% dos participantes que passaram pela primeira avaliação tiveram alteração da função pulmonar, especialmente alterações restritivas, ou seja, na capacidade de acomodar ar dentro do pulmão, assim como na capacidade de realizar trocas gasosas. Essas alterações são responsáveis por manter a falta de ar e foram identificadas mesmo em pessoas com manifestações menos intensas da doença.

Mas os resultados preliminares da segunda fase, coletados em 180 participantes, indicam que seis meses após a alta hospitalar há uma melhora na capacidade respiratória e de fazer exercício (os participantes conseguem percorrer maior distância no teste de caminhada). Isso tanto em pacientes internados que tiveram manifestações mais leves quanto os que tiveram manifestações mais intensas.

No entanto, como a pesquisa ainda está em andamento, não se sabe se essa melhora é natural ou resultado do processo de reabilitação.

“Muitos completaram a reabilitação e alguns nem completaram por que não precisaram. Mas o que vimos é que quem sobrevive de fato melhora após esse tempo”, analisa a coordenadora.

Os resultados também indicam que não houve diferença entre gênero ou faixa etária. Mas devido ao perfil epidemiológico da covid-19 no período de adoecimento dos participantes, a média de idade do grupo que está em acompanhamento no estudo é de 59 anos.

Covid longa x síndrome pós-covid-19
Genericamente, a covid longa caracteriza-se quando há sintomas persistentes mais ou menos três meses após a fase aguda da covid-19. Já a síndrome pós-covid é caracterizada quando o paciente teve resolução completa da fase inicial, mas ainda lida com sintomas adicionais e sequelas após 12 semanas. Entenda melhor o que é a síndrome pós-covid no programa de rádio Saúde com Ciência desta semana.

O que causa a falta de ar?

Carolina Marinho explica que a causa para alterações na capacidade respiratória e que leva à falta de ar é multifatorial. Isso significa que pode ser consequência do processo inflamatório produzido pelo vírus ou do processo inflamatório adicional produzido pelo tratamento, como ventilação mecânica e oferta de oxigênio, por infecções secundárias causadas por bactérias ou por alterações da circulação com formação de coágulos na circulação pulmonar e na microcirculação.

Outra possibilidade é de comprometimento gerado pela própria imobilidade durante a internação, que produz processo inflamatório da própria musculatura respiratória. “São muitos fatores que podem estar envolvidos. Então, a gente continua no processo de estudar alguns deles para ver quais são importantes”, pontua Carolina.

Olfato e paladar

Outro resultado indicado pelo estudo e que já vem sendo descrito na literatura científica é o de menor necessidade de ventilação mecânica ou de internação no CTI naqueles pacientes que tiveram alterações no olfato e paladar no início da doença.

“O que a literatura mostra é que esse fator parece estar relacionado com frequência de receptores que podem captar o vírus já na via aérea superior. Então aparentemente, essa pessoa tende a concentrar mais a doença nas vias aérea superiores”, explica Carolina Marinho.

Próximos passos

Os participantes também realizaram análise subjetiva da qualidade de vida por meio de questionário que analisa cinco domínios: mobilidade, autocuidado, atividades usuais, domínio da dor e saúde mental (ansiedade e depressão).  Nessa primeira análise, um mês após a alta, foram relatados impactos no estado emocional com sintomas de ansiedade e depressão. No entanto, ainda não é possível saber se houve melhora após seis meses. Isso porque, como a pesquisa ainda está em andamento, essas dados não chegaram a ser analisados.

Por isso, a pesquisa prossegue com as análises comparativas da capacidade funcional pulmonar, de exercícios e da qualidade de vida após seis meses e após um ano da fase inicial da recuperação. Também será feita avaliação cognitiva global para identificar alterações mais persistentes em pacientes que passaram dos seis meses da alta hospitalar.

Leia também: Dor, depressão e ansiedade podem estar entre as sequelas da covid-19

Síndrome pós-covid

O que acontece quando os sintomas relatados na pesquisa, como a falta de ar, duram não apenas semanas, mas meses? Especialistas estimam que esse será o caso de pelo menos 70% dos recuperados, que irão ter algum sintoma até seis meses depois do diagnóstico da doença. Esse fenômeno é tão marcante que tem nome: é a “síndrome pós-covid”. Na série desta semana, entenda melhor o que é, como lidar e quais os impactos dessa síndrome. 

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.