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Pesquisa estima pelo menos 18% de subnotificação de óbitos por covid-19 no país

Análise criteriosa de declarações de óbito por causas relacionadas com a covid-19 no início da pandemia apontou subnotificação importante devido à imprecisão na definição da causa básica.


11 de maio de 2022 - , , , , , , ,


Estimativa é conservadora e revela cenário ainda pior do que o registrado oficialmente. Imagem: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real.

Um estudo coordenado pelo Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação em Saúde (GPEAS), ligado ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, analisou atestados de óbito de causas relacionadas à covid-19 no início da pandemia e estimou uma subnotificação de 18% no número de mortes no país. Os resultados foram publicados na revista internacional PLOS Global Public Health na última quinta-feira, dia 5 de maio.

Foram analisados 1.365 casos de óbitos ocorridos entre fevereiro e junho de 2020 nas cidades de Belo Horizonte (MG), Salvador (BA) e Natal (RN), assinalados nos registros oficiais como por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), pneumonia não especificada, sepse, insuficiência respiratória e causas mal definidas. O estudo teve colaboração da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte e das Secretarias Municipais de Saúde de Belo Horizonte e de Salvador. O financiamento foi da Vital Strategies. 

Após cruzamento das bases de dados sobre mortalidade, a equipe de pesquisa coletou dados de prontuários médicos, exames e outras informações sobre cada caso e analisou se a causa básica deveria ser assinalada como covid-19. “Muitas vezes o óbito ocorreu antes dos exames ficarem prontos, de forma que o médico assistente declarou como causa básica uma causa mal definida ou uma doença que, na verdade, foi uma intermediária no processo mórbido. Em outros casos, a demanda de trabalho para as equipes de saúde era tão grande que ocorreram erros no registro das causas de morte, como a inversão de causas intermediárias com a causa básica”, explica a professora aposentada da Faculdade de Medicina da UFMG e atual convidada do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública, Elisabeth França, que coordenou o estudo. 

A identificação da provável causa básica de morte como óbito por covid-19 nas três capitais analisadas foi relevante. Quase um quarto das mortes investigadas foram, de fato, casos da doença. “Esse cenário tem implicações para as estatísticas vitais do país, pois temos um número importante de óbitos por causas garbage em cada estado que pode ocultar essa doença. A partir dos resultados da pesquisa, estimamos que o número de óbitos pela doença no Brasil em 2020 está subestimado em pelo menos 18%”, afirma a pesquisadora.

Desde 2016, o GPEAS atua em pesquisas de saúde pública envolvendo causas garbage, conceito que se refere a uma causa assinalada como sendo a causa do óbito nas estatísticas de mortalidade, mas que não foi de fato a causa básica (ou seja, a doença ou acidente/violência que iniciou a cadeia de eventos que levou ao óbito), sendo uma causa intermediária ou pouco específica, portanto pouco útil para a formulação de políticas de prevenção. Para saber mais sobre o tema, acesse o suplemento da Revista Brasileira de Epidemiologia.

Os pesquisadores observaram maior subnotificação entre idosos (25,5%) do que em menores de 60 anos (17,3%) nas cidades estudadas. Com a referência em mãos, foi estimada a subnotificação para o perfil epidemiológico do país, considerando a idade, o estado de residência e a causa garbage específica registrada nos sistemas oficiais de mortalidade. Após essa análise, os pesquisadores chegaram à estimativa de subnotificação de 18% das mortes por covid-19 no ano de 2020. 

Essa estimativa é considerada conservadora pelos autores do estudo, uma vez que o número de doenças associadas à covid-19 que foi analisado no estudo era limitado. Outras causas não garbage  como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) não entraram no estudo, mas poderiam aumentar a porcentagem da subnotificação. Outro fator considerado conservador na análise estatística foi a utilização de dados globais de fevereiro a junho para cálculo da estimativa, que poderia ser maior se os números fossem projetados a partir dos resultados encontrados em maio e junho somente, período coincidente com o início da fase mais crítica da epidemia.

Dessa forma, somente no ano de 2020 a subnotificação de óbitos por covid foi de 37.163 casos, segundo a estimativa. A equipe da pesquisa entende que os dados chamam a atenção para o fato de a pandemia ter sido ainda mais grave no país, além de evidenciar a importância dos registros adequados para a formulação de políticas de saúde pública. “Depende do médico a definição da causa que será declarada como básica para o óbito. Precisamos investir na infraestrutura dos serviços de saúde, pois a não disponibilidade de resultados de exames no momento do óbito pode ter sido um dos principais fatores para a subnotificação. Também devemos capacitar melhor os profissionais para o preenchimento adequado das declarações de óbito e melhor compreensão de sua importância em saúde pública. As escolas médicas têm falhado nesse quesito, por não incluírem com prioridade no currículo o enfoque da análise epidemiológica da situação de saúde com uso das informações estatísticas sobre causas de mortalidade”, analisa França.

A declaração das causas de morte segue o modelo padronizado de declaração de óbito recomendado pela Assembleia Mundial de Saúde desde 1948, e utilizado internacionalmente. Este modelo consta de duas partes. A causa básica deve ser declarada na última linha da parte 1, estabelecendo uma sequência de baixo para cima até a causa terminal. As condições mórbidas sem relação direta com a morte devem ser declaradas na parte 2.

Outra autora do estudo e integrante do GPEAS, Daisy de Abreu avalia as declarações de óbito como fundamentais para a saúde pública. “As declarações de óbito são fundamentais para as informações que norteiam a saúde pública. É claro que num quadro de epidemia as coisas são mais complexas, mas o que poderia melhorar a qualidade da informação é um investimento na capacitação dos profissionais de saúde em relação às estatísticas de saúde, desde sua formação”, pontua.

Acesse a íntegra do artigo clicando aqui.

GPEAS

O GPEAS congrega profissionais com características multidisciplinares que atuam em diferentes departamentos e unidades da UFMG (Medicina, Farmácia, Enfermagem e Estatística), bem como de instituições externas, como o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) of Washington University e Melbourne University. 

O principal interesse de pesquisa do grupo é produzir análises de situação de saúde e avaliação de serviços de saúde. Conduz projetos de pesquisa que visam a avaliação de iniciativas para melhoria da informação sobre mortalidade no Brasil, em parceria com o Ministério da Saúde desde 2016.