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População negra é mais vulnerável ao novo coronavírus

Racismo institucional dificulta acesso aos serviços de saúde, segundo professor da Faculdade de Medicina


07 de Maio de 2020 - , , , ,


Pessoas pretas e pardas sofrem com negligenciamento à saúde no país. Elineudo Meira / Fotos públicas / CC BY-NC 2.0

De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado na semana passada, 60% das pessoas hospitalizadas por síndrome respiratória aguda grave no Brasil são brancas. Quando se observam os números de mortes ocasionadas por essa mesma síndrome, com a confirmação da covid-19, os brancos representam 52% das vítimas. Já as pessoas pardas ou pretas representam 37% dos pacientes hospitalizados e 45% das mortes confirmadas por covid-19. Com isso, entidades denunciam que as populações negras estão mais vulneráveis ao coronavírus do que os brancos.

O Ministério da Saúde começou a informar a cor ou raça das pessoas infectadas pela doença no dia 10 de abril, atendendo a um pedido da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e da Coalizão Negra por Direitos. No entanto, esses dados, segundo especialistas, dizem menos da incidência da doença do que da desigualdade no acesso à saúde no Brasil. Um desses especialistas é o coordenador da Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade, Ricardo Alexandre de Souza, professor da Faculdade de Medicina da UFMG.

Em entrevista ao programa Conexões, da Rádio UFMG Educativa, nesta quarta-feira, 6, Ricardo de Souza alertou para o negligenciamento no atendimento a pessoas pretas e pardas nos serviços de saúde do país. Segundo o médico, o baixo número de testes disponíveis no país está contribuindo para a subnotificação da covid-19 nessas pessoas.

“Provavelmente, as pessoas de cor preta e parda estão sendo negligenciadas e estão tendo menos acesso a atendimento e a exames. Isso é real e causa uma falsa informação de que os brancos são mais infectados, o que é bem improvável”, avaliou.

O especialista alertou, no entanto, que a falta de exames para detecção da covid-19 é uma realidade não só do Sistema Único de Saúde (SUS), mas também da rede particular. “Hoje, na rede pública, os exames são feitos em casos graves e de morte. Na rede privada, só em casos extremos, nem mesmo em todos os casos graves”, explicou.

Trabalho x atenção à saúde

Em sua experiência como médico de família no país, Ricardo de Souza observa que, no caso das pessoas pretas e pardas, há, no Brasil, um conflito maior entre o adoecer e o se cuidar. De acordo com dados do IBGE de 2019, dos 13,5 milhões de brasileiros vivendo em extrema pobreza, 75% são pretos ou pardos. 

Por terem de trabalhar para garantir o sustento e ocuparem grande parte dos subempregos e das atividades informais, o que as expõe a um risco maior e frequente, essas pessoas só procuram o atendimento em último caso. “Elas não procuram atendimento nos primeiros sintomas, não são diagnosticadas, Quando os casos se agravam e elas chegam ao hospital, normalmente não há mais tempo de reversão”, afirmou.

De acordo com o médico, a situação, “que já é ruim para todos”, para a pessoa preta é ainda pior, porque começa com a desigualdade social que leva, entre outras coisas, à falta de acesso ao hospital.

“Não há como discutir que há um racismo estrutural. A gente precisa reconhecer as desigualdades étnico-raciais, e esse racismo institucional é um determinante social das condições de saúde dessas pessoas. Precisamos promover a equidade de saúde, melhorando, assim, suas condições de vida”

defende Ricardo de Souza.

 Ouça a conversa do professor com Luíza Glória:


(Produção de Alessandra Ribeiro- Rádio UFMG Educativa)