Primeiro ultrassom funcional cerebral do Brasil chega à UFMG
Centro de Tecnologia em Medicina Molecular vai criar plataforma pré-clínica de pequenos animais que permite observar atividade cerebral em tempo real com 100x mais sensibilidade; Nova tecnologia francesa potencializa a pesquisa translacional
07 de agosto de 2025 - revolucionário, ultrassom cerebral

Parece algo distante no tempo, mas a UFMG já adquiriu um equipamento capaz de observar o cérebro em ação, em tempo real, com uma precisão 100 vezes maior do que a do ultrassom comum.
O primeiro ultrassom funcional cerebral do Brasil acaba de chegar ao Centro de Tecnologia em Medicina Molecular (CTMM), da Faculdade de Medicina da UFMG.
“Trata-se de um passo decisivo para a ciência translacional e para o uso mais responsável e ética de animais de pesquisa”, comemora o professor Marco Aurélio Romano-Silva, coordenador do CTMM e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurotecnologia Responsável (NeuroTec-R).
Segundo ele, o equipamento francês Iconeus One, que tem financiamento da Finep, inaugura no Brasil uma nova era em neuroimagem pré-clínica. Baseado em ultrassom funcional (fUS), esta tecnologia permite observar o fluxo sanguíneo cerebral com altíssima sensibilidade e excelente resolução temporal e de forma não invasiva.
Isso significa dizer que se trata de um procedimento ou tratamento que não envolve cortes, perfurações ou inserções no corpo.
Essa tecnologia abre uma janela dinâmica para o funcionamento do cérebro. Ao captar variações no fluxo sanguíneo, o fUS permite mapear a atividade cerebral com precisão quase milimétrica.
Na prática, isso significa a possibilidade de acompanhar mudanças neurológicas ao longo do tempo em experimentos com pequenos animais — algo essencial para estudar doenças como epilepsia, Parkinson e Alzheimer.
Menos animais, mais dados, melhor ciência
Além de revolucionar a neuroimagem, o Iconeus One fortalece o compromisso ético do CTMM com os princípios 3R (Replace, Reduce, Refine).
Como os exames são não-invasivos, os mesmos animais podem ser acompanhados em diferentes fases da pesquisa. Isso reduz significativamente a quantidade necessária em cada experimento, permitindo coletas longitudinais e, ainda, melhorando a reprodutibilidade dos dados.
“Esse tipo de plataforma permite refinar os experimentos e gerar resultados mais confiáveis com menos animais. Isso é ciência de ponta com responsabilidade”, resume o professor Marco Aurélio Romano-Silva.
Da pesquisa básica à clínica, e vice-versa
A instalação do equipamento também marca o início de uma plataforma de imagem pré-clínica na Faculdade de Medicina da UFMG, conectando o laboratório à clínica. Essa abordagem translacional, conhecida como “bench to bedside”, busca acelerar o caminho entre as descobertas científicas e o cuidado com o paciente.
Ao integrar essa nova ferramenta ao portfólio do CTMM, os pesquisadores passam a ter mais uma ponte entre a pesquisa fundamental e os ensaios clínicos.
A ultrassom funcional pode se somar, ou substituir parcialmente, métodos mais caros ou invasivos, como a ressonância magnética funcional (fMRI), especialmente em estudos que exigem alta resolução temporal ou longa duração.
Um novo capítulo para o CTMM
A chegada da nova tecnologia não apenas coloca o Brasil entre os países com acesso a métodos de neuroimagem funcional de última geração, como também cria as condições para iniciativas pioneiras em colaboração internacional, inovação e formação de novos talentos.
Ao abrir essa janela inédita para o cérebro, o CTMM está, na verdade, abrindo portas para o futuro da pesquisa biomédica no Brasil.
Próximos passos
A expectativa é de que, ainda em 2025, a nova plataforma de imagem pré-clínica comece a ser usada em colaborações com grupos da UFMG e de outras instituições.
Os projetos do NeuroTec-R vão permitir estudar redes cerebrais, neurodesenvolvimento, comportamento e os efeitos de neuromodulação.
Também será possível aplicar a tecnologia em pesquisas sobre doenças neurodegenerativas e em estratégias terapêuticas baseadas em neurotecnologias implantáveis e não implantáveis.
Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG