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Problemas de visão causados pelo zika são multifatoriais

Alterações podem ser neurológicas ou na formação de tecidos oculares


11 de janeiro de 2021 - , ,


“Prima” da dengue e da chikungunya, a zika parecia uma doença mais branda que as outras transmitidas pelo Aedes aegypti. Mas o aumento do número de casos de crianças nascidas com microcefalia acendeu um alerta para o potencial da doença. Cinco anos depois, já se sabe que o zika vírus pode causar lesões cerebrais nos feto em diferentes graus, a chamada síndrome congênita do zika – o que pode levar a diversos problemas nas crianças como desproporção craniofacial, contrações musculares involuntárias, convulsões, irritabilidade, problemas para engolir e alterações auditivas e oculares. No caso das alterações oculares, não se trata só de um mecanismo cerebral.

Cinco anos após a epidemia do zika, o Saúde com Ciência faz um balanço sobre as descobertas sobre o vírus e sobre a síndrome congênita. Clique e ouça.

Ainda em 2016, quando o Brasil passava por uma epidemia do zika, pesquisadores de Pernambuco, estado que concentrava o maior número dos nascimentos de crianças com a síndrome, descobriram uma relação entre o zika e alterações no fundo de olho (que corresponde à retina e ao nervo óptico), comprometendo a visão das crianças. “Até então, a gente considerava na oftalmologia que, toda vez que uma criança tinha zika, a gente tinha que explorar a visão dela porque havia uma possibilidade de dano neurológico, que a gente chama de deficiência visual relacionada ao dano neurológico, mas também que a gente tinha que procurar alterações na retina”, relembra o professor do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia, Galton Vasconcelos.

O docente conduziu um estudo, publicado na forma do artigo “Corneal ectasia and high ametropia in na infant with microcephaly associated presumed zika vírus congenital infection: new ocular findings”, que levanta a hipótese que as alterações não estariam somente no fundo de olho, mas também na córnea. “A gente descrever o que acreditamos ser o primeiro paciente de zika no mundo com alterações corneanas. Essas alterações criam graus exagerados de astigmatismo. Em uma criança que está muito pequenininha em desenvolvimento, vai gerar um borramento da imagem muito tenso e uma condição que a gente chama de amiopia, que significa que a visão não se desenvolve porque está muito borrada”, detalha Vasconcelos.

“Não só crianças com alterações de fundo de olho, de retina, poderiam ter problemas na visão, somadas a alterações neurológicas, mas também o déficit visual poderia ser associado às alterações da córnea – chamadas de alterações refrativas”

pontua Vasconcelos

O estudo é relevante por dois motivos: primeiro, ele abre a possibilidade de que vírus pode atacar outros tecidos embrionários, que não o neurológico. Esse questionamento é importante para novas investigações científicas. Em segundo lugar, o estudo do professor Galton Vasconcelos faz necessário um exame oftalmológico mais caprichado nas crianças com síndrome do zika. “Isso mostra para gente que toda criança que tenha o zika vírus precisa ter toda a parte neurológica e oftalmológica estudada. E muita atenção aos graus refracionais altos”, sugere.

“A nossa paciente tinha sete graus de astigmatismo e isso realmente compromete o desenvolvimento da visão”

Achados semelhantes vem sendo descobertos por pesquisadores do Ceará, Mato Grosso e Fortaleza. Para avaliar os resultados, uma nova etapa da pesquisa vai ser realizada em parceria com pesquisadores desses estados para avaliar melhor essas alterações e aprofundar os estudos nas deficiências visuais dessas crianças, área ainda carente de literatura médica.

Conhecimento sobre o zika vírus

Na virada de 2015 para 2016, o zika vírus se propagou rapidamente. Quando foi identificado pela primeira vez no país, em maio de 2015, a doença era considerada uma prima da dengue e da chikungunya, mas com sintomas mais brandos. Mas um surto de bebês com microcefalia no nordeste brasileiro acendeu um alerta do potencial daquele vírus e dos danos neurológicos causados pelo microrganismo. Cinco anos depois, o Saúde com Ciência investiga os avanços científicos e apresenta os desafios enfrentados pelas crianças com a síndrome congênita do zika. Confira a programação:

:: O que se sabe do zika vírus?
:: Além da microcefalia: síndrome congênita do zika
:: A luta das famílias
:: Problemas de visão
:: Vacina: uma esperança

Sobre o Programa de Rádio

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.