Acesso interno

Professor da Faculdade de Medicina é primeiro brasileiro presidente de sociedade internacional em doença de Parkinson


22 de novembro de 2021 - , , , , ,


Francisco Cardoso é eleito presidente da International Parkinson Disease and Movement Disorders Society. Foto: acervo pessoal.

A vasta experiência na área de Neurologia, com mais de três décadas de dedicação à pesquisa em doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento, proporcionou ao professor Titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Francisco Cardoso (FC), reconhecimento inédito em um dos um dos cargos mais importantes da área. Eleito presidente da International Parkinson Disease and Movement Disorders Society (2021-2023), o professor é o primeiro brasileiro a assumir a presidência dessa sociedade internacional, que se dedica a melhorar o atendimento de pacientes com distúrbios do movimento por meio de educação e pesquisa.

A posse foi realizada durante o MDS Virtual Congress 2021, em 18 de setembro, e reafirma o brilhantismo da trajetória do professor, que já foi citado como um dos pesquisadores mais influentes do mundo pela Updated science-wide author databases of standardized citation indicators.

Em entrevista ao Centro de Comunicação da Faculdade de Medicina da UFMG (CCS), Cardoso conta um pouco sobre a sua trajetória, quais foram suas principais referências, assim como desafios da atualidade para a área.

Leia a seguir:

(CCS) Por que o senhor se interessou por essa área? Qual foi o início dessa longa trajetória?

(FC) Isto tudo começou no Ambulatório Bias Fortes sob a influência do infelizmente falecido Professor Titular de Neurologia e, depois, Emérito, Gilberto Belisário. Durante a minha Residência em Neurologia aqui no Hospital das Clínicas, chamou-me a atenção o interesse que o professor Belisário tinha por o que se chamava então “doenças extrapiramidais” e que agora denominamos “distúrbios do movimento”. Esta parte da Neurologia inclui a doença de Parkinson e outros problemas como tremores e coreias. Um aspecto a ressaltar é que tanto ele como o professor José Teotonio de Oliveira, agora aposentado, sempre tiveram uma percepção clara da necessidade de se internacionalizar para melhorar a formação e tornar possível colaborações.

Em época onde isto não era habitual no nosso meio acadêmico, ambos tiveram sua formação fora do Brasil. E os dois sempre me incentivaram a trilhar um percurso semelhante, de modo que ao terminar a Residência – que fiz em paralelo com Mestrado no nosso ICB sob a orientação da professora Conceição Machado – fui para os Estados Unidos, onde treinei especificamente em movimentos anormais, sob a orientação do professor Joseph Jankovic, no Baylor College of Medicine, em Houston.          


(CCS) O senhor é professor Titular da UFMG, já foi citado como um dos pesquisadores mais influentes do mundo e, agora, presidente eleito da International Parkinson’s Disease and Movement Disorders Society (MDS). O que esses reconhecimentos representam para o senhor?

(FC) À época, o processo de escolha de Titulares era substancialmente diferente do atual. O ter me tornado Professor Titular aqui na Faculdade foi muito importante, em especial porque, lamentavelmente, não fiz minha graduação aqui na UFMG. Quando olho para trás e vejo a sucessão de pessoas notáveis que detiveram este título, como o próprio professor Belisário e até mesmo o professor Alfredo Balena (que nos idos de 1920 publicou o primeiro trabalho brasileiro sobre coreias), mais do que orgulho sinto imensa responsabilidade e obrigação de manter o nível da nossa escola.

Quanto a ser citado pelo “Updated science-wide author databases of standardized citation indicators” como um dos pesquisadores mais influentes do mundo, naturalmente me causou contentamento. No entanto, é necessário ter olhar crítico quanto a essas métricas. É possível que o julgamento mais importante seja o da posteridade. Um exemplo não científico nessa linha é a avaliação de Johann Sebastian Bach. É praticamente unânime que Bach seja o compositor mais importante do Ocidente de todos os tempos. Surpreendentemente, porém, no fim de sua vida havia poucos que apreciassem sua produção e por muitas décadas sua obra caiu na obscuridade. Foi necessário que Felix Mendelssohn redescobrisse a Paixão Segundo São Mateus, já no século XIX, para que se tivesse ideia do valor incomparável da obra de Bach.  A presidência da MDS, certamente o cargo mais importante na área de movimentos anormais, é um grande reconhecimento à atuação profissional de quem ocupa essa posição.

É necessário destacar, porém, que apesar da parte da formação ter sido no exterior e me manter continuamente em contato com amigos e colegas de fora, as realizações científicas foram todas resultado do trabalho aqui na Faculdade e, mais especificamente, no Ambulatório Bias Fortes.

E uma vez mais me aproprio de uma mineiridade que, pelo acaso, me faltou no berço: o modo de se resolver conflitos em Minas Gerais é de significativa importância para se administrar uma Sociedade complexa como a MDS.


(CCS) O que significa ser presidente da International Parkinson Disease and Movement Disorders Society? Quais as principais contribuições o senhor almeja como presidente?

(FC) Na pergunta anterior já mencionei meus sentimentos. Mas não posso me furtar a parafrasear o maior escritor saído da Faculdade da UFMG, Pedro Nava, que no início de seu Baú de Ossos parafraseia o Eça, ao dizer “eu, pobre moço do caminho Novo de Minas Gerais”. A minha versão é “eu, pobre moço das lagoas de Maceió…” As três prioridades que anunciei nas minhas palavras de posse na presidência da Sociedade, em 18 de setembro passado, foram relançar a MDS numa era que parece querer deixar a pandemia de Covid-19 para trás; incrementar a diversidade no que há de mais amplo dentro da nossa organização: gênero, etnia, geografia, religião e orientação sexual; e aumentar o foco em cuidado clínico. Este último ponto é o mais fundamental, já que há globalmente numerosas e preocupantes ameaças à soberania da clínica. 


(CCS) Como o senhor avalia a evolução da ciência no tratamento da Doença Parkinson (DP)? Temos avançado ou ainda podemos muito mais?

(FC) Não se pode ignorar que a doença de Parkinson permanece progressiva e incurável. Mas os progressos em diagnóstico e terapêutica são significativos de modo que qualidade de vida e mesmo longevidade de seus portadores aumentaram apreciavelmente nas últimas décadas. Mas há mais o que ser feito.


(CCS) Qual foi uma das principais descobertas sobre a doença nos últimos anos?

(FC) Quanto ao entendimento do que causa a doença, eu menciono a percepção que genes desempenham papel expressivo em sua causa. Na imensa maioria das vezes, os genes são fatores que tornam mais provável desenvolver a doença, ainda que não a determinem. Estudo mais minucioso das vias nas quais esses genes estão envolvidos abriu a perspectiva de novos alvos terapêuticos. Um pouco ligado a esse primeiro ponto é o achado que uma proteína anormal (alfa-sinucleína) parece ser a causadora do dano neuronal na DP. Há, em curso, vários estudos com a finalidade de modificar a concentração dessa proteína no cérebro. Por fim, ainda que casos selecionados e que representam pequena proporção dos portadores de DP, cirurgias com estimulação profunda de algumas áreas cerebrais podem melhorar muito o controle sintomático dos doentes, ainda que não produzam cura ou mesmo parada do uso de medicamentos.  


(CCS) O que ainda precisa ser feito? Quais são os principais desafios?

(FC) Há vários sintomas e sinais que permanecem pouco ou nada sensíveis a tratamentos disponíveis agora: alterações posturais, distúrbios de marcha, desequilíbrio e um grupo razoavelmente amplo de problemas não-motores como demência e outros. E, claro, a exemplo do outro Santo Graal, a cura permanece elusiva.

Francisco Eduardo Costa Cardoso – Possui graduação em Medicina pela Escola de Ciências Médicas de Alagoas (1986), mestrado (1991) e doutorado (1994) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Fez Residência Médica em Neurologia no Hospital das Clínicas da UFMG (1988-1991) e Clinical Post-Doctoral Fellowship (1991-1993) no Parkinsons Disease Center and Movement Disorders Clinic, Baylor College of Medicine, Houston, TX, EUA, sob a supervisão de Joseph Jankovic MD (1991-1993). Atualmente é Professor Titular (Departamento de Clínica Médica – Neurologia) da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele foi eleito para o cargo de President Elect da International Parkinson and Movement Disorder Society. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Neurologia, atuando principalmente nos seguintes temas: doença de Parkinson, coréia de Sydenham e outras manifestações neurológicas de febre reumática, anticorpos anti-núcleos da base, coréias em geral e outros distúrbios do movimento. Suas publicações na base de dados Web of Science têm índice H = 30, na base Scopus de 35 e de 46 no Google Scholar.