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Retrato do Brasil profundo: comunidades do Vale têm dificuldades no acesso à saúde

ObservaPed esteve no Vale do Jequitinhonha. Povoados relatam dificuldades com remédio e equipes médicas


    28 de janeiro de 2020 - , ,


    Antônio Paiva e Lethícia Pechim *

    Problemas de acesso ao sistema de saúde nos povoados rurais de Santa Rita (no município de José Gonçalves de Minas) e Vargem do Setúbal (em Chapada do Norte), ambas na região do Vale do Jequitinhonha, geram uma série de dificuldades para a população. Falta de médicos e remédios são alguns dos problemas relatados, comuns às regiões mais afastadas dos centros urbanos.

    Essas questões foram levantadas durante a cobertura do 4° ObservaPed Itinerante, projeto do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG realizado pela terceira vez no Vale do Jequitinhonha. Os moradores de Santa Rita, como Maria Eloíza Sousa, de 64 anos, relataram a realidade enfrentada. “Remédio gratuito aqui não tem. Se tiver dinheiro compra, se não tiver, só Deus… Já procurei esses remedinhos mais fáceis, como dipirona, e não achei”, lamenta.

    A secretária de Saúde do município, Flávia Ferreira, atribui o problema da falta de remédios ao governo do estado. Ela diz que José Gonçalves de Minas segue uma ata estadual que obriga as cidades a comprarem dos fornecedores solicitados pelo estado. No entanto, muitos deles não cumprem o prazo e os fármacos demoram a chegar.

    Comunidade Santa Rita aguarda para participar das atividades do ObservaPed Itinerante em uma escola. Foto: Lethícia Pechim/Faculdade de Medicina da UFMG

    Em entrevista realizada em dezembro de 2019, Flávia Ferreira conta que o repasse de remédios de novembro do mesmo ano ainda não haviam chegado. “Não é uma coisa contínua. Se este mês faltou X medicamentos, daqui um ou dois meses este medicamento com certeza vai ter chegado, mas, infelizmente, outro medicamento que compramos no primeiro ciclo vai estar em falta”, comenta a secretária.

    Além da falta de remédios, Maria Eloíza também comenta a falta de frequência dos médicos. “Assistência de saúde até que tem, mas não é muito frequente. Às vezes vem um médico uma vez por semana ou de 15 em 15 dias”, relata.

    A filha de Maria Eloíza, Elia Souza Santos de 29 anos conta que nos últimos meses do ano de 2019 o povoado estaria sem médicos. “A única qualidade que temos na saúde é o médico, mas ultimamente nem isso está tendo mais, já que tirou férias”, conta. A secretaria de saúde alega que, por condições financeiras do município, eles não conseguiriam contratar um médico para substituir durante as férias do outro. “Não consigo achar um médico e fazer um contrato dele por 30 dias só para cobrir férias” afirma a secretaria, que garantiu a volta do profissional em janeiro.

    Número de habitantes afeta acesso à saúde

    “São só dois postos para atender 23 comunidades e, devido a quantidade da população, não conseguimos abrir outro. Para atender todas as comunidades temos que ser itinerantes e em cada semana ele está em uma comunidade” afirma Flávia. As duas unidades precisam dividir as atividades para atender todas essas comunidades, por isso existe um cronograma fixo de um médico, enfermeiro e técnico de enfermagem, assim como a equipe de saúde bucal e o fisioterapeuta, que se deslocam semanalmente para cada comunidade.

    Essa equipe atua em José Gonçalves de Minas por conta da Estratégia Saúde da Família (ESF). A ESF tem como objetivo promover a qualidade de vida da população do país e interferir nas condições que colocam a saúde em risco, por meio da Atenção Básica. A população do município é de cerca de 4.600 habitantes, o que, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, permite a implementação de duas unidades, seguindo critérios do Ministério da Saúde.

    Saúde na comunidade quilombola

    Assim como em Santa Rita, a comunidade quilombola de Vargem de Setúbal, sediada no município de Chapada do Norte, também enfrenta problemas no acesso à saúde. “Não temos uma equipe de ESF por causa do número de habitantes, que ainda não é o que dá para criar uma estratégia completa. Os profissionais vêm uma ou duas vezes por semana atender”, comenta Carlos Soares, coordenador da Achanti (Associação Chapadense de Assistência às Necessidades do Trabalhador e da Infância).

    A comunidade conta com uma equipe de enfermagem, para atender nos casos de falta de médicos. No entanto, o povoado carece de uma ambulância para levar os pacientes para hospitais. Atualmente, a população usa um carro que não é apropriado. “Todo município trabalha dessa forma, socorrendo com este carro, um carro comum”, afirma Carlos Soares.

    Outro entrave presente em Santa Rita que também aparece em Vargem do Setúbal é com relação a obtenção de remédios. O coordenador da Achanti explica que, apesar do direito aos medicamentos básicos protocolados pela Lista Rename (uma relação de medicamentos essenciais para se ter no Sistema Único de Saúde), existe restrição no acesso.

    Em 2020, a lista do Rename apresenta 921 remédios e insumos que são fundamentais para se obter no SUS.

    Confira esses e outros temas levantados durante o 4° ObservaPed Itinerante no especial do Saúde com Ciência. Os programas abordam, ainda, a gravidez na adolescência e os boatos sobre fechamento de uma escola pública.

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    * Estagiários de Jornalismo
    Edição: Vitor Maia