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Retrospectiva da saúde: eventos climáticos, vacinação e variantes da covid marcam 2021

De neve no sul ao abandono indígena no norte. Confira os principais acontecimentos na área da saúde.


03 de janeiro de 2022 - , , ,


Alterações climáticas, surgimento de novas variantes do coronavírus e vacinação contra a covid-19 deram a tônica do ano de 2021. O programa de rádio “Saúde com Ciência” relembra os principais acontecimentos em saúde que ocorreram nesse ano que passou, com as principais falas dos especialistas da UFMG. A retrospectiva também aborda os impactos desiguais da pandemia na população negra e indígena, bem como pesquisas e trabalhos protagonizados pela UFMG e que foram destaques no mundo.

MEIO AMBIENTE PEDE SOCORRO

Na área ambiental, 2021 foi um ano de recordes alarmantes. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estimaram aumento no desmatamento da Amazônia Legal de 21,97% em relação ao ano anterior.

“Com o desmatamento, vamos ter piora da qualidade do ar. Além disso, temos determinados insetos e transmissores de doença que, quando estão naquele ambiente natural não tem problema, mas quando você desmata, esses vetores podem ir para a casa das pessoas, podem se domiciliar. Com isso, tem a possibilidade de transmissão de doenças, como a febre amarela, dengue, chikungunya e por aí vai”, alerta o coordenador do Projeto Manuelzão e professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, Marcus Vinícius Polignano.

Em entrevista concedida ao “Saúde com Ciência” em setembro, ele lembra que o desmatamento também interfere nos recursos hídricos. Em 2021, o país experimentou a maior seca dos últimos 91 anos, que reduziu a níveis críticos reservatórios no Centro-Sul do país.

O último ano também foi de cenas lamentáveis de queimadas. Segundo o Inpe, os biomas de Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica contabilizaram somente de 1 de janeiro a 23 de agosto mais focos de incêndios do que o total registrado nos oito primeiros meses de 2020. A Mata Atlântica, por exemplo, registrou o maior número de queimadas dos últimos 15 anos.

Nessa retrospectiva do “Saúde com Ciência”, vale também lembrar dos eventos extremos vivenciados em 2021, com recordes de calor no Hemisfério Norte, neve no sul do Brasil e enchentes em países da Europa, na Índia e na China. Nos últimos dias, mais de 100 cidades na Bahia e em Minas declararam situação de emergência por causa das chuvas fortes que elevaram o nível da água. Somente na Bahia, o número de desabrigados passou de 90 mil.

Todos esses eventos evidenciam a crise climática e seus efeitos para a saúde da população e acendem o alerta para a necessidade de ações e melhoras ambientais no Brasil. OUÇA O PROGRAMA AQUI.

NEGROS E INDÍGENAS MORRERAM MAIS

Uma pandemia da desigualdade ficou evidenciada no Brasil em 2021. Em abril deste ano, o “Saúde com Ciência” aprestou levantamento feito por pesquisadores do grupo “Alimento para Justiça” da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a UFMG e a Universidade de Brasília, no qual mostra que mais de 125 milhões de pessoas, 59,4% dos domicílios brasileiros, se encontram em situação de insegurança alimentar no país.

A falta de alimentos em quantidade ou qualidade necessária traz impactos para a saúde, como enfraquecimento do corpo, prejuízos no desenvolvimento físico e mental e aumento da probabilidade de doenças, o que torna a camada mais pobre da população ainda mais vulnerável à covid-19. E no Brasil, 77,8% de toda a pobreza se concentra na população em que a pessoa de referência da família era preta ou parda, de acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares. Isso significa que a população negra é a que mais sofre com a insegurança alimentar e suas consequências.

“Nos dados, sempre a população negra tem menor escolaridade, renda e vive em regiões da cidade que tem maior dificuldade de alimentação, saneamento e água encanada, o que interfere processo de saúde e doença”, ponderou o sociólogo, pesquisador científico da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e coordenador do Grupo de Trabalho “Racismo e Saúde” da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Luís Eduardo Batista, durante entrevista concedido em outubro de 2021.

Para se ter melhor dimensão dessa relação entre saúde e doença fragilizada, dados da Rede de Pesquisa solidária de setembro de 2021 indicaram que “Homens negros morrem mais por Covid-19 do que homens brancos independente da ocupação e mulheres negras morrem mais do que todos os outros grupos”. Além da população negra, os indígenas também têm sofrido mais com os impactos da pandemia. Foram cerca de 62 mil indígenas contaminados pela covid-19 e mais de mil mortes, em população de cerca de 900 mil pessoas.

Além disso, estudo da Faculdade de Medicina da UFMG mostra que crianças e adolescentes indígenas apresentam ao menos o dobro de risco de morte por covid-19 em relação às outras etnias no Brasil. A professora da Escola de Enfermagem da UFMG, Érica Dumont, especialista em saúde dos povos indígenas, acrescenta que adoção de políticas desfavoráveis durante a pandemia também têm contribuído para piores indicadores de saúde. Em entrevista ao “Saúde com Ciência” neste mês de dezembro, ela cita a linha do tempo do Instituto Socioambiental, que é altamente respeitado por profissionais que atuam com povos indígenas.

“No primeiro mês, a Funai suspendeu cestas básicas, fez indicação de isolamento domiciliar sem proteger as terras indígenas dos garimpeiros. Ignorou a testagem desde o início, tanto que a primeira infecção por covid chega por um médico da Sesai [Secretaria de Saúde Indígena] e quando vem o auxílio emergencial, faz com os povos saiam das aldeias para buscar esse auxílio. Além de negarem atendimento para os indígenas que vivem na cidade”, detalha. OUÇA O PROGRAMA AQUI.

PESQUISAS APESAR DO BRASIL

A ciência avançou rapidamente durante a pandemia, mas encontrou inúmeros desafios no Brasil, um país que ainda investe pouco em pesquisas e no desenvolvimento científico. Mesmo com investimentos aquém do necessário e graças ao esforço e dedicação dos pesquisadores, produções e pesquisas brasileiras têm se destacado no mundo todo. Uma delas é o  jogo “Covid-19: Você Sabia?”, disponível gratuitamente para download nas principais lojas de aplicativos em português, inglês e espanhol.

O jogo foi lançado em menos de um mês após o primeiro caso confirmado da doença no Brasil, com o objetivo de divulgar informações de qualidade sobre a covid-19 entre o público jovem e desde então passa por atualizações. Em junho deste ano, a iniciativa foi premiada em concurso da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde.

A UFMG também está à frente da produção de um imunizante nacional contra a covid. Em entrevista ao “Saúde com Ciência”, concedida em agosto deste ano, o professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e pesquisador do CT-Vacinas UFMG, Flávio da Fonseca, detalhou a criação da vacina Spintec, que teve pedido de testes em humanos protocolado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). OUÇA O PROGRAMA AQUI.

A produção do imunizante é resultado de um trabalho colaborativo entre a UFMG e a Fiocruz, e tem como financiadores o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, do Governo de Minas Gerais e da Prefeitura de Belo Horizonte.

PANDEMIA

O “Saúde com Ciência” também relembra os principais acontecimentos da pandemia. O Brasil viu o número de casos acelerarem nos primeiros meses do ano e a vacinação caminhar a passos lentos. A linha do tempo dos principais eventos começa em Manaus, no início deste ano, quando o Brasil presenciou a propagação de nova variante do coronavírus, como a variante Gama. Entre os acontecimentos, o programa destaca o “kit covid”, vacinação e surgimento de variantes como a Delta e Ômicron. OUÇA O PROGRAMA AQUI.

Saúde com Ciência

progama é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.