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Saúde das mulheres negras: enfrentamento ao racismo também se dá no acesso à assistência

O programa de rádio Saúde com Ciência debate sobre as consequências do racismo nos serviços de saúde e o impacto para a saúde física e psicológica das mulheres negras


19 de novembro de 2021 - , , , , ,


Segundo um relatório da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), a população negra tem menos acesso à saúde se comparada à branca. Além disso, as pessoas de cor preta (11,9%) e parda (11,4%) são destaque entre as que se sentiram discriminadas nos serviços do SUS. Por isso a importância da PNSIPN, criada em 2009 para combater o racismo institucional, ao reconhecer e buscar melhorar as iniquidades que afetam a saúde da população negra. Isso inclui atenção especial às doenças prevalentes, como hipertensão arterial e o maior risco de mulheres negras para pré-eclâmpsia e eclâmpsia durante a gravidez.

Mas segundo Emanuelle Goes, a doutora em Saúde Pública e pesquisadora Fiocruz/Bahia em desigualdades raciais, racismo e saúde, ainda não houve avanços suficientes com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Ela argumenta que falta considerar e inserir o quesito da cor nas mudanças do sistema de saúde para adequação à PNSIPN, como o aumento da oferta de pré-natal ou de tratamento de doenças, possibilitado analisar as diferenças das ocorrências com mulheres negras e brancas, por exemplo. “Como a gente vai observar a mudança das desigualdades raciais se não temos a informação de raça e cor nas pactuações?”.

Enquanto isso, mulheres negras continuam sendo a maioria nas mortalidades maternas e enfrentando a violência obstétrica ou outros tipos de violências que afetam a saúde. “No cenário do parto, sabe-se que mulheres negras recebem menos anestesia quando indicado, os manejos nos corpos são mais agressivos e os partos tardios acontecem mais com as mulheres negras”, cita Emanuelle Goes. “Há uma ideia de que mulheres negras não precisam de intervenção. Podem parir normal, porque são boas em parir, são resistentes”, completa informando que isso não ocorre só nos serviços públicos, já que está relacionado com a prática profissional e com o que as pessoas aprendem no imaginário social.

As questões sociais e o enfrentamento ao racismo também impactam a saúde mental das mulheres negras, que apresentam maior incidência de ansiedade e depressão do que as mulheres brancas. “As questões sociais estão intimamente relacionadas ao nível de saúde mental da sociedade como um todo. Trabalhamos para fortalecer pessoas negras, mas a injustiça social ainda é um fator essencial, como a falta de dinheiro, a insegurança e violência. Então sem melhorar a causa, é muito desafiador sanar o problema”, afirma Laila Resende, ativista, psicóloga e pós-graduada em relações étnico-raciais.

“Os processos de exclusão causados pelo racismo colocam a mulher negra num lugar de solidão, na maioria das vezes. Mas o essencial é que através do autorreconhecimento, valorização de relações saudáveis, não só relacionamentos afetivos sexuais como de amizades e familiares também, possam reverter esse lugar de solidão”

Laila Resende

Saiba mais no Saúde com Ciência

Na série “Mulher negra e saúde: entenda os impactos do racismo”, o Saúde com Ciência debate como a assistência em saúde à mulher negra é afetada e as consequências do racismo para a saúde física e psicológica.

progama é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify