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Criar rotina ajuda crianças com autismo a lidarem com o isolamento social


13 de julho de 2020 - , , , ,


As mudanças na rotina impostas pela pandemia do novo coronavírus é um desafio para todos nós. Mas para crianças com Transtorno de Espectro Autista (TEA), o fechamento de escolas, isolamento social, entre outras alterações no cotidiano, são ainda mais difíceis. Isso porque elas necessitam da manutenção de uma rotina para que se sintam seguras e consigam se organizar. Por isso, especialistas dão algumas dicas para minimizar os impactos desse momento.

De acordo com professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Ana Maria Lopes, a maioria das crianças e adolescentes não se adaptaram aos atendimentos terapêuticos feitos na modalidade virtual, tão pouco ao ensino à distância.  

“A proposta de tratamento interdisciplinar ocorre com frequência semanal, a interrupção desses atendimentos, diante da dificuldade em mantê-los de forma virtual, pode ocasionar perda de habilidades já adquiridas. Uma regressão do comportamento”, explica a professora.

Saúde mental

Com mudanças na rotina, pessoas com TEA podem apresentar alterações no padrão do sono, maior ansiedade e irritabilidade. Apesar de não serem sintomas comuns apenas às pessoas com autismo, os impactos podem ser sentidos de maneira mais intensa por elas.

“Visto que já há no TEA dificuldade de linguagem, prejuízo da comunicação e interação social, o stress causado pelo isolamento social pode aumentar esses sintomas e exacerbar alterações comportamentais, tais como agitação, agressividade, pois a capacidade de expressar o sofrimento psíquico torna-se mais acentuada”, pontua.

Dicas

Explicar as crianças e adolescentes com autismo sobre como a rotina vai ser modificada, o porquê dessa mudança, e o passo a passo do que vai acontecer depois, com o retorno as aulas, pode ajuda-las a se adaptarem à nova realidade, especialmente se isso for feito de forma lúdica.

“Cada situação é vivência de um jeito diferente. Em muitas famílias os pais não podem deixar de trabalhar. Então, na medida do possível, é preciso tentar manter uma rotina para acordar, fazer atividades e com hora para dormir e com atividades lúdicas”, orienta a psicóloga Amanda Silva de Souza é psicóloga, acompanhante terapêutica de crianças com autismo e coordenadora do projeto Uma Sinfonia Diferente de Brasília.

Além da comunicação verbal, Amanda recomenda que os familiares usem estratégias como fotos, figuras e vídeos para facilitar o engajamento no dessas crianças a conversas sobre o contexto atual e mudanças na rotina.

A professora Ana Maria Lopes também concorda que não há uma dica uniforme sobre como lidar com a quarentena. De acordo com ela, a resposta de cada criança com TEA é singular e particular. Com isso, também é possível ser surpreendido com avanços de habilidades também nesse momento.

“A criança que tinha um contato muito restrito com a família pode se beneficiar desse momento em que há um aumento importante desse tempo de convivência. Os pais convivendo por mais tempo com a criança pode conseguir inventar novas estratégias, novas soluções”, exemplifica.

Mas a professora ressalta que é importante pensar na preservação da saúde mental de toda a família, que pode se tornar mais vulnerável ao adoecimento psíquico.

“Os pais, irmãos e a criança com TEA necessitam de medidas que visem a preservação da saúde mental de todos. Pois, se os pais não estiverem bem, esse sofrimento será transmitido para os filhos”, avalia.

Retorno às aulas

Um possível retorno das aulas antes de uma imunização contra a covid-19 também pode ser um complicador para as crianças e jovens com TEA. Isso porque elas podem ter mais dificuldades para seguir algumas orientações para reduzir o risco de contágio ou para readaptação à rotina escolar. Para a professora Ana Maria, cada caso deverá ser avaliado individualmente.

“Se a criança tem um grau maior de autonomia, se consegue seguir as regras de uso de máscaras, higiene das mãos, a família juntamente com a escola e com os profissionais de saúde devem definir as condições de retorno ou não”, analisa.

De acordo com ela, as respostas para melhor condução desse retorno as atividades habituais deverão ser construídas por cada família e criança “com o apoio incondicional dos profissionais da saúde, da educação e de uma adequada política pública que vise a inclusão”. 

Diversidade na pandemia

O Saúde com Ciência apresenta a série “Diversidades na Pandemia” com questões que envolvem as pessoas com deficiência no cenário atual. Confira a programação:


:: Cuidados com a saúde durante a quarentena
:: Impactos no tratamento
:: Autismo e isolamento social
:: Desafios do ensino à distância
:: Acessibilidade digital

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