É impossível falar em saúde sem falar sobre o racismo estrutural

Indicadores de desigualdade nos serviços de saúde apontam para maior vulnerabilidade da população negra.


26 de junho de 2026 - , , , , ,


* Deise Amaral

Maiores taxas de mortalidade materna e infantil, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e pior qualidade no atendimento. Esses são alguns dos desafios que a população negra brasileira enfrenta. É o que afirma a técnica de enfermagem e idealizadora do projeto SIG Saúde da População Negra da Faculdade de Medicina da UFMG, Cláudia Regina dos Santos, no Saúde com Ciência.

De acordo com ela, embora ainda exista a negação da presença do racismo na sociedade, o preconceito racial está estruturado nas relações sociais e constitui um importante determinante social da saúde. Na prática, isso significa que o racismo afeta desde a formação dos profissionais de saúde até os processos de atendimento à população negra.

Como resultado, desigualdades históricas continuam sendo reproduzidas. “Então, enquanto isso continua, a gente vai ter uma reprodução de uma educação que não pensa nas questões raciais”, destaca Cláudia.

Dados do Conselho Federal de Medicina mostram que apenas cerca de 3% dos docentes dos cursos de medicina são pessoas pretas. A baixa representatividade, somada à falta de letramento racial na formação médica, contribui para a permanência de estigmas relacionados à saúde da população negra.

“Pensando no lastro histórico da nossa vivência na sociedade, a gente já tem aquela ideia de que pessoas negras são mais resistentes à dor, por exemplo. Se eu chegar num serviço de saúde hoje com uma dor precordial, a primeira coisa que eles vão pensar é crise de ansiedade. E eu posso estar infartando, porque tem esse estigma que essas pessoas vão ser resistentes, as coisas não vão afetar elas da mesma maneira, então eu posso postergar um pouco mais a minha ida ao hospital, da mesma forma que quando eu vou eu posso não ter a qualidade do atendimento esperado”.

Cláudia Regina dos Santos

Como forma de mudar esse cenário, a técnica destaca a importância de políticas públicas voltadas para a promoção da equidade nos serviços de saúde, como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que busca identificar, monitorar e combater desigualdades raciais no acesso e na assistência à saúde.

Mas, para além das ações coletivas, é necessário que cada pessoa desenvolva um olhar mais sensível e ampliado sobre as relações raciais, refletindo sobre a própria forma de se relacionar com a população negra. Para Cláudia, não basta apenas não reproduzir práticas racistas: é preciso adotar uma postura antirracista.

SIG Saúde da população negra

Coordenado pela técnica em enfermagem Cláudia Regina dos Santos, o SIG Saúde da População Negra é um projeto de extensão da Faculdade de Medicina da UFMG, em parceria com a Rede Universitária de Telemedicina. A iniciativa promove encontros mensais para debater racismo, desigualdades e seus impactos na saúde da população negra.

Os eventos online são abertos a estudantes, profissionais da área e à comunidade externa, constituindo um espaço de diálogo, formação e fortalecimento de práticas que contribuam para um acolhimento mais efetivo dessa população.

Ouça o podcast na íntegra:

Saúde com Ciência

No programa de rádio Saúde com Ciência desta semana, conversamos sobre a saúde da população negra, abordando os indicadores de desigualdade social no atendimento à saúde. Além disso, alertamos sobre a importância de promover equidade no acesso e no acolhimento para a população negra.

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 7h15, no programa Bom Dia UFMG. Também é possível ouvir o programa pelas principais plataformas de podcasts.

* Deise Amaral – estagiária do Centro de Comunicação

Edição: Alexandre Bueno