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Elas na ciência: conheça as cientistas que ajudaram a revolucionar a medicina

Programa de rádio “Saúde com Ciência” recebe pesquisadoras que refletem sobre importância da mulher na ciência


14 de março de 2022 - , , , , , , , ,


*Maria Beatriz Aquino

A pandemia de covid-19 deixou ainda mais evidente como a ciência é essencial para a vida humana. E a presença feminina sempre foi importante para o seu desenvolvimento, apesar de ser historicamente ofuscada por um estrutura social que não valoriza os feitos das mulheres nessa área. Por isso, no mês que se comemora o Dia Internacional das Mulheres, o programa de rádio “Saúde com Ciência” apresenta uma série de entrevistas sobre quatro descobertas científicas protagonizadas por elas. Os feitos são apresentados por outras pesquisadoras da UFMG, que destacam como as cientistas do passado superaram os preconceitos e provaram que podiam revolucionar a ciência.

Embora tenham conquistado mais espaço na academia, devido às lutas pelo fim das desigualdades de gênero, o cenário ainda não é dos melhores. Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), indicam que 43,7% dos pesquisadores brasileiros são mulheres e deste total, somente 21% são coordenadoras de projetos. Ou seja, o esforço para manter as cientistas em cargos mais altos ainda é pequeno. 

“Então, apesar de a mulher contribuir muito, muitas vezes ela ocupa lugares de não protagonismo. Por isso, existe muita desigualdade em citações, de bolsas concedidas e até, talvez, por essa sociedade machista ainda ter uma questão arraigada”

Analisa a professora do Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina da UFMG, Priscila Santana.

Mulheres que revolucionaram

E se em pleno ano de 2022 as mulheres ainda sofrem com desigualdades no mercado de trabalho, nos anos 1890 o cenário era ainda pior. Foi nessa época que a polonesa Marie Carie iniciou seus estudos sobre a radioatividade. 

À frente do seu tempo, ela enfrentou preconceitos e foi a primeira de seu gênero a conquistar o Prêmio Nobel, sendo a única a ganhá-lo duas vezes. Além disso, foi responsável pela fundação do Instituto Curie em Paris, um dos maiores centros de pesquisas médicas atuais do mundo voltado para investigação oncológica. A professora Priscila recorda que as análises dessa cientista foram muito além da academia. Seus conhecimentos foram aplicados, por exemplo, durante a Primeira Guerra Mundial, quando ela percebeu como a radiação poderia ajudar na recuperação dos soldados feridos. Para a professora Priscila Santana, esse foi seu principal diferencial.

“Ela distribuía os equipamentos de raio x pelos hospitais e fazia as unidades móveis de raio x. Foi quando ela percebeu que quando os soldados tinham um atendimento rápido, faziam imagens mais rápidas e eram operados mais rápido, eles tinham mais chances de sobrevivência. Então ela não ficou somente nas pesquisas”

Mas Marie não foi a única mulher que teve seus feitos ofuscados em sua época. A pesquisadora escocesa June Almeida não recebeu o devido reconhecimento, quando, na década de 1960, identificou pela primeira vez a estrutura de um tipo de coronavírus através de um microscópio. 

Somente anos depois ela foi reconhecida pelo pioneirismo na produção de imagens microscópicas de vírus, incluindo outros tipos, como o da rubéola. A professora e pesquisadora do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Giliane Trindade, também trabalha na área de virologia e compreende que a pandemia reforçou ainda mais a importância das contribuições de June no processo de caracterização do vírus da covid-19. 

“Quando a gente está lidando com um evento de emergência viral, como essa pandemia, nos primeiros estudos que saem, é preciso caracterizar o vírus, descobrir o que ele é. Então, as imagens de microscopia são importantíssimas nessa etapa”

Avalia Trindade

Mas além do trabalho árduo de descrição dessa família do coronavírus, Giliane acredita que a figura de June é uma verdadeira inspiração no seu dia a dia, enquanto mulher e pesquisadora. Outra cientista que vem inspirando gerações de mulheres nesse campo é a estadunidense Gerty Cori, que em 1947 foi agraciada com o Nobel de Fisiologia ou Medicina por melhorar o entendimento sobre essa doença após analisar e compreender o comportamento do açúcar no corpo e os efeitos da insulina, principal método terapêutico. 

Graças aos estudos da cientista estadunidense, hoje, as inovações em torno dos tratamentos da doença podem avançar cada vez mais.

 “Em 2021, nós comemoramos 100 anos da descoberta da insulina. Ela mudou drasticamente a vida das pessoas diabéticas, principalmente as que têm o diabetes tipo 1, que são indivíduos que dependem dela para viver. Tanto que a insulina também é chamada de hormônio da vida”

Ressalta a professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Juliana Drumond, que é médica assistente no Ambulatório de Endocrinologia do Hospital das Clínicas.

Entre as novas fórmulas de medicamentos contra a doença, ela acentua a meditiformina, distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que ajuda no controle da diabetes. Para Juliana, a pandemia reforçou a importância de pesquisas científicas para descobertas como essa da insulina. Ela frisa, ainda, a importância de investimentos na ciência para que traga ainda mais contribuições para a sociedade.

“Uma coisa que a pandemia trouxe para nós de positivo foi a importância da ciência, desenvolvimento de drogas e testes de diagnóstico para a população. Então não há dúvidas que com tratamentos baseados em pesquisa, nós teremos cada vez mais benefícios para a população ” 

Mais que essas reflexões, a pandemia também evidenciou a importância dos cuidados com a saúde mental. E a saúde mental foi a área de atuação de outra cientista pioneira, Nise da Silveira, que dedicou seus estudos para a luta antimanicomial. Em 1940, essa pesquisadora alagoana já batalhava pela defesa dos direitos das pessoas com sofrimento mental e combatia o confinamento em manicômios.

Nise da Silveira tem nome reconhecido mundialmente devido ao empenho em tentar modificar as formas de tratamento psiquiátrico no Brasil. Durante seus estudos, ela lidou com descrenças e tabus que envolvem o tema e que seguem até os dias de hoje. A professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, Elaine Machado, comenta que tabus referentes à saúde mental são um problema enraizado na cultura do país e que Nise tentou combater e modificar a perspectiva sobre o tema.

“Nise é tão importante porque ela revolucionou as formas de tratamento quando percebeu que, a partir da arte, da música, esses pacientes começavam a se expressar. Então, ela propõe a retirada de pacientes dessas medidas agressivas para trazer para um tratamento humanizado”

Conta ElIAne Machado, que também é pesquisadora do Observatório de Saúde Urbana de Belo Horizonte (OSUBH).

Atualmente, Nise é reconhecida por iniciar o processo de defesa dos direitos humanos e inaugurar o método de terapia ocupacional para pacientes que sofrem com transtornos mentais. 

Saúde com Ciência

Para saber mais sobre as conquistas dessas quatro pesquisadoras e entender melhor como elas modificaram a ciência ao longo dos anos, acesse o programa “Saúde com Ciência”.

Saúde com Ciência”  é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

*Maria Beatriz Aquino – estagiária de Jornalismo
edição: Karla Scarmigliat