Entre diagnósticos e singularidades: pesquisa discute acompanhamento de jovens trans
Estudo propõe uma abordagem individualizada, baseada na escuta e na elaboração das questões de cada jovem.
10 de agosto de 2026 - Adolescentes Trans, Divulgação Cientifica, Janela da Escuta, Pesquisa
Felipe Veras*

Métodos rígidos e excessos de diagnósticos podem suprimir uma singularidade e criar dúvidas em jovens em transição de gênero. Isto é o que traz os questionamentos da pesquisa de mestrado de Viviane Cunha, no Programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG. A partir da análise de cinco casos clínicos de jovens transgêneros, acompanhados no programa de extensão Janela da Escuta, a autora propõe que a transição seja tratada de forma individual e particular com cada sujeito, priorizando os métodos de análise e a escuta.
A pesquisa entende que estes que procuram a clínica e estão em processo de análise enfrentam diferentes questões, realidades, e possuem diferentes perspectivas. Mas muitas vezes, são ensinados por uma sociedade imediatista e medicalizada a buscar respostas prontas.
“A gente tem uma necessidade de respostas muito rápidas, para apaziguar uma certa angústia da vida, da incerteza do que vai acontecer. Mas é importante ter calma, dar um tempo para esse jovem elaborar uma resposta singular, e não ficar tentando encontrar respostas, que muitas vezes funcionam para outros, mas não necessariamente vão funcionar para todo mundo”, afirma.
Diante destes cenários de ‘tratamentos pré-moldados’, os casos clínicos, tratados na dissertação sob nomes fictícios, apresentam diferentes meninas, em momentos e processos distintos, ao lidar com sua sexualidade. Dois deles são Ana e Maria Laura, ambas de 14 anos, que traçam um paralelo: as duas são meninas adotadas, não se sentiam bem com seus corpos, mas possuem uma dinâmica familiar oposta.
Na primeira história, Ana é diversas vezes ofendida e ameaçada verbalmente pela sua mãe, e encontra refúgio por si própria, performando feminilidade escondida com as roupas e batons de suas primas. Já Maria Laura recebe um “excesso de atenção”, que, com tanto apoio na transição da filha, acaba também cessando as elaborações próprias da adolescente, levando-a a ser submetida a intervenções de especialistas, onde recebe múltiplos diagnósticos, impedindo que a adolescente possa elaborar sobre o que se trata o seu sofrimento.
Outros casos como Ana Rosa, e Sofia, explicitam o que a pesquisadora aborda como “eventos satélites”, que são as demais dores e angústias que o sujeito é submetido, para além do gênero como centro de suas questões. Estes casos também perpassam depressão, ansiedade, automutilação, demais dores que complexificam o ser singular que cada um é.
De acordo com a pesquisa, a análise pode abrir espaço para que os jovens vejam além das expectativas sufocantes que a sociedade impõe e, assim, proponham suas próprias soluções. Viviane afirma: “A análise é muito particular porque cada um vai trazer de um lugar diferente esse incômodo. Uns vão trazer da família, outros vão trazer mais do laço social, outros vão trazer mais da imagem”.
Para além da realidade de adolescentes trans abordados nos estudos de caso, a pesquisadora também argumenta que mesmo pessoas adultas, hétero, cis, podem aprender a partir das investigações dos casos clínicos. A pesquisa sobre um tema tão presente em nossa sociedade pode contribuir para a sensibilização de todos sobre o assunto. Já o processo de análise permite que qualquer um possa ver suas questões e elaborar sobre si mesmo e, assim, concluir suas questões em nome próprio.
“Tanto em adultos, quanto para os sujeitos em geral, o que está posto é um desafio de elaborar sobre si mesmo, sua vida, sua história,tanto no que diz respeito aos discursos sociais, a imagem de si mesmo, principalmente, à sua singularidade, essa elaboração é algo que está para todos os sujeitos”, destaca a pesquisadora.
Pesquisa: O que aprendemos com os adolescentes trans
Autor: Viviane Ribeiro Cunha
Orientador: Prof.ª Cristiane de Freitas Cunha Grillo
Programa: Programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência
Defesa: 11 de dezembro de 2025
*Felipe Veras – Estagiário de Jornalismo
Edição: Débora Nascimento e Geisa Aguiar
