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Faculdade de Medicina inicia cadastro para testes da vacina contra covid-19

Podem se voluntariar pessoas com pelo menos 18 anos e não há limite máximo de idade para participar dos testes.


07 de outubro de 2020


A Faculdade de Medicina da UFMG, como centro colaborador da rede internacional CoVPN, testará vacinas e anticorpos monoclonais para combater o vírus SARS-CoV-2 produzidos por diferentes empresas. Neste momento, a Instituição oferta o pré-cadastro para pessoas acima de 18 anos interessadas em se candidatar como voluntárias, através do preenchimento do formulário online. Com a previsão de início em breve, aqueles que correspondem aos critérios serão contatados pela equipe da pesquisa.

Professor Jorge Andrade em coletiva de imprensa nesta quarta-feira, 7. Foto: Estefânia Mesquita

Segundo o professor Jorge Andrade Pinto, coordenador do estudo, o objetivo é testar diferentes produtos com o máximo rigor científico possível para obter resultados imparciais. O primeiro produto de avaliação será a vacina candidata contra a covid-19 da Johnson & Johnson, conhecida como Ad26.COV2.S. Nesta pesquisa, centros vinculados à rede CoVPN e J&J recrutarão de 30 a 60 mil participantes na Argentina, Brasil, Chile, Colombia, México, Peru, África do Sul e EUA.  A Faculdade de Medicina será responsável por até dois mil participantes desse total.

“Esse estudo chamado de fase 3 busca avaliar a eficácia do produto vacinal na prevenção ou atenuação das manifestações clínicas da infecção pelo SARS-CoV-2. Ou seja, essa candidata já passou por outras fases que avaliaram segurança e imunogenicidade – capacidade de gerar respostas – em voluntários sadios, sendo esta a última etapa antes do registro junto às agências reguladoras nacionais e internacionais, para uso pela população geral”, afirma Jorge Pinto.

“Foi estabelecido que uma única dose é suficiente e esse é um dos diferenciais dessa vacina, demonstrando a potência imunogênica do produto. Ela utiliza como vetor um adenovírus humano, sem capacidade de replicação, onde se insere o material genético do SARS-CoV-2 e é uma vacina muito promissora”, explica Jorge Pinto.

Ele acrescenta que um dos objetivos é prevenir a manifestação da forma moderada ou grave da covid-19, a fim de diminuir o risco de morte. Dessa forma, “se essa candidata a vacina conseguir atenuar a gravidade da infeção pelo coronavírus, será um grande efeito”.

Acesse o site oficial do estudo: www.coronaviruspreventionnetwork.org (em inglês).

Participação voluntária

Pode se candidatar qualquer pessoa acima de 18 anos, sem limite superior de idade. Haverá divisão por grupos, de acordo com as etapas da pesquisa. Inicialmente a vacina será testada em pessoas sem patologias prévias, em grupos com menos ou mais de 60 anos. Após constatada a segurança do produto, haverá a segunda etapa com a testagem em pessoas da mesma faixa etária (grupo de 18 a 60 anos e o grupo de 60+), mas com alguma morbidade (obesidade, problemas cardíacos, hipertensão arterial, etc.).

Um diferencial desse estudo, segundo o coordenador, é que na seleção não há critério excludente de ocupação profissional, como ser profissional da saúde, por exemplo. “A prioridade é por pessoas que tenham risco de infecção pelo vírus e reflita, o máximo possível, a diversidade de um cenário real da população. Ou seja, com representação na diversidade etária; social (priorizando aqueles que usam transporte coletivo, moradores de comunidade, trabalhadores de nível médio ou que atuam na limpeza, por exemplo); étnica e de gênero”, informa Jorge Andrade. Ele pontua que a maior porcentagem (30%) de participantes será de idosos.

Jorge explica que esses critérios se devem a experiência do Grupo de Pesquisa em HIV/AIDS em Crianças, Adolescentes e Gestantes, que também coordena. “Sabemos como essa representação é desproporcional no ponto de vista social. Temos o Comitê Assessor Comunitário, formado por pessoas da comunidade, usuárias do Sistema Único de Saúde, que está participado da discussão desse estudo, para assegurarmos as minorias estejam representadas”, ressalta.

Outra questão a respeito da participação é que, como é comum em outros estudos de avaliação da eficácia de um produto, haverá um grupo comparador. Isso significa que os participantes serão divididos por sorteio entre aqueles que recebem placebo e os que recebem a vacina.

“Esse é um estudo ‘duplo cego’, em que nem os pacientes nem os investigadores sabem o que receberam. Todos serão acompanhados por 24 meses para avaliarmos se houve diferença entre os grupos n frequência da infecção e na gravidade das manifestações clínicas, caso sejam infectados, além de verificarmos se houve reações adversas. Após a confirmação da eficácia da vacina, aqueles pacientes voluntários da pesquisa que receberam o placebo serão prioritários na distribuição da vacina efetiva”. 

Como se candidatar

As pessoas acima de 18 anos interessadas em participar, devem responder ao questionário online, disponível no link http://bit.ly/cadastrovacinacontracovid19medicinaUFMG, que servirá como pré-triagem. Nesse documento elas também respondem sobre a disponibilidade de comparecer ao Hospital das Clínicas da UFMG, onde será feita a aplicação da vacina, caso sejam selecionadas.

Para qualquer informação adicional, é possível entrar em contato com a equipe da pesquisa através dos telefones (31) 34099822, 34099111 e 982055076 (whatsapp) ou pelo email COV3001.UFMG@gmail.com.

Tempo para resposta da vacina

A corrida por uma vacina capaz de combater a pandemia está cada vez mais acirrada e a ansiedade por esta reposta é grande. Mas o professor Jorge Pinto alerta que “a saúde pública é prioridade e não se deve deixar de cuidar da segurança”. De acordo com ele, o tempo desse estudo, previsto para dois anos, segue a recomendação para estudos de fase 3 de vacinas. Caso comprovada a eficácia e segurança durante as etapas, ela pode começar a ser distribuída de forma emergencial antes desse período.

“Em um estudo de eficácia de vacina, do descobrimento e desenvolvimento até a incorporação dela no calendário vacinal, a média de tempo é de dez anos. As iniciativas pela vacina de covid-19 estão acelerando muito esse tempo de desenvolvimento, o que é algo vantajoso do ponto de vista científico e com impacto na saúde mundial”, comenta Jorge Andrade. “Por outro lado, não se pode descuidar da segurança. A vacina é desenvolvida pensando em prevenir doença na população saudável, então esse produto não pode, em hipótese alguma, causar danos. Também deve ser seguro para a população acima dos 65 anos ou crianças e gestantes, por exemplo”, continua.

Ele argumenta que uma vacina liberada de maneira prematura pode causar uma situação reversa, causando reações de desconfiança na população, não só em relação a vacinas contra da covid-19, como das outras de forma geral, impactando na cobertura vacinal e fortalecendo o movimento antivacina.

Além disso, o professor lembra da importância do tempo para a realização de diferentes testes. “Pode ser que cheguemos a conclusão de que precisamos de mais de uma vacina contra a covid-19, que elas precisam ser combinadas como acontece com a de poliomielite, por exemplo, em que temos a gotinha com o vírus atenuado e aquela aplicada intramuscular com o vírus inativado. Por isso, mais uma vez, a relevância da rede CoVPN ao testar diferentes produtos, na medida que chegam na fase 3”, conclui.


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