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Negros morrem mais pela covid-19

Pretos e pardos também têm mais chance de ser infectados e correm maior risco de hospitalização


24 de novembro de 2020 - , , , ,


Lethicia Pechim*

Homens negros são os que mais morrem pela covid-19 no país: são 250 óbitos pela doença a cada 100 mil habitantes. Entre os brancos, são 157 mortes a cada 100 mil. Os dados são do levantamento da ONG Instituto Polis, que analisou casos da cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho. Entre as mulheres, as que têm a pele preta também morreram mais: foram a 140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. Outro levantamento, desta vez pelo IBGE, mostrou que mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da covid-19, sete são pretas ou pardas. Esse padrão se explica por desigualdades sociais e pelo preconceito.

Muito institucionalizado na sociedade, o racismo tem um impacto direto na saúde, até mesmo nos casos da covid-19. O preconceito racial e as desigualdades da saúde são tema do Saúde com Ciência dessa semana.

Na avaliação do médico infectologista e professor de Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí Tupinambás, a explicação para essa diferença é a desigualdade social e econômica. “Durante a pandemia, a desigualdade foi escancarada. A mortalidade da população negra é muito mais alta, não só no Brasil, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Claro que nós temos que considerar aqueles determinantes sociais da doença, que são muito importantes para a evolução de qualquer doença. A população negra e periférica tem condições de saúde muito mais precárias”, analisa.

“Eles moram em condições precárias, trabalham em condições precárias, não podem fazer trabalho remoto e têm que sair de casa para ganhar o pão, pegam transporte público inadequado… Claro que vai impactar mais, infelizmente, nessa população negra e periférica”

Esclarece o professor Unaí Tupinambás

Além das diferenças socioeconômicas, fatores biológicos também podem ser apontados. Análise de dados realizada por cientistas do King’s College de Londres concluiu que, quando são infectadas pelo novo coronavírus, pessoas negras têm risco três vezes maior de serem internadas, em comparação a brancos. Segundo o estudo, o risco de pacientes negros permanece maior mesmo após o ajuste de condições socioeconômicas e de acesso a serviços de saúde. Para Tupinambás, a soma dos fatores sociais e biológicos pode ser fatal. “Hoje, a OMS [Organização Mundial da Saúde] não fala em pandemia da covid-19, considera uma sindemia – que é o conjunto de várias condições que favorecem a forma mais grave da doença. Nós temos a pandemia de obesidade, hipertensão arterial, diabetes melitus, tabagismo, sedentarismo… isso tudo favorece a covid-19 mais grave”, pontua.

“A prevalência dessas condições é muito maior na população negra e periférica, que não tem condições de acesso à saúde e à boa alimentação. Já tem o risco inerente da condição prévia de saúde e esses determinantes sociais impactam muito negativamente na evolução da covid-19”

alerta Tupinambás

Para reverter a situação, é preciso buscar formas de equidade de acesso e políticas afirmativas. Ainda segundo o professor, para combater essa situação é preciso ter uma mudança no cenário cultural e social do país como ampliar ações de inclusão social e aumentar o número de cotas. “Temos muita coisa para fazer para combater esse racismo institucionalizado. Essa dívida que tem mais de 300 anos de escravidão no Brasil é quase que impagável. Se a gente não revisitar isso e ampliar as ações afirmativas, a gente vai ter ainda momentos muito complicados no enfrentamento da pandemia nessa população”, ressalta.

Desde maio, o registro de raça é obrigatório nas notificações da covid-19 no país. A medida permite mapear e pensar ações voltadas para a população negra.

Além da covid-19, doenças evitáveis e crônicas também afetam mais a população negra

As chamadas doenças evitáveis têm maios incidência na população negra. É o caso das infecções sexualmente transmissíveis, tuberculose, hanseníase e até mortes maternas e de recém-nascidos.  Para se ter uma ideia, estimativa do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) indica que havia cerca de 44 milhões de pessoas infectadas pelo HIV no mundo em 2017, 58,1% dos casos de HIV registrados ocorreram em pessoas negras. Já no boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde sobre HIV/AIDS em novembro de 2019, quando analisados os casos de AIDS nos últimos dez anos e a distribuição dos indivíduos pelo quesito raça/ cor, houve queda de 20% na proporção de casos entre pessoas brancas. No mesmo período, a redução foi de 1% para as pessoas negras, enquanto houve aumento de 20,5% para as amarelas, 37,7% para as pardas e 100% para a população indígena. O boletim aponta, ainda, que, desde 2009, os casos de AIDS são mais prevalentes em mulheres pretas e pardas, enquanto entre homens isso ocorre desde 2012.

O risco de morrer por essas doenças evitáveis também é maior entre pretos e pardos. Para continuar no exemplo do HIV/AIDS, 58,7% dos óbitos pela doença são de negros. Outro caso: segundo informações coletadas pelo DataSUS, mães que morrem por causas relacionadas à gravidez, parto e pós-parto são, em sua maioria, negras, jovens e de baixa escolaridade. Para a professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, Joilda Nery, alguns fatores, além dos determinantes estruturais, podem ser causa para esses números: como os cenários políticos econômicos e sociais, acesso ao serviço de saúde, entre outros.

“O diálogo com os profissionais de saúde e poder pagar ou não por uma medicação, moradia, renda e alimentação, políticas de proteção social e aposentadoria são determinantes para estas doenças”

Aponta a professora Joilda Nery

No caso de doenças crônicas, como colesterol alto, hipertensão e diabetes, essas doenças também são mais comuns na população negra. Mas isso não significa que a população negra é doente, já que o adoecimento advém de uma menor qualidade de vida. O grupo é mais vulnerável às doenças porque está sob maior influência dos determinantes sociais de saúde. “É fundamental contar com atenção à saúde acessível e de qualidade, o que, infelizmente, nem sempre está disponível para a população negra em função do racismo institucional, que se expressa por meio de práticas, atitudes, normas e também formas organizativas discriminatórias e excludentes, que criam barreiras ao cuidado com a saúde e também são associados a baixos resultados terapêuticos”, avalia a professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, Elis Borde.

“Vários estudos nacionais e internacionais apontam que o risco elevado da diabetes tipo dois entre homens e mulheres negros está associado à experiência do racismo, que gera estresse crônico capaz de configurar ou funcionar como desencadeador de processos físio-patológicos”

Relata a professora Elis Borde

Racismo no sistema de saúde

A cada 5 brasileiros que possuem somente o SUS como serviço de saúde, 4 são negros. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2015, das pessoas que já se sentiram discriminadas nos serviços, por médicos ou outros profissionais de saúde, 13,6% destacam o viés racial da discriminação.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a população negra apresenta os piores indicadores de saúde se comparadas aos brancos. Além disso, 37,8% da população adulta e negra brasileira considera a própria saúde entre regular e muito ruim. Entre os brancos, a taxa é de 29,7%. Os dados são do Ministério da Saúde e apontam também que a proporção de pretos e pardos que fizeram consultas médicas em um ano é menor que a média nacional.

Luta contra o racismo

O “novembro negro” é o mês dedicado à maior reflexão contra o racismo e luta pela igualdade de direito de pretos e pardos no Brasil. Essa semana o Saúde com Ciência dedica série sobre a luta contra o racismo e o impacto na saúde da população negra e parda Confira a programação:

:: Mortalidade por covid-19 é maior entre negros
:: Doenças evitáveis mais comuns
:: Doenças crônicas
:: Vidas negras importam
:: Crise, desemprego e vulnerabilidade social

Sobre o Programa de Rádio

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

*Lethicia Pechim – estagiária de jornalismo
Edição: Maria Dulce Miranda