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Novas técnicas permitem identificação de cadáveres em situações especiais

Métodos alternativos, implementados por técnico da Faculdade, ajudaram a acelerar a liberação dos corpos


21 de janeiro de 2020 - , , , , ,


*Giovana Maldini

Foto ilustração de necropapiloscopia / Carol Morena

O rompimento da barragem em Brumadinho completa um ano em 25 de janeiro. O impacto das mais de 250 mortes foi agravado pela dificuldade de identificação das vítimas, o que prolongou o sofrimento dos que perderam amigos e familiares. Isso porque o estado físico dos corpos encontrados desafiou as formas tradicionais de identificação. Uma das alternativas foi o uso da necropapiloscopia, identificação de cadáveres pelas impressões digitais, com métodos adaptados pelo técnico em anatomia e necropsia da Faculdade de Medicina da UFMG, Aldeir José da Silva.

Ele integrou a equipe local, formada por especialistas da Polícia Federal, Polícia Civil de Minas Gerais e de outros estados, e contribuiu na rápida e precisa identificação de diversas vítimas.  Aldeir conta que as técnicas usadas são inovadoras no serviço de identificação da Polícia Civil de Minas Gerais e grande parte só começou a ser utilizada após ele implementá-las durante o seu trabalho de identificações de corpos no Instituto Médico Legal (IML), há cerca de três anos. Além de acelerar os resultados, as técnicas permitiram resposta segura aos que esperavam por notícias das vítimas do ocorrido em Brumadinho.

Segundo o técnico, alguns indivíduos não poderiam ser identificados pela arcada dentária, já que não tinham tratamento odontológico registrado e demoraria cerca de 15 dias para identificar o corpo com o exame de DNA, a um custo mais elevado. “Foi um alívio muito grande para a família, por ter uma prova científica de que era o familiar desaparecido”, conta.

Aldeir José da Silva adaptou técnicas de identificação de corpos para casos especiais. Foto: Arquivo Pessoal

Durante os cerca de 60 dias que esteve no IML, o técnico em anatomia e necropsia possibilitou importantes resultados com seus métodos, como o caso da vítima identificada com 85 dias de óbito, um trabalho reconhecido e divulgado no 15º Congresso Brasileiro de Identificação, em agosto de 2019. As técnicas aplicadas também foram eficazes em outro corpo, após 268 dias do rompimento da barragem. “Fizemos a identificação com poucas horas que esse cadáver estava no IML. Em menos de 24 horas, ele foi entregue à família”, comenta.

“Esse trabalho científico da necropapiloscopia também é social. Acredito que isso traz conforto para os familiares, pois eles podem se despedir de uma forma mais humanizada com a liberação do corpo”     

Aldeir José da Silva

Técnicas  

São diversas as técnicas utilizadas por Aldeir. Cada caso exige uma específica. O padrão é usar a mesma da coleta de impressões digitais em carteiras de identidade, com tinta e papel. No entanto, corpos carbonizados, em estado avançado de decomposição ou parcialmente esqueletizados, ou seja, em situações especiais, demandam outros meios de identificação. Uma das alternativas, por exemplo, consiste na utilização de silicone de alta performance para moldar o desenho digital.

Ele utilizou sua experiência no Instituto Médico Legal e cursos sobre papiloscopia para adaptar os métodos já existentes na literatura e identificar corpos nesses casos mais complicados. “Técnicas como a da fervura, a micro adesão e o molde de silicone são descritas muito bem pela literatura, mas não mostra uma sequência correta para a utilização de cada um dos métodos. Fiz experimentos com todas que estavam descritas, direcionadas para cada caso, até chegar nos resultados”, comenta o técnico.

Ele comenta, inclusive, que pretende qualificar novos profissionais para aplicar essas técnicas por meio de cursos, além da criação de um setor de necropapiloscopia no IML, com o intuito de auxiliar na rápida identificação de corpos, principalmente em situações especiais.

Parceria com benefício social   

A Federação Nacional dos Peritos em Papiloscopia concedeu uma homenagem ao Aldeir José, no 15º Congresso Nacional de Identificação – ocorrido em São Paulo no último mês de agosto –, por sua contribuição no trabalho com as vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho. Em dezembro de 2019, ele também recebeu um agradecimento da Polícia Civil de Minas Gerais e da Polícia Federal durante o encontro que celebrou a parceria entre as instituições e a Faculdade de Medicina da UFMG.

Representantes da Polícia Civil de Minas Gerais se reuniram com diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, professor Humberto Alves, e o técnico Aldeir José da Silva para celebrar parceria das Instituições e a Polícia Federal. Foto: Carol Morena

A colaboração entre essas unidades se dá com a prestação de serviço de Aldeir, duas vezes por semana, no IML, onde trabalha com a coleta de impressões digitais, auxiliando na identificação de pessoas desaparecidas e na elucidação de alguns crimes. Dessa forma, de acordo com a delegada da Polícia Civil de Minas Gerais e chefe da Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida, Maria Alice Faria, o conhecimento do técnico proporciona diversos benefícios sociais.

“Sem a identificação da vítima, o crime é considerado perfeito e não se apura. Por isso, a técnica utilizada por Aldeir viabiliza a identificação do cadáver, tanto para entregar a vítima à família que a procura quanto para elucidar fatos criminosos, como homicídios, latrocínios, crimes graves em geral”

Maria Alice Faria

“Se não fosse a Faculdade de Medicina, vários crimes não seriam elucidados e várias pessoas não teriam sido entregues às famílias. É necessário ressaltar a importância dessa parceria”, acrescenta o médico legista e auxiliar de direção do IML, João Batista Rodrigues Júnior.

Para o diretor da Faculdade, professor Humberto José Alves, essa colaboração também é importante para a saúde emocional das pessoas que aguardam notícias das vítimas. “O IML faz o trabalho policial. A Faculdade, por sua vez, cuida da saúde mental das pessoas que ficaram, ao identificar essas vítimas e dar resposta às famílias”, declara.  

Novas técnicas em andamento

Mesmo após as várias técnicas de necropapiloscopia, a pesquisa continua. A Faculdade de Medicina da UFMG, em parceria com a Polícia Federal, está desenvolvendo novos experimentos com o objetivo de descobrir métodos de coleta de impressão digital que melhore as técnicas já existentes.

Isso está sendo feito com o projeto Vida após a Vida, que recebe doações de corpos para fins de pesquisa, ensino e extensão. Aldeir, que trabalha no projeto, lembra a importância da doação para o desenvolvimento das pesquisas. “A população contribui com a Universidade, a partir da doação de corpos, e nós respondemos a sociedade, como a entrega mais rápida das vítimas às suas respectivas famílias”, comenta. 


*Giovana Maldini – estagiária de jornalismo
Edição: Deborah Castro