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Pesquisadores desenvolvem ferramenta para diagnóstico precoce de transtornos alimentares

Brasil ainda não tinha uma ferramenta de rastreio tão simples, curta e de fácil aplicação para a identificação do risco de anorexia e bulimia, por exemplo


06 de janeiro de 2021 - , , , , , , ,


A equipe do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (Naves) da Faculdade de Medicina da UFMG desenvolveu uma nova ferramenta para o diagnóstico precoce de anorexia, bulimia e o transtorno do comer compulsivo. Chamada de SCOFF-BR, trata-se de um questionário curto, com cinco perguntas rápidas e que pode ser utilizado por qualquer profissional de saúde ou mesmo pessoas leigas na identificação do risco desses transtornos alimentares, os quais podem ser incapacitantes e ocasionar muito sofrimento.  

O professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade, Frederico Garcia, coordenador da pesquisa e do Naves, conta que ainda não havia uma ferramenta como essa no Brasil, de fácil aplicação. E a relevância desse resultado, inclusive, será publicada neste ano no Brazilian Journal of Psychiatry, “o periódico mais bem avaliado na América Latina em fator de impacto, o que indica que é muito lido e citado”.

“Nossa equipe tem uma preocupação em trazer inovações que melhorem a vida dos nossos pacientes e dos profissionais de saúde. A SCOFF-BR é uma ferramenta simples que pode ajudar muitas pessoas que quase sempre não são diagnosticadas com transtornos alimentares. Esperamos que as equipes de saúde da família possam beneficiar seus pacientes utilizando a SCOFF-BR”

Professor Frederico Garcia

Garcia comenta que as escalas já traduzidas e adaptadas no Brasil quase sempre são longas, demandam muito tempo para serem preenchidas e avaliadas, além de não estarem disponíveis gratuitamente. De acordo com ele, a SCOFF-BR, apresentada acima, resolve essas limitações e alerta o profissional de saúde na avaliação do paciente, mostrando o risco para algum transtorno alimentar. Assim, o profissional pode aprofundar ou não sua busca por informações sobre o comportamento alimentar da pessoa, o que gera economia de tempo e maior eficiência na avaliação.

Além das respostas do paciente, o profissional de saúde precisa avaliar outros fatores como a compreensão do comportamento alimentar, a curva de peso da pessoa ao longo da vida, a relação com o corpo, a forma com que ela enxerga seu corpo e se há presença de alterações no comportamento alimentar, por exemplo. Por isso, é importante que pessoas leigas não considerem o autodiagnóstico.

Entendendo os transtornos alimentares

 O professor explica que os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas que acometem sobretudo adolescentes e adultos jovens. Eles produzem alterações importantes no comportamento alimentar e na forma com que a pessoa percebe seu próprio corpo, levam a pessoa a se privar da alimentação, a estar constantemente insatisfeita com o próprio corpo ou até a ter crises em que comem grandes quantidades de alimento e podem se fazer vomitar.

A anorexia nervosa, bulimia nervosa e o transtorno do comer compulsivo estão nesse grupo dos transtornos alimentares. Entenda mais sobre eles com o professor Frederico Garcia: 

Na anorexia há uma perda importante de peso, restrição à alimentação, marcada de início pela redução das quantidades e depois pelo estreitamento da diversidade alimentar. Além disso, há uma distorção da forma como as pessoas acometidas se veem. Elas se percebem sempre gordas e com feições desagradáveis, um sintoma chamado de dismorfofobia.

A anorexia acomete 1% das mulheres no mundo, mas pode ocorrer também em homens. Tem um curso agudo ou crônico e é um dos transtornos mais mortais das doenças psiquiátricas.

A bulimia se caracteriza pela presença de crises de comer compulsivo, ou seja, a ingestão de grandes quantidades de alimentos em um curto espaço de tempo, seguida por uma sensação desagradável de empachamento e culpa intensa, por ter perdido o controle da alimentação. Para caracterizar a bulimia, além dessas crises de comer muito, deve haver um comportamento compensatório, que pode ser o vômito, o uso de medicamentos para emagrecer, o excesso de esporte ou vários outros meios menos frequentemente usados.

A pessoa com bulimia tende a ter dificuldades para gerir sua ansiedade e as crises acabam se tornando uma rotina para aliviar ou diminuir a ansiedade. São pacientes que sofrem muito com a culpa, o medo de engordar e as dificuldades para gerir suas crises. A evolução tende a ser crônica, com complicações como a hiponatremia, diminuição da quantidade de potássio no sangue, que pode levar a arritmias cardíacas, a lesão do esôfago, dentes e mucosa da boca, devido a passagem do ácido do estômago nos vômitos compensatórios.

Esse transtorno se caracteriza pelas crises de comer compulsivo, como na bulimia, mas sem o comportamento compensatório. Neste transtorno o paciente ganha muito peso e rapidamente evolui para a obesidade mórbida, com todas as suas complicações.

Transtornos alimentares podem aumentar durante a pandemia

“Os transtornos alimentares podem ter sua prevalência aumentada durante momentos de catástrofes como o que acontece com a pandemia pelo coronavírus”, alerta Garcia, com base em um trabalho anterior do seu grupo de pesquisa, que mostrou aumento da prevalência de transtornos alimentares em pessoas expostas à guerra do Líbano em 2006.

“Os transtornos alimentares são, para muitos pacientes, uma válvula de controle da ansiedade. Como na guerra do Líbano, as incertezas, a falta de perspectivas impostas pela pandemia são fatores produtores de ansiedade e, por isso, estimamos que haverá um aumento dos transtornos alimentares durante e sobretudo após a pandemia”

Por isso, ele recomenda a gestão da ansiedade por outros meios que não a comida, como a meditação, a psicoterapia e atividades físicas aeróbicas moderadas. “É importante que a pessoa procure ajuda de um psiquiatra para avaliar se a mudança de comportamento alimentar pode ser um transtorno. Quanto mais precoce a abordagem maior as chances de melhora do transtorno”, conclui.

A SCOFF-BR é a continuidade do processo de validação do questionário inglês SCOFF, que o professor Frederico Garcia fez durante seu doutorado na França e é projeto de pesquisa de mestrado da aluna Ananda Teixeira no Programa de Pós-Graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da UFMG. Além deles, participa a professora Maila Castro, também do Departamento de Saúde Mental e líder do Naves.

“Escolhemos a SCOFF por ela ser uma ferramenta excelente para rastreio e ter sido concebida para ser usada por médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde não especialistas sem transtornos alimentares”, explica Garcia.

A SCOFF-BR estará entre as ferramentas disponibilizadas no site do Centro de Referência em Drogas da UFMG (www.crr.medicina.ufmg.br), coordenado pelo professor Frederico. E, assim que publicado, o artigo de validação da SCOFF-BR também estará disponível gratuitamente no site do Brazilian Journal of Psychiatry (www.bjp.org.br).