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Por que estamos ansiosos?

Pandemia do coronavírus pode agravar estresse e levar a quadros de transtornos de ansiedade


14 de setembro de 2020 - , , , , , , ,


Arte: transtornos mentais na pandemia do coronavírus

Antes mesmo do surgimento do coronavírus, o Brasil já era o país mais ansioso do mundo: segundo a Organização Mundial da Saúde, 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade, que inclui, além do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), as Fobias, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), o Estresse Pós-Traumático e os Ataques de Pânico. Com a pandemia, os casos de ansiedade aumentaram em 80%, de acordo com levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Ansiedade é um dos temas abordados na série do Saúde com Ciência “Transtornos Mentais na pandemia do coronavírus”. Clique e ouça.

“A pandemia pode agravar os quadros de quem já tem transtorno de ansiedade e até mesmo quem já estava com o quadro estabilizado pode voltar a manifestar, porque a situação da pandemia traz muita ansiedade, seja pela incerteza, pelo medo de adoecer ou que alguém próximo adoeça e até pela situação econômica e política do país. Isso tudo é propício para que a ansiedade se manifeste”, avalia a professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Cíntia Fuzikawa.

Por isso, o professor do Departamento de Fisiologia e Biofísica e pesquisador do Núcleo de Neurociências da UFMG, Bruno Rezende de Souza, detalha os fatores de como a pandemia pode nos afetar:

Infográfico: Conceitos da pandemia e como eles nos afetam
1.	Isolamento social: “O isolamento social é um modelo de estresse em animal que a gente usa em laboratório. Se você isolar socialmente um camundongo ou até um peixe por alguns dias, ele apresenta comportamento de ansiedade e depressão. O isolamento já cria um problema para o aparecimento do comportamento ansioso e pode levar ao aparecimento do transtorno de ansiedade.”
2.	Medo: “A taxa de mortalidade pela covid-19 varia entre 0,8% e 5%, isso significa que a cada 100 pessoas que a gente conhece, entre uma e cinco vão morrer por causa dessa síndrome respiratória. Essa informação de que existe um problema grave, cria a expectativa de que algo grave pode acontecer com a gente. Um dos maiores pesquisadores em transtorno de ansiedade do mundo, Frederico Graeff, demonstrou que a ansiedade é um fenômeno que acontece quando o perigo está perto, mas ainda não atacou a gente. O fato de a gente estar com esse medo à distância de uma coisa que é real (a covid-19) faz com que a gente tenha um aumento dessa ansiedade”. 
3.	Incerteza: Como o vírus ainda é novo e as pesquisas ainda estão em andamento, ainda não sabemos que tipos de sequelas podem estar associados à infecção. “Essa incerteza do tanto de coisa que o vírus pode fazer por causa de uma mutação na proteína S, que o deixa mais infectante, faz com que a gente fique mais ansioso”.
4.	Empatia: “Se a gente vê notícias de coisas ruins na televisão, nosso cérebro reage como se aquilo estivesse acontecendo dentro da minha tribo. E aí eu tenho empatia, que é uma vantagem evolutiva, só que agora é uma imagem de uma pessoa com virose na Itália”.

Pelo professor Bruno Rezende de Souza (Departamento de Fisiologia e Biofísica e pesquisador do Núcleo de Neurociências da UFMG)
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De acordo com o pesquisador, a combinação desses fatores impacta diretamente na nossa saúde. “Isso tudo em conjunto vai aumentar nosso peso; diminuir o sistema imunológico; alterar o sistema gastro-intestinal; vai fazer com que a gente tenha queima de energia forte, preparando a gente para um estresse, e nos deixando sempre cansados; pode destruir os neurônios do hipocampo, que pode levar a depressão”, enumera.

Para diminuir esses impactos, a professora Cíntia dá dicas de como controlar a ansiedade nesse período:

Infográfico: Ansiedade na pandemia e como controlá-la nesse período
1.	Tenha uma rotina de alimentação e de sono
2.	Tenha uma alimentação mais saudável
3.	Pratique atividades físicas
4.	Evite bebidas alcoólicas ou com cafeína
5.	Mantenha contato social, mesmo que online
6.	Limite o acesso a notícias sobre a pandemia
7.	Faça exercícios de respiração e relaxamento. 

Pela professora Cíntia Fuzikawa, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG


A Faculdade de Medicina da UFMG, em parceria com a PUC-Minas, elaborou material disponível em projetopausa.com.br
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Acesse o site do Projeto Pausa

Mas o que é a ansiedade?

A ansiedade é uma reação comum do nosso corpo que nos deixa preparados para fugir ou lutar devido a algum perigo próximo. Vale destacar que não é um fator externo não-material que altera nosso corpo, mas um fenômeno emocional do nosso organismo que a gente interpreta seguindo alguns padrões. “Se a pessoa tem ansiedade, o corpo dela já está alterado”, explica o professor Bruno Rezende.

Infográfico: O caminho da ansiedade e como nosso corpo gera a ansiedade - pelo professor Bruno Rezende de Souza

Estímulo externo - córtex visual ou córtex auditivo identificam que algo é perigoso > Alerta enviado para amígdala > amígdala alerta o eixo HPA> É enviado um aviso para a corrente sanguínea > O corpo fica preparado para fugir ou lutar (o que gera a ansiedade)

Eixo HPA (hipotálamo, pituitári e adrenal): envolvido com a resposta ao estresse
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Por exemplo, se você tem um encontro amoroso ou uma entrevista de emprego, é normal que você fique ansioso. Esse fenômeno já muda todas as características do nosso corpo: você vai suar mais, o coração vai bater mais rápido, a frequência respiratória vai aumentar e as pupilas vão ficar dilatadas.

No caso do transtorno de ansiedade, o sistema de fuga ou luta ocorre o tempo todo, com isso, as alterações no corpo são muito diversas. “Esse esquema de ficar sempre te preparando para brigar ou fugir pode fazer com que tenha alterações metabólicas e pode te levar a ter diabetes; pode ter alterações cardíacas com entupimentos de veias; pode ter alteração intestinal, como síndrome do intestino irritável; pode ter alteração hormonal e, no caso das crianças, pode ter alteração na produção do hormônio de crescimento; pode ter até ter alterações reprodutivas; e, nos últimos anos, descobrimos que a ansiedade crônica pode levar à depressão”, esclarece Bruno Rezende.

Infográfico: A falta de ar é um sintoma comum dos transtornos de ansiedade e da covid-19
Como diferenciar?

Covid-19: Geralmente aparecem outros sintomas, como febre e tosse. E não aparece de repente: depois que já manifestou algum sintoma, começa a apresentar alguma falta de r que piora quando faz algum esforço 

Ansiedade: vem de repente e a pessoa sente falta de ar e começa a respirar mais rápido. Mesmo fora de uma crise aguda, a pessoa sente como se o ar não estivesse entrando. Não está ligada a esforço físico.
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Quando se torna transtorno?

Os transtornos de ansiedade são frutos de fatores genéticos – como mutações nos genes que podem favorecer ou dificultar a ansiedade –, e ecológicos-desenvolvimentais – por exemplo, estresses na infância podem fazer com que, na fase adulta, tenha uma ansiedade muito maior do que o que a situação pede. Na prática, o transtorno de ansiedade se torna um problema quando a emoção é tão frequente, que atrapalha o cotidiano.

“A ansiedade é uma emoção que faz parte e é importante para nossa sobrevivência. Ela passa a ser um problema quando ela é tão intensa que passa a atrapalhar o dia-a-dia da pessoa, quando ela passa a não funcionar bem ou quando passa a gerar um sofrimento”

analisa a professora Cíntia Fuzikawa

Quando a ansiedade atrapalha a rotina, é hora de procurar ajuda profissional. O transtorno de ansiedade tem tratamento, por meio de psicoterapia e até pelo uso de medicamentos psiquiátricos. “Os medicamentos só devem ser usados após avaliação e indicação de um médico psiquiatra. Em geral, eles são indicados em casos nos quais os sintomas já estão mais intensos e debilitantes”, recomenda a professora Cíntia.

Especial saúde mental

Como a pandemia do coronavírus afeta pessoas com transtornos mentais? Na segunda semana do mês dedicado à saúde mental, o Saúde com Ciência aborda por que estamos mais ansiosos, o aumento nos casos de depressão, os comportamentos compulsivos e as vulnerabilidades que pessoas com esquizofrenia e transtorno bipolar enfrentam durante a pandemia. Confira a programação:

:: Ansiedade
:: Depressão
:: Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
:: Esquizofrenia
:: Transtorno bipolar

Veja também: Prevenção ao suicídio deve ser redobrada durante o distanciamento social
Acesse a cartilha “Setembro Amarelo: mês de prevenção ao suicídio”

Sobre o Programa de Rádio

Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.