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RT-PCR ou sorológico? Entenda as diferenças entre os testes para a covid-19

Para a maior confiabilidade dos resultados não basta ter os testes em mãos: é preciso saber a hora certa de aplicar e em qual situação.


23 de junho de 2020 - , ,


“Não existe teste perfeito”, de acordo com a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Glaucia Queiroz Andrade, consultora técnica do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina (Nupad). Atualmente, para detectar a covid-19, dois tipos de exames estão disponíveis: os chamados RT-PCR e o sorológico. Mas para a maior confiabilidade dos resultados, não basta ter os testes em mãos. É preciso saber a hora certa de aplicar e em qual situação.

Os exames diagnósticos são uma das principais recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para controlar a disseminação do novo coronavírus, quando realizados junto ao isolamento social.

Desde o início da pandemia, o Nupad realiza o teste molecular (RT-PCR) para diagnóstico do vírus em casos suspeitos atendidos nas unidades hospitalares e ambulatoriais da rede pública. O Núcleo integra a rede de laboratórios coordenada pela UFMG, composta por 13 universidades públicas do país e dedicada a ampliar a capacidade de realização de testes diagnósticos no país.

O que é o RT-PCR?

Considerado o “padrão ouro” ou “padrão de referência”, o RT-PCR é o exame que identifica o vírus e confirma a covid-19. Para isso, o teste busca detectar o RNA do vírus através da amplificação do ácido nucleico pela reação em cadeia da polimerase.

De acordo com a professora Glaucia, esse teste deve ser realizado no início da doença, especialmente na primeira semana, quando o indivíduo possui grande quantidade do vírus Sars-CoV-2.

As amostras são coletadas através de swabs (cotonetes) de nasofaringe (nariz) e orofaringe (garganta). A abordagem do exame, no momento, é do profissional de saúde que está atendendo o paciente no hospital, ambulatório ou consultório. Isso porque é preciso saber a fase da doença para a coleta da amostra.

“Se o vírus Sars-CoV-2 for pesquisado muito precocemente após o contato suspeito, o indivíduo pode estar infectado, mas ainda sem vírus detectável (resultado de RT-PCR falso-negativo). O mesmo resultado pode ser encontrado se a amostra for coletada após o desaparecimento do vírus (mais de 3 semanas de doença)”, explica a professora.

Repetição de exames

O resultado falso-negativo ocorre quando o teste deveria ser positivo porque o indivíduo possui covid-19, mas é negativo. O falso-positivo, ao contrário, é quando teste deveria ser negativo porque o indivíduo não possui o vírus, mas o resultado é positivo. Glaucia comenta que, às vezes, os resultados não são definitivos, uma vez que podem não ser claros.

“Resultados falso-positivos podem levar à quarentena desnecessária e problemas para rastreamento dos contatos; enquanto resultados falso-negativos podem levar à não identificação de pessoas infectadas e disseminação da infecção”, alerta a professora.

Por isso, a especialista frisa que os resultados dos testes devem ser sempre avaliados por um profissional de saúde, “que pode solicitar a repetição do exame ou a realização de outros exames”.

Testes sorológicos

Enquanto o RT-PCR deve ser realizado no início da doença, os testes sorológicos são feitos a partir da segunda semana, quando a quantidade de vírus diminui progressivamente e o indivíduo produz anticorpos contra o vírus, principalmente das classes IgG e IgM.

A professora Glaucia explica que os anticorpos da classe IgM são mais precoces, e podem ser detectados a partir da 2ª semana de infecção. “Já os da classe IgG aparecem mais tardiamente, geralmente após 14 dias da infecção, e persistem por mais tempo”, diferencia.

Os testes de sorologia tradicional para identificar os anticorpos são obtidos nas amostras de soro após punção venosa, realizada em laboratório. Também podem ser obtidos em testes rápidos (imunocromatográficos), realizados em sangue capilar obtido por punção digital.

Medidas de controle

No entanto, estudos sugerem que os anticorpos só são desenvolvidos após a segunda semana após o início dos sintomas. Por isso, a OMS não recomenda o uso de testes rápidos sorológicos na prática clínica. Isso porque o diagnóstico de anticorpos só será possível em uma fase de recuperação do paciente, o que pode ser tarde para uma intervenção clínica ou interromper a transmissão da doença com medidas como o isolamento.

O uso de testes sorológicos, até o momento, é mais indicado para auxiliar a identificar grupos ou populações que já tiveram contato com o vírus. Assim, o gestor de saúde pode, por exemplo, avaliar a população ou grupo de risco para adotar medidas de controle. 

Teste de farmácia

Os testes rápidos podem ser comprados em farmácias. Mas a professora Glaucia Andrade pondera que em geral, devido à urgência da sua liberação para uso, eles não foram adequadamente validados e apresentam incertezas quanto à sua precisão. Por isso, não são recomendados para confirmar o diagnóstico nos casos agudos.

Assintomáticos

Para pessoas que estão sem sintomas da covid-19, o teste em farmácia não se justifica.

“Como os testes ainda têm muitas incertezas em relação à confiabilidade dos seus resultados, o risco é a pessoa ter um resultado positivo, sentir segurança, se expor à infecção, e o resultado do teste ser falso-positivo”,

esclarece a professora Glaucia Andrade

De acordo com ela, pelo o que se sabe até o momento, em casos individuais, não justifica testar. “O teste deve ser recomendado após exposição, dependendo do tempo pós-exposição, e para determinados grupos de risco, de acordo com decisão médica”, acrescenta.

Em relação à confiabilidade dos testes rápidos, a professora orienta a aguardar. “Os testes estão sendo validados e, em breve, teremos mais segurança nos seus resultados”, diz.

Mas se uma pessoa não estiver com sintomas da covid-19 e teve contato há poucos dias com paciente sabidamente positivo, o rastreamento de contato pode ser feito por meio do teste de biologia molecular (RT-PCR). 

“O rastreamento dos contatos tem por objetivo verificar se a pessoa está infectada e pode transmitir a infecção a outras pessoas, mesmo que assintomática”, explica a professora Glaucia Andrade.

Confiabilidade

Para reduzir o risco de resultados de exames que não expressem a realidade do paciente, a professora afirma que três itens devem ser considerados:

 1 testes com bom desempenho, isto é, que sejam sensíveis (detectem o vírus ou os anticorpos quando eles realmente estão presentes) e específicos (confirmem a ausência do vírus ou dos anticorpos quando eles realmente estão ausentes);
2 conhecer a prevalência da covid-19 no país;
3 conhecer a evolução da doença realizando o teste no momento em que as chances de um resultado positivo são maiores.

Outros fatores como a carga viral, a resposta imune do hospedeiro, o uso de medicamentos imunossupressores ou doenças imunossupressoras também podem interferir nesses resultados e levar a falso-negativos. Também é possível ter resultados falso-positivos por reação cruzada com outros coronavírus ou outras infecções, além de problemas técnicos na execução do exame.

Nota técnica

Professores do Departamento de Propedêutica da Faculdade de Medicina da UFMG (PRO) elaboraram uma nota técnica para orientar a população e os profissionais de saúde sobre quem e quando testar, as amostras biológicas adequadas para análise, o alcance e as limitações dos exames disponíveis no momento.

A nota técnica “Estratégias laboratoriais para identificação da infecção pelo novo coronavírus” está publicada no site medicina.ufmg.br/coronavirus, onde a Faculdade reúne informações sobre a covid-19 e apresenta suas ações diante da pandemia.