Transtornos alimentares vão além da comida e comprometem a saúde mental

Compulsão alimentar, anorexia e bulimia afetam o funcionamento da vida cotidiana, alteram a relação com o corpo e exigem atenção precoce para evitar agravamentos.


27 de julho de 2026 - , , , , ,


* Deise Amaral

Estima-se que transtornos alimentares, como a compulsão alimentar, a anorexia e a bulimia, afetem cerca de 4,7% da população em geral, podendo chegar a 10% entre os mais jovens. Embora sejam frequentemente associados apenas à alimentação, esses quadros também são transtornos mentais que provocam pensamentos obsessivos, comportamentos restritivos e prejuízos significativos à rotina e ao bem-estar. É o que explica a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG e convidada do Saúde com Ciência, Ana Maria Lopes.

Segundo a especialista, esses transtornos podem se manifestar tanto pelo consumo excessivo de alimentos quanto pela restrição alimentar severa. Apesar de causarem desequilíbrios nutricionais, a principal origem e os maiores impactos estão na saúde mental. Seja pela tentativa de preencher um vazio emocional por meio da comida, seja pela distorção da imagem corporal, o adoecimento modifica a forma como a pessoa percebe o próprio corpo e se relaciona com a alimentação.

As consequências aparecem em diferentes aspectos da vida cotidiana. Na compulsão alimentar, por exemplo, episódios recorrentes de ingestão excessiva de alimentos podem desencadear outros problemas de saúde, além de sentimentos intensos de culpa, vergonha e sintomas depressivos. Com o tempo, o transtorno também pode comprometer a vida social, os estudos, o trabalho e a autoestima.

Embora apresentem características distintas, anorexia e bulimia compartilham aspectos importantes. Na anorexia, a pessoa restringe de forma severa a ingestão de alimentos, levando à perda acentuada de peso, frequentemente associada à distorção da imagem corporal e à busca por um padrão estético. Já na bulimia, ocorrem episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios, como a indução de vômitos, enquanto o peso costuma permanecer dentro da faixa considerada normal.

Para a professora, valorizar a diversidade dos corpos é uma forma de enfrentar a cultura da magreza e colocar a saúde acima dos padrões estéticos. “É sempre importante você buscar o estar bem, pensando a estética, sobretudo no campo do belo, a partir daquilo que te traz funcionalidade”, destaca. A professora também ressalta a importância de identificar precocemente os sinais de adoecimento, já que, muitas vezes, quem está vivendo o transtorno não reconhece a gravidade da situação.

“Às vezes, a própria família demora muito a perceber o processo de adoecimento. Essas pacientes, e sobretudo na anorexia, funcionam muito bem porque ela está tão decidida a fazer restrição alimentar que ela perde a noção, a referência. Ela queria, por exemplo, perder 10 quilos, já perdeu 15 e não consegue parar. Aí é onde há o agravamento das situações. Então, esse olhar, né? Para quem está no nosso entorno, nosso colega de trabalho, colega de escola, e sobretudo dentro das famílias”.

Professora Ana Maria Lopes

Ouça o podcast na íntegra:

Saúde com Ciência

No programa de rádio Saúde com Ciência desta semana, conversamos sobre distúrbios alimentares. Abordaremos o impacto da cultura da magreza na saúde mental de jovens e adultos. Além disso, alertamos sobre o papel do SUS e das famílias para o tratamento dos distúrbios alimentares.

O Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 7h15, no programa Bom Dia UFMG. Também é possível ouvir o programa pelas principais plataformas de podcasts.

* Deise Amaral – estagiária do Centro de Comunicação

Edição: Alexandre Bueno