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Dor e desconforto durante o sexo pode ser sinal de vaginismo

Violência e repressão sexual contribuem para desenvolvimento da disfunção


    10 de março de 2020 - , , , , ,


    *Lethícia Pechim

    Mais da metade da população mundial feminina sofre com algum tipo de disfunção sexual. Dessas, 7% são afetadas com vaginismo, um fator psicológico que bloqueia ou dificulta a penetração, que pode ser desde o ato sexual até a introdução de absorventes internos e exames ginecológicos.

    O vaginismo são contrações espasmódicas involuntárias do músculo da parede vaginal, causadas por medo da penetração, gerando dores e desconforto à mulher. Este termo foi usado pela primeira vez no século XVII, por Sims, um médico inglês da era vitoriana (caracterizada pela repressão sexual), mas já havia citações dessas dores em livros do século XI.

    Segundo a professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Sara de Pinho, a disfunção pode ter várias origens.

    “Muitas vezes as mulheres que tem o vaginismo têm um histórico de violência seja psicológica, física ou sexual”, afirma a professora.

    Esta violência pode ter ocorrido na infância, na adolescência ou até mesmo na vida adulta. A professora lembra, ainda, que o vaginismo não é hereditário, uma vez que não é uma doença. A especialista destaca, ainda, que a mulher com vaginismo pode ter dificuldade para engravidar, devido à dor durante ou na tentativa da penetração.

    Repressão sexual

    A psicóloga, sexóloga e mestranda em promoção da saúde e prevenção da violência, Enilda Motta, esclarece que a disfunção pode estar muito ligada à culpa por praticar relações sexuais. “O vaginismo tem como fundo o emocional, pode ser fisiológico, mas, geralmente, está muito ligado à criação da pessoa”. Ela também cita que religiões que impõem a importância da castidade e colocam o sexo como algo relacionado exclusivamente à reprodução, demonizando o prazer sexual, contribuem bastante para o surgimento do vaginismo.

    Além da violência, criação e religião, a sexóloga alerta que a falta de diálogo com os pais na adolescência, a repressão sexual e a cultura tradicionalista, que julga a vida sexual feminina, também podem facilitar este desenvolvimento.

    Enilda Motta enfatiza a importância de abordar a sexualidade nas escolas para que os adolescentes tenham maior conhecimento do corpo, não só evitando o vaginismo e ajudando a diagnosticá-lo mais rápido, mas também alertando sobre o que é a violência sexual. “É importante levar profissionais para dentro dessas instituições, trazer esse assunto e tirar dúvidas. Não colocando o sexo de uma forma banal, mas para fazer uma reconstrução de vidas para aquele serzinho que está ali”, opina.

    A sexóloga acrescenta que a construção da sexualidade acontece diariamente, seja com os colegas ou até mesmo sozinho, através da pornografia. Ela reafirma a necessidade de o assunto ser tratado dentro da sala de aula, e questiona: “Será que esta descoberta vai ser realizada de uma maneira saudável? Será que as escolas estão dando conta de falar sobre isto de uma forma saudável?”, completa.

    Programa Saúde com Ciência aborda questões relacionadas à sexualidade. Confira.

    O fim das dores

    De acordo com professora Sara de Pinho, o diagnóstico e tratamento do vaginismo incluem fatores de condições sociais, psicológicas, psiquiátricas, ginecológicas, psicanalíticas e sexológicas. Caso a paciente tenha suspeitas do vaginismo, ela deve procurar um ginecologista. O vaginismo é identificado e caracterizado no consultório e pode precisar de um acompanhamento físico, uma fisioterapia especializada, bem como acompanhamento psicológico e, dependendo do caso, o uso de medicações como antidepressivos e ansiolíticos.

    Sem vergonha!

    O Saúde com Ciência dessa semana aborda um tema que ainda é tabu: o sexo. A programação da semana discute a sexualidade, a pornografia, os padrões de beleza e performance sexual determinados por ela, além da saúde intima do homem e da mulher.

    Confira a programação da semana:

    :: Desejos e construção da sexualidade
    :: Sexo oral
    :: Desmistificação da estética íntima
    :: Cuidados íntimos de homens e mulheres
    :: Vaginismo

    Sobre o Programa de Rádio

    O   Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

    *estagiária de Jornalismo
    edição: Maria Dulce Miranda