Viver em áreas arborizadas reduz chance de obesidade

Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFMG com dados de imagens de satélite associa o local de residência com a saúde cardiometabólica.


04 de outubro de 2022 - , , ,


Belorizontinos que moram em locais com maior quantidade de áreas verdes têm 36% menos chance de apresentar obesidade, segundo mostra tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG. Os resultados apontam que a chance de obesidade é ainda menor quando há maior quantidade de árvores próximo ao local de moradia do que em relação às gramíneas, enquanto os piores números estão nas vizinhanças sem nenhum desses tipos de áreas verdes.

A possível explicação da relação é o impacto das áreas verdes, com destaque para as árvores, na diminuição da poluição sonora e atmosférica, amenização da temperatura local e do estresse, além do estímulo à prática de atividade física e ao convívio entre as pessoas, favorecendo maior coesão social. “Não adianta aconselharmos as pessoas a serem fisicamente ativas se elas não moram em um lugar que tenha estruturas que favoreçam a prática de atividade física. Focarmos em abordagens individuais é importante, mas não é suficiente para promovermos a saúde em nível populacional”, afirma a pesquisadora e autora do estudo, Luciene Almeida.

O trabalho utilizou imagens da cidade obtidas pelo satélite RapidEye, fornecidas pelo Ministério do Meio Ambiente, e dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), uma pesquisa longitudinal desenvolvida por instituições de ensino e pesquisa do país, incluindo a UFMG. Os resultados estão em artigo publicado no periódico Health and Place e fazem parte do doutorado de Luciene, orientado pelas professoras do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina, Luana Giatti e Sandhi Maria Barreto.

Foram analisadas as imagens de satélite de uma área circular de 500 metros ao redor da residência de participantes acompanhados pelo ELSA-Brasil que moravam em Belo Horizonte. Além da obesidade, outros achados foram importantes. Após ajustes estatísticos por condições socioeconômicas dos participantes e pela renda média da vizinhança, os moradores de locais com a maior quantidade de áreas verdes tiveram 38% menos chance de apresentar obesidade abdominal e 25% menos chance de apresentar níveis baixos de colesterol HDL, conhecido como colesterol bom. Os indicadores são considerados fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiometabólicas, representadas pelas doenças cardiovasculares e diabetes.

A partir das imagens de satélite, foi calculado o Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI, na sigla em inglês), que estima pixel a pixel a quantidade de vegetação fotossinteticamente ativa. A partir do NDVI, foi ainda estimada a quantidade de árvores e gramíneas utilizando metodologia validada em campo para a cidade de Belo Horizonte, ou seja, onde o NDVI indicava presença de árvore, havia grande chance da mesma ser encontrada no local. “As árvores, diferente das gramíneas, promovem sombra e contribuem mais com o processo de evapotranspiração. Isso é especialmente importante no Brasil, que é um país tropical. Assim, são importantes políticas públicas para a construção e manutenção de parques e praças, em especial aqueles com árvores”, avalia a pesquisadora.

“Nós podemos afirmar que as áreas verdes podem favorecer a saúde cardiometabólica nas cidades. Devemos ter consciência de que as áreas verdes urbanas contribuem para a saúde ao proporcionar um ambiente agradável, diminuir o estresse e poluição, estimular a prática de atividade física, entre outros pontos.

Os pesquisadores ressaltam que mais pesquisas são necessárias para entender melhor a relação das áreas verdes com a saúde, principalmente com o acompanhamento dos participantes do ELSA-Brasil e das mudanças na distribuição das áreas verdes nas cidades. Um outro artigo sobre a prática de atividade física nas cidades de Belo Horizonte e de São Paulo está em finalização como resultado do doutorado.

Luciene Almeida defende a criação e adequada manutenção de parques, praças e jardins, além do plantio de árvores em canteiros e calçadas nas cidades, escolhendo o plantio de espécies próprias para esses locais. “Nossos dados subsidiam a formulação de políticas públicas para melhoria do ambiente urbano e apoiam, parcialmente, que áreas verdes são importantes para a saúde”, completa.

Financiaram e apoiaram a pesquisa o Ministério da Saúde; o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações; o Ministério do Meio Ambiente; o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

ELSA-Brasil

O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto é uma investigação multicêntrica que acompanha mais de 15 mil trabalhadores de instituições públicas de ensino e pesquisa das regiões Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil. A pesquisa tem o propósito de investigar a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, em particular, as cardiovasculares e o diabetes.

Em cada centro integrante do estudo, os sujeitos da pesquisa fazem exames e entrevistas de 4 em 4 anos, aproximadamente, para avaliar a saúde e obter informações sobre aspectos como condições de vida, trabalho e comportamentos que podem afetar a saúde, como a atividade física. Os participantes tinham idade entre 35 e 74 anos quando ingressaram no estudo em 2008-2010. Em Minas Gerais, o Centro de Pesquisa fica no Hospital Borges da Costa, anexo ao Hospital das Clínicas, sendo coordenado pelas professoras Sandhi Maria Barreto e Luana Giatti, da Faculdade de Medicina da UFMG.

O ELSA-Brasil é a maior pesquisa latino-americana sobre o desenvolvimento de doenças crônicas, como as doenças cardiovasculares, câncer e doenças metabólicas (obesidade, diabetes, dislipidemia, etc), entre outras. Além de fomentar o desenvolvimento de novas investigações, o estudo visa subsidiar a adequação de políticas públicas de saúde às necessidades nacionais.


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