Marcos Antônio de Sousa Jr.: Libras promove inclusão

Publicado em Pessoas
21 de agosto de 2007

libras_anderson21.jpgMarcos Antônio de Sousa Jr. (foto) é professor de Linguagem Brasileira de Sinais – Libras no curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Ele explica as vantagens de a disciplina agora ser obrigatória no curso.

Professor, desde quando foi estabelecida a obrigatoriedade do curso de Libras na graduação em Fonoaudiologia?

A obrigatoriedade foi instituída inicialmente com a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002 (Artigo 4º), mas que carecia de regulamentação, o que foi definido pelo Decreto-lei 5.626, de 22 de dezembro de 2005, Artigo 3º: a Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Qual o papel da disciplina de Libras para a inclusão do surdo na sociedade?

Há muitos papéis, dos quais destaco três: primeiro, modificar a visão que a sociedade tem do surdo, esclarecendo principalmente que o surdo não é mudo, porque a língua de sinais é uma língua como qualquer outra e sua fala em sinais é idêntica à fala em línguas orais. Segundo, mostrar à sociedade que as línguas de sinais são línguas genuínas, idênticas às línguas orais, e não apenas linguagens, mímicas ou gestos, sendo portanto tão complexas de aprender quanto às línguas orais, bem como capazes de levar os surdos aos mesmos níveis de desenvolvimento que as línguas orais viabilizam. Terceiro, ao reconhecer os instrumentos diferenciados de comunicação do surdo, promover a inclusão social através do resgate de sua humanidade e cidadania.

Outras faculdades já incluíam o ensino de Libras na grade curricular do curso de Fono?

A disciplina já existia como optativa em cursos ofertados pela PUC Minas bem antes da promulgação do Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Também outras universidades particulares ofertavam cursos de Libras terceirizados antes e depois da promulgação do decreto. No entanto, quase sempre estes cursos terceirizados eram considerados cursos livres e não cumpriam as exigências enquadradas na lei e no decreto.

Que alterações ocorrerão à disciplina nesta mudança de optativa para obrigatória?

Não serão necessárias modificações na disciplina. Trata-se de um curso básico que exige o desenvolvimento de faculdades de comunicação na língua, não a fluência ou a competência profissional para o exercício da tradução/interpretação, como ocorre em cursos mais avançados. Agora, a diferença entre uma disciplina optativa e uma obrigatória é que na optativa, a reprovação não incorre em impossibilidade de conclusão do curso, e na obrigatória a reprovação impede a obtenção do título.

A obrigatoriedade da disciplina de Libras irá minimizar o preconceito da sociedade para com o surdo?

É bem possível, mas depende muito da subjetividade de cada um. Ensinar uma língua viva implica ensinar a cultura a ela subjacente. Os maiores usuários da Libras no Brasil  – por enquanto – são os surdos, mas a disseminação de tais cursos de Libras pode levar a uma inversão nesta estatística, então evidentemente a visão que se propaga, ao ensinar a Libras, é a visão que os surdos coletivamente têm do mundo. Ao vivenciar um ponto de vista alheio, é bem possível que as pessoas que estão aprendendo se solidarizem e passem a respeitar as diferenças. A alteridade costuma transformar a sociedade e beneficiar os excluídos.

Quais os principais benefícios que o curso de Libras trará aos futuros fonoaudiólogos?

A meu ver, um curso de Libras é essencialmente um curso de línguas. Aprender uma nova língua é desenvolver uma nova maneira de se comunicar, consequentemente ampliando a capacidade expressiva de um indivíduo. Uma nova maneira de representar o pensamento, significar o mundo, é também uma outra forma de ver a realidade e se posicionar.

E para os surdos e a sociedade como um todo?

Se observarmos que a sociedade como um todo não é composta somente de pessoas que ouvem, o aprendizado de uma língua utilizada como primeira língua por cidadãos surdos de todo país é um tremendo benefício quando estes cidadãos decidem procurar um atendimento fonoaudiológico, para justamente inverter o que acontece em um curso de Libras: aprender a língua oral utilizada pelas pessoas que ouvem. Isso pode levar a uma maior integração e inclusão social. O surdo, ao se ver valorizado e respeitado em sua particularidade, pode ir desenvolvendo o interesse pelo aprendizado da forma oral da língua portuguesa, que atualmente não é uma obrigação legal para pessoas surdas. Segundo a lei, a Libras apenas não substitui a forma gráfica da língua portuguesa. Mas é difícil encontrar pessoas que se proponham a manter uma conversação somente através de bilhetes! O bilinguismo que o surdo é obrigado a manter para se incluir em sociedade abrangeria também a comunicação oral, se ela for oferecida adequadamente por profissionais da fonoaudiologia capazes de se relacionar com ele e ensinar satisfatoriamente. Isso poderia melhorar as relações em vários ambientes que os surdos dividem com pessoas que ouvem.

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Libras torna-se obrigagatória no curso de fonoaudiologia – 21 de agosto

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