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Dor, depressão e ansiedade podem estar entre as sequelas da covid-19

Pesquisa da Faculdade em parceria com Hospital das Clínicas (HC) e outros hospitais investiga possíveis sequelas da Covid-19


08 de setembro de 2020 - , , , , ,


A batalha contra o novo coronavírus pode não estar completamente vencida após a alta hospitalar. Isso porque alguns sintomas podem persistir por meses e até anos, comprometendo a qualidade de vida dos “recuperados” da doença. É o que indica a literatura já existente sobre o assunto (imagem 2) e o que tem sido observado em pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da UFMG com pacientes internados no Hospital das Clínicas da Universidade.

Um primeiro grupo (35 pessoas) que vem sendo acompanhado pelos pesquisadores desde julho deste ano relatou, um mês após a alta, sentir dor e impactos no estado emocional com sintomas de ansiedade e depressão, além de fraqueza nos braços, fadiga e falta de ar. E pelo menos um terço teve capacidade reduzida para realizar esforço físico. A expectativa é de que até o final da pesquisa, que tem duração prevista de um ano e meio, cerca de 400 pacientes sejam acompanhados.

A professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, Carolina Marinho, coordenadora do estudo, explica que alguns desses sintomas como dor e falta de ar podem estar relacionados especificamente com a Covid-19.

“A doença acomete o tecido pulmonar, lesionando o alvéolo – unidade que faz a troca de oxigênio por gás carbônico”, esclarece.

O pulmão é um órgão vital que permite a troca de oxigênio entre o ar externo e o sangue e também pode sofrer lesão na parte circulatória. Isso porque há formação de coágulos até na microcirculação pulmonar.

Já em outros sintomas, como a fraqueza muscular, essa separação não é tão nítida. Assim, não é possível dizer se a sequela tem relação com a doença ou se é consequência da imobilidade durante o período de internação hospitalar, que costuma ser de pelo menos uma semana.

“Por um lado, o processo de inflamação aguda da Covid-19 ativa uma resposta inflamatória, que pode produzir lesão direta em nervos periféricos e músculos, produzindo fraqueza. Por outro lado, temos o descondicionamento físico que é provocado pela imobilidade”, explica Carolina Marinho ao reforçar os dois possíveis componentes da franqueza muscular.  

Imagem 1: clique para ampliar

Sintomas por anos

Apesar de a pesquisa ainda estar no início das investigações, é possível que algumas das sequelas da Covid-19 identificadas nesse primeiro grupo de pacientes persistam por até dois anos. Isso se a Covid-19 seguir a mesma tendência da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), doença causada por agente da mesma família do coronavírus, identificada em 2002.

“Estudos relataram que 30% dos pacientes da SARS-CoV tiveram problemas pulmonares por até dois anos”, aponta a especialista.

Após esse período, são os casos considerados crônicos, quando as sequelas são permanentes, o que também é uma possibilidade para a Covid-19. A professora também aponta que há casos de pacientes que estiveram no Centro de Terapia Intensiva (CTI) por outros motivos e permanecem com condições relacionadas à internação até cinco anos depois.  

Análise

Para analisar possíveis sequelas da Covid, os participantes convidados (sobreviventes que receberam alta hospitalar) passam por exames, avaliação clínica e subjetiva a partir de um mês após a alta até o período de um ano e meio.  

A avaliação clínica é direcionada para a parte respiratória, testes de avaliação da capacidade pulmonar e da força muscular periférica. Para a avaliação subjetiva, é aplicado questionário que analisa a qualidade de vida por meio de cinco domínios: mobilidade, autocuidado, atividades usuais, domínio da dor e saúde mental (ansiedade e depressão).  

Há ainda perspectiva de fazer avaliação de imagem nos participantes a partir do sexto mês de alta, para identificar alterações estruturais e morfológicas no pulmão daqueles que permaneceram com os sintomas.

Ansiedade e depressão

Imagem 2: clique para ampliar

Até o momento, a percepção de dor, ansiedade e depressão foram as mais prevalentes entre os participantes durante a avaliação subjetiva. A professora e coordenadora do estudo, Carolina Marinho, acredita que a saúde mental pode sofrer impactos devido ao isolamento do paciente durante a internação, em que paciente fica privado de visitas familiares e, em alguns casos, sem contato por celular com os entes e amigos.

Além disso, antes mesmo da definição do diagnóstico, esses pacientes relatam sentir medo de se contaminar no ambiente do hospital e, quando a Covid é confirmada, o medo passa a ser da incerteza da evolução da doença. Isso, é claro, para os pacientes que permanecem conscientes nesse processo.

Já aqueles que precisam ir para o CTI e usam ventilação mecânica não ficam conscientes durante todo o período de internação, o que pode deixar lacunas na memória. “Essa falta do entendimento do que aconteceu naquele período é outro fator relacionado a internação que pode alterar a saúde mental”, complementa a professora.

Assistência

Além dos pacientes que permaneceram internados, é possível que aqueles que tiveram a doença, mas se trataram em casa também, apresentem sintomas persistentes. “O nosso estudo não avalia isso, mas há relatos nesse sentido e provavelmente daqui a pouco teremos esse conhecimento através de outros estudos”, antevê a professora da Faculdade de Medicina.

Uma pesquisa publicado mais recentemente no Journal of the American Medical Association (JAMA) analisou 143 pacientes na Itália. Desses, apenas 12,6% foram internados em UTI, mas 87,4% relataram persistência de pelo menos um sintoma por mais de dois meses, como fadiga e falta de ar.

Com isso, pode ser ainda maior a quantidade de pacientes que vão precisar de assistência prolongada, gerando mais demandas para o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a professora Carolina, ainda não se sabe a dimensão desse impacto, mas ela pontua que a quantidade de pacientes é uma grande questão.

“Porque se eu falar que 3% vão precisar de assistência crônica por doença pulmonar, imagina quanto esse percentual representa em 3 milhões”, alerta.

As estatísticas gerais da pandemia, mostram que 80% dos infectados apresentam a forma leve, cerca de 20% são graves e precisam ir para hospitais e por volta de 5% vão para a terapia intensiva.

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