Febre Reumática: desafios a longo prazo

Doença ainda é negligenciada, principalmente se consideradas complicações cardíacas ecusto econômico de sequelas.


08 de junho de 2017


Doença ainda é negligenciada, principalmente se consideradas suas complicações cardíacas e o custo econômico de sequelas.

Ives Teixeira Souza*

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A febre reumática é uma doença crônica, que se manifesta por surtos agudos, mais frequentemente com início na infância, entre 5 e 15 anos, e suas sequelas cardíacas acompanham o indivíduo por toda vida, com elevado risco da necessidade de cirurgia nos conjuntos de válvulas do coração. “Não existe tratamento curativo, restando a prevenção como arma mais eficaz no combate à doença”, afirma a professora do Departamento de Pediatria e membro do comitê de febre reumática da Federação Internacional de Cardiologia, Cleonice Mota.

Segundo a professora, a doença se manifesta a partir de uma inflamação da garganta que, não tratada adequadamente, pode gerar várias complicações. “A febre reumática é uma doença inflamatória, que envolve vários órgãos e se manifesta por complicação tardia de uma inflamação de garganta, causada pelo estreptococo, em indivíduos com predisposição genética”, explica.

Consequências cardíacas
Entre as sequelas, a doença pode provocar artrite nas articulações, de quatro a seis semanas, nódulos na parte subcutânea da pele, e manchas na pele, além de acometer parte do cérebro, com uma alteração chamada de coreia. ”São movimentos incoordenados que, apesar de conscientes, são involuntários. A pessoa sabe que está fazendo movimentos que a impedem de falar, se vestir, locomover, mas não consegue controlar”, descreve Cleonice.

A professora conta que a única sequela que pode levar à morte do paciente está relacionada a valva cardíaca, nome do conjunto de válvulas do coração. “O anticorpo da doença produz uma lesão na valva, atingindo o lado esquerdo do coração, acometendo as válvulas mitral e aórtica. A válvula sofre um processo inflamatório: ela se deforma, endurece, e fica incompetente ou destruída com o tempo”, explica.

Ela destaca o alto índice de cirurgia relacionada à doença. “Das cirurgias de valva no Brasil, hoje, 90% é relacionada à febre reumática. Se a valva não estiver tão destruída, conseguem fazer uma sobrevida da valva”, afirma. Caso for preciso trocar a valva, Cleonice explica que elas podem ser de tecido biológico ou de metal. “A primeira dura, no adulto, dez anos, e na criança, que tem um crescimento muito rápido, no máximo três anos. Com a de metal o problema não é a durabilidade, mas o fato de que ela destrói hemácias. Então é preciso tomar um anticoagulante”, continua.
Prevenção
A professora explica que a doença é totalmente passível de prevenção. “A primeira é erradicar a bactéria que causa a infecção de garganta, com a ação adequada do antibiótico, até o 9º dia de infecção, para garantir a proteção no sangue por mais 10 dias”, orienta.

Se a febre reumática não for evitada, o paciente deve tomar medicação, injetável ou oral, para que se evite uma nova infecção, o que provocaria mais lesões na valva. “O paciente vai necessitar, regularmente, de um antibiótico para manter o nível sanguíneo, para que o estreptococo não consiga entrar no corpo dele”, conta a professora. Cleonice ainda explica que a medicação não evita a evolução das lesões já existentes, mas um novo surto.  “Mesmo que esse indivíduo tome o antibiótico, independente dele não ter outros surtos, a lesão antiga evolui sozinha”.  “É uma doença terrível, porque não há controle da evolução sobre a valva cardíaca, só os meios para que ela não se instale”, comenta.

A doença apresenta forte caráter social, sendo registrada com maior freqüência em nações com baixos índices de qualidade de vida. Os países subdesenvolvidos, por exemplo, possuem índices sobre febre reumática semelhante aos registrados pelos países desenvolvidos há um século.

Aspectos socioeconômicos 
A doença apresenta forte caráter social, sendo registrada com maior freqüência em nações com baixos índices de qualidade de vida. Os países subdesenvolvidos, por exemplo, apresentam índices sobre febre reumática semelhante aos registrados pelos países desenvolvidos há um século.

Como indica Cleonice, a reincidência é muito maior em países em situação de pobreza. Entre os fatores está a ausência de diagnóstico e a falta de acesso ao cuidado para a prevenção. “Se há melhora da condição social, com habitações adequadas, tratamento adequado e, principalmente, instrução aos pais para perceberem a gravidade da situação, e a necessidade de tomar o medicamento mesmo sem estar doente a reincidência diminui”, esclarece.

A professora explica que há, inclusive, um grupo na Organização Mundial de Saúde para que se consiga que a doença seja classificada como doença negligenciada, o que gera recursos para o tratamento, a pesquisa, e o treinamento para o diagnóstico.

A febre reumática, além de apresentar graves consequências para o paciente, acarreta um grande custo econômico para o Sistema Único de Saúde (SUS), ao exigir repetidas consultas, internações hospitalares e cirurgias cardíacas para a correção das valvas. “Os gastos gerados pela assistência aos pacientes de doença aguda e crônica no Brasil são significativos. Em 2007, de todas as cirurgias cardíacas realizadas neste período, 31% abordaram pacientes com sequelas de febre reumática”, demonstra a professora.

“A questão não é só sobrevida, são anos de vida perdida por incapacidade. Esse paciente também, muitas vezes, fica dependente. A doença tem um peso econômico abismal. São mais de 400 mil internações por ano no mundo, tendo a maior prevalência em países em situação de pobreza”, realça Cleonice.

Nas três últimas décadas houve um intenso trabalho para que a doença fosse mais divulgada, e, com isso, mais diagnosticada pelos profissionais de saúde. Em Minas Gerais, por exemplo, após a implantação do Programa de Estudo e Controle da Febre Reumática, em 1987, houve, em princípio, o aumento no número de diagnósticos, o que culminou na diminuição da recorrência da fase aguda de 25% para 2%, como explicou Cleonice. “O grave hoje no Brasil é a cardiopatia reumática crônica, e por isso, há essa necessidade de prevenção, a fim de que não se tenha um surto”, conclui a professora.


Simpósio Internacional

A Faculdade de Medicina sedia, no próximo dia 9 de junho, sexta-feira, o Simpósio Internacional de Febre Reumática, coordenado pela professora do Departamento de Pediatria, Cleonice Mota. O evento vai reunir especialistas para debater a prevenção e o modo atual de abordagem da doença.

O Simpósio que acontece no Auditório do Centro de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina, das 13h às 19h, no dia 9 de junho, vai ser transmitido por vídeoconferência, com tradução simultânea.

Mais informações na página do Simpósio..

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*Redação: Ives Teixeira Souza- estagiário de jornalismo
Edição: Mariana Pires