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Julho Amarelo: campanha conscientiza sobre prevenção das hepatites

Neste 28 de julho, comemora-se o Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites. Programa “Saúde com Ciência” dedica série especial sobre o tema


27 de julho de 2021 - , , , , , ,


*Maria Beatriz Aquino

Silenciosas, as hepatites virais passam despercebidas por pelo menos 1 milhão de pessoas no país, que convivem com a infecção sem saber. Somente as hepatites do tipo B e C são responsáveis por cerca de 74% dos casos no Brasil, sendo que a tipo C corresponde a 76% das mortes, segundo dados do Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig). Por isso, este 28 de julho é reservado para o Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites. A data integra o Julho Amarelo, campanha que ressalta a importância da testagem precoce contra as hepatites virais e o encaminhamento para tratamento. Isso porque, quando não tratadas, as hepatites podem levar a outras doenças graves, como câncer de fígado e cirrose.

Para a professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, Luciana Diniz Silva, convidada do programa Saúde com Ciência desta semana, a conscientização por meio de campanhas tem papel importante na contenção da doença. “A gente está vivenciando isso agora durante a pandemia: o quão importante é a informação para a população”, frisa. E já existe meta para eliminar a hepatite de vez: a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS), em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS), almeja eliminar a doença como uma ameaça à saúde pública até 2030. 

A hepatite possui algumas variações, dentre elas o vírus A, B e C, que são os mais comuns no Brasil. Por serem virais, os sintomas iniciais geralmente são parecidos para todos os tipos dessa enfermidade, como febre, mal estar e dor no corpo. Mas como essa infecção acomete o fígado e pode se tornar crônica, ou seja, ter seus sintomas prolongados, outras manifestações também podem surgir. Alguns desses sintomas vêm em forma de icterícia – amarelão dos olhos ou da pele – e dor na região do fígado, já que esse órgão é o foco da doença e tende a aumentar seu tamanho.

  

HEPATITE A

Com o avanço da pandemia de covid-19, os cuidados com a higiene precisaram ser reforçados. Lavar constantemente as mãos, os alimentos e evitar levar os dedos nos olhos foram alguns hábitos adquiridos e que poderiam contribuir também para a prevenção da hepatite A. Isso porque esse tipo de hepatite é transmitido, principalmente, por meio de água e alimentos contaminados e mal lavados. Mas não foi bem assim que aconteceu. Embora alguns cuidados com a higiene tenham sido redobrados com a pandemia, o vírus também pode ser contraído por via fecal-oral, o que coloca em risco grande parte dos brasileiros, já que trinta e cinco milhões deles não têm acesso à água potável e quase cem milhões não possuem serviços de coleta de esgoto.

Para Luciana, a precaução ao chegar em casa e limpar os mantimentos de forma adequada é necessária para a prevenção, assim como não ingerir alimentos de origem não conhecida. Mas com os números alarmantes apresentados pelo Instituto Trata Brasil, organização voltada para os avanços no saneamento básico, a prevenção também se torna uma questão de política pública.

“Nós, enquanto cidadãos, devemos exigir uma política pública melhor e que o saneamento básico atinja o maior número de pessoas, porque todos precisam ter dignidade de vida”, ressalta Luciana Diniz.

Já existe vacina contra o vírus A, disponibilizada de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e o período para se imunizar vai dos 12 meses de idade até 5 anos incompletos – 4 anos, 11 meses e 29 dias. Mas caso seja feito o teste de sorologia em qualquer outro momento da vida e os anticorpos não sejam identificados, a professora reforça que é possível se vacinar na rede privada.

HEPATITE B

Diferente dos tipos A e C, a hepatite B ainda não tem cura, mas pode ser acompanhada e controlada junto à equipe médica. De acordo com dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, quase 4 milhões de pessoas já foram contaminadas por esse tipo em toda a América. Por ter um alto risco de transmissão, o Ministério da Saúde já considera a hepatite B como uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST). 

A professora explica que ainda não existe um medicamento capaz de retirar, completamente, a infecção do corpo humano devido a uma parte, conhecida como Forma Circular Convalentemente Fechada, que també pode estar associada ao aparecimento de câncer no fígado.

“A gente não consegue curar, mas já conseguimos tratar e até tirar o indivíduo da fila do transplante. Sem contar que é possível frear o processo de fibrose no fígado e regenerá-lo”, explica.  

As formas de contaminação com a hepatite B são diversas e vão desde a doação de sangue até o alicate de unha utilizado no salão de beleza. Aos casais que compartilham escova de dente, por exemplo, Luciana alerta que também é uma fonte importante de transmissão, assim como relações sexuais desprotegidas.

Além dessas, a transmissão vertical, de mãe para filho é frequente em muitas gestações e também no momento do parto. Por isso, logo ao nascer é preciso que o bebê já seja vacinado, caso contrário, o risco da infecção se tornar uma hepatite crônica chega a 90%. 

HEPATITE C

Para se ter ideia da gravidade dessa infecção, a hepatite C fez cerca de 70 milhões de vítimas em todo o mundo. Os pesquisadores que identificaram essa variação foram os vencedores do prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, no ano passado. Foi a partir dessa descoberta que foi possível encontrar uma cura para a enfermidade.

O vírus, identificado em 1989, não causa sintomas específicos no organismo, mas pode levar à cirrose hepática. Segundo a professora, 40% dos pacientes que evoluem para essa complicação nem mesmo apresentam sintomas, o que dificulta o diagnóstico. 

“Só vão se tornar sintomáticos quando tiver uma descompensação da cirrose hepática, uma deterioração do órgão. E aí pode surgir o amarelão, vomitar sangue e ter barriga d’água também, que são complicações da cirrose”, detalha Luciana. 

Entre algumas doenças desencadeadas pela hepatite C, podem aparecer vasculites – que são pequenos rompimentos de vasos sanguíneos -, depressão, doenças que dão dores nos joelhos, de caráter reumatológico e imunológico. O tratamento nem sempre é medicamentoso, e por isso começa com uma investigação. Depois de identificado o problema, um plano terapêutico é preparado, o que inclui acompanhamento, orientações e medidas de promoção de saúde.

“Daí em diante, nós caímos nos cuidados gerais, com alimentação saudável, não ingerir álcool, e aqueles que têm a forma crônica, tem a indicação de se vacinar para as outras hepatites virais, já que são susceptíveis a elas”, conclui a professora. 

E para quem tem o hábito de doar sangue com frequência, a prevenção é indispensável, uma vez que contaminado por qualquer vírus das hepatites, o indivíduo fica permanentemente proibido de realizar as doações.

Ficou curioso para saber detalhes de cada hepatite? Ou se você pode ser do grupo de risco de alguma delas? Confira essas e outras informações no programa Saúde com Ciência desta semana.

Saiba mais no Saúde com Ciência

No “Saúde com Ciência” desta semana, você vai conhecer os impactos da perda auditiva em idosos e as doenças do labirinto, bem como entender a relação entre audição e demência, e os principais cuidados para a manutenção da saúde auditiva.

programa é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

*Maria Beatriz Aquino – estagiária de Jornalismo l Edição: Karla Scarmigliat

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